Uso aqui publicar fotos que ilustram poemas ou até, mais frequentemente, fotos que comento com alguma escrita de pendor poético, mas o que vos trago hoje não é uma poema-foto, nem um foto-poema, mas um poema em foto.
Trata-se de uma fotografia, batida em Alte, sobre um painel de azulejos, numa homenagem ao poeta Cândido Guerreiro, natural desta singela localidade do concelho de Loulé.
segunda-feira, novembro 16, 2009
Poema em foto
sexta-feira, novembro 13, 2009
Rubis
Jorge de Sousa Braga, tradutor de um haiku de Matsuo Bashô que aqui publiquei há duas semanas, é também ele um poeta.
Um seu brevíssimo poema para este fim-de-semana.
- Rubis
A terra escondeu nas entranhas
as suas lágrimas de sangue
para que ninguém as pudesse ver
Jorge Sousa Braga
O Poeta Nu
[poesia reunida]
Assírio & Alvim, Lisboa 2007
quarta-feira, novembro 11, 2009
Entre o mito e o homem

O Infante olhando o mar.
Pelo que conheço dele, apesar de toda a mitografia associada, deveria ser homem pouco dado à contemplação da Natureza e pouco preocupado com as condições do tempo, para além das que teriam a ver com o êxito dos seus projectos.
Com a mentalidade própria da sua época e a classe social de um príncipe, de um Infante de Portugal, não lhe deveria passar pela cabeça qualquer preocupação com as gentes do povo que lhe pudesse merecer algo mais do que a distante atitude da chamada "caridade cristã".
Se caravelas houvesse que não partiam com tempo agreste, mais se deveria ao êxito do empreendimento e menos à preocupação com o número de vitimados pelas calamidades do tempo e as condições da viagem.
Praticamente senhor de todo o Algarve, acumulava dividendos pessoais das mais variadas actividades da região, desde o produto da pesca à produção de farinha, de azeite, de frutos secos, de vinho...
E estou em crer que não os usaria em proveito pessoal, de tal forma seria um homem imbuído nos seus afazeres, projectos múltiplos, lúgubre e misógino como parece ter sido.
Mas os mitos empurram-nos para observar um Infante, superiormente sentado frente ao mar, olhando o vento que verga as palmeiras, preocupado com a sorte dos seus mareantes e o destino daquelas mulheres e filhos que no cais ficavam a acenar.
segunda-feira, novembro 09, 2009
A Alvorada, de Palma Dias
Embora conheça o poeta, perdi há muito o contacto com a sua poesia.
Voltei a encontrá-la de novo em Escritores Portugueses do Algarve, numa publicação das Edições Colibri.
O poema que transcrevo tocou-me no que de mais autêntico e profundo há no meu próprio ser, do que me alimentei a partir do ambiente envolvente, da paisagem, da gastronomia, dos costumes e tradições, desta terra da minha infância que Palma Dias canta como nunca antes senti.
Um deslumbramento.
- Alvorada
Lembro as terras de infância o sossego do sal
As águas lentas dos esteiros, a foz
Do Guadiana
O voo das francelhas do castelo
Cometas e morcegos, gaviões do cair da noite no
[crescer do Verão
O porto-cais de madeira com a lua cheia
... cheira a Japão e China
A rio com os tamancos mouros
A maresia
A levante
Com o sapal branco de gaivotas na tormenta
[Terra marismeña]
Piras de Sal
Nortada (restêvas)
Fadas e moiras
Quimeras (relento)
Lume brando do caldeiro
Panela de ferro
Cozido com xíxaros e peras
Toucinho amanteigando o pão
O forno de São Bartolomeu, o barrocal, o arvoredo
A feira de Setembro com os pêros, suspiros e copinhos de medronho
A corredoira
A estila
O nógado, a casa do azeite e o lagar
Avô de chapéu, cajado, barbas como vi na Índia
O prazer de um figo na ialva e
Atravessar em Monchique, a floresta do Norte
Luz que desmamou, pais
Na volta à terra pelo São João
Fogueiras, mastros, murta e alecrim, ninhos
Aldeias de laranja
Ou o Senhor Morto matraqueando a noite
A noite noite, noite de capuzes
Noite balandrau
Noite de velas incenso, damasco roxo
Noite de salmoira
Grave
Com o rosmaninho atapetando o chão
E as mulheres gritando a agonia
A infinda morte naufragada.
Perfumes de mistura, farrôba e marmelo
Arrôbe
Adega com vinho
Açôrda com poêjo
Açafates de bilros
Meias de cinco agulhas, mantas de Serra
Água do Cabeço, barca, ameijoas
Conquina, as pinhas do mirante
Um escorpião de oiro
O sussurro onde tinem todas as estrelas e
Em grandes abóboras, cintilantes
Carroças da bela adormecida...
... ai o que nos resta de um país azul
Serão os velhos livros, suas capas lindas
Ou serão histórias da Senhora dos Mártires
Promessas pagas com trigo e azeite, cera e frangos
Oiro, a marca das fitinhas
A seda de todas as cores
A prôa de Sagres
O cavaleiro andante da eterna mocidade?
O mal se espanta
Descobre-se
Que não cansa
Sempre alcança, continua
Cantado
Trauteando
Pela rua do Estácio
Atravessas Tudo.
Francisco Manuel Palma Dias
Onde Amar Começa a Terra Acaba
Guimarães Editores, 1985
Ilena Luís Candeias Gonçalves
Escritores Portugueses do Algarve
Edições Colibri, Lisboa 2006
P.S.
A minha transcrição respeitou a escrita original.
sexta-feira, novembro 06, 2009
6 de Novembro de 1919 / 6 de Novembro de 2009
Sophia
Permiti-me este tratamento a sépia)
- ONDAS
Onde -ondas - mais belos cavalos
Do que estes ondas que vós sois?
Onde mais bela curva do pescoço
Onde mais bela crina sacudida
Ou impetuoso arfar no mar imenso
Onde tão ébrio amor em vasta praia?
Sophia de Mello Breyner Andresen
Musa
Caminho, Lisboa 2004
quarta-feira, novembro 04, 2009
Paredes com janelas por dentro delas

Há uma luz que o pigmento desta parede retém e que em particular me atrai e tranquiliza.
Há coisas inertes que nos chamam como se houvesse vida dentro delas.
Quase vislumbro ainda, nos traços que o desgaste do tempo desenhou, duas cabeças unidas num afago, num carinho, num beijo ou somente num segredo confiado e que não mais poderemos escutar.
Também as vês?
segunda-feira, novembro 02, 2009
O meu logótipo é melhor do que o teu
Se eu fosse o autor do logótipo das Autárquicas de 2009 acharia que o logótipo da candidatura das Federações de Futebol de Portugal e de Espanha, se bem que menos dinâmico do que o meu, estaria a plagiar o meu trabalho.
E era capaz de apostar que o da candidatura foi bastante mais caro, apesar do meu se aproximar mais da forma de uma bola de futebol. :))
