segunda-feira, novembro 23, 2009

Pelo aniversário de ...


                                    ... Herberto Helder:



  • Nenhum corpo é como esse, mergulhador, coroado
    de puros volumes de água.
    Nenhuma busca tão funda, a tal pressão,
    como pesa na água uma ilha fria,
    a raiz de uma ilha.
    Uns procuram ramas de ouro.
    Outros, filões de púrpura unindo
    sono a sono. Há quem estenda os dedos para tocar
    as queimaduras no escuro. Há quem seja
    terrestre.
    Tu esbracejas entre sal agudo.
    Não falas, mal respiras, moves-te apenas
    e fulguras
    como uma estrela cheia de bolhas.
    Feroz, paciente, arremetido, mortal, centrífugo.
    Com todo o peso do coração no centro.
(poema dedicado ao pintor Cruzeiro Seixas)

Herberto Helder
FLASH, 1980
Ou o Poema Contínuo
Assírio & Alvim, Lisboa 2004

domingo, novembro 22, 2009

Obrigado!


O meu obrigado a todos os que contribuíram para que este blogue tenha ultrapassado, há poucos minutos,

250 000

page views.

sexta-feira, novembro 20, 2009

Que vivam as crianças!


Fui cativado pela graça e sensibilidade do realizador francês Gilles Porte, cujo trabalho a TV5Monde (canal internacional da televisão francesa) elegeu como forma de divulgar a passagem do 20º aniversário da Convenção sobre os Direitos da Criança, que se comemora precisamente hoje, 20 de Novembro de 2009.

Gilles Porte percorreu 20 países, dos 5 continentes, propondo a crianças entre os 3 e os 6 anos de idade, que não soubessem ler nem escrever, que desenhassem o seu retrato, em transparência, sobre uma superfície vidrada.
São 80 os retratos que a TV5Monde irá revelar no dia 20 e onde, ao vídeo de cada criança no momento de desenhar, se segue uma animação sobre o seu próprio retrato.
A banda sonora joga também um papel fundamental nesta série de vídeos que, creio, vos irão tocar emotivamente.

Penso não ir interferir nos direitos de autor, que me parece ter defendido nos vários links e referências aqui deixados, a que acrescento o do local preciso onde, a partir de hoje, é possível aceder aos 80 vídeos deste cineasta: (clicando aqui).
Fica uma amostra, com o vídeo de um miúdo birmanês.

quarta-feira, novembro 18, 2009

Em Silves onde as fontes



  • Em Silves onde as fontes

    Chegaram os cruzados e o silêncio
    tocou o fundo da água da cisterna.

    Dispersaram-se os sons do alaúde
    nos jardins do alcácer, onde as fontes
    acompanhavam vozes e corriam
    para um tempo de terra e poesia.

    E alguém chorou a sorte destes campos
    que, um pouco mais a Sul, vêem o mar.
    Alguém deixou a marca para sempre
    de um perfume mais branco que as partidas.

    Guardam flores de sangue alguns caminhos.
    Os guerreiros passeiam sob as naves

    Agora, uma flor branca sai da fenda
    mais alta da muralha e muda a cor
    da pedra à volta, dá-lhe novo brilho
    como se o tempo fosse um arco vivo.

    Húmido canto chega deste rio
    que foi lugar de festa e de viagem:
    ainda se ouve um canto nesta margem,
    um alaúde, um baile, a dança leve.

    Chega do mar um vento luminoso
    que toca a pedra ruiva do castelo:
    traz o gosto da amêndoa, da laranja,
    das rosas bravas, soltas sobre a terra.

    O Garb Al-Andaluz mostra as ruínas:
    nos poços, nas cisternas de arenito
    corre, ainda, o perfume dos vestidos,
    esvoaçando leves sobre os corpos.

    Quem dera ouvir, agora, Ibn Amar
    a ciciar os versos da paixão!
    Quem dera, em Silves, ver Al-Muthamid
    a oferecer-lhe a rosa do perdão!

    Quando chega o perfume incandescente
    dos laranjais em flor, canela e tâmara,
    ouvem-se versos soltos, prolongados
    pelas margens do Arade, o mesmo rio.

    De Abu Afan não falam as memórias:
    já os candis se apagam sobre o mar.

Firmino Mendes
A Terra e os Dias
Pedra Formosa, Guimarães 2000

Adosinda Providência Torgal
Madalena Torgal Ferreira

ALGARVE todo o mar
(colectânea)
Dom Quixote, Lisboa 2005

segunda-feira, novembro 16, 2009

Poema em foto


Uso aqui publicar fotos que ilustram poemas ou até, mais frequentemente, fotos que comento com alguma escrita de pendor poético, mas o que vos trago hoje não é uma poema-foto, nem um foto-poema, mas um poema em foto.

Trata-se de uma fotografia, batida em Alte, sobre um painel de azulejos, numa homenagem ao poeta Cândido Guerreiro, natural desta singela localidade do concelho de Loulé.


Homenagem a Cândido Guerreiro, Alte. Foto de Novembro de 2008

sexta-feira, novembro 13, 2009

Rubis


Jorge de Sousa Braga, tradutor de um haiku de Matsuo Bashô que aqui publiquei há duas semanas, é também ele um poeta.

Um seu brevíssimo poema para este fim-de-semana.

  • Rubis

    A terra escondeu nas entranhas
    as suas lágrimas de sangue
    para que ninguém as pudesse ver

Jorge Sousa Braga
O Poeta Nu
[poesia reunida]
Assírio & Alvim, Lisboa 2007

quarta-feira, novembro 11, 2009

Entre o mito e o homem


Infante, na sua praça renovada, em Lagos, Novembro 2009
O Infante olhando o mar.

Pelo que conheço dele, apesar de toda a mitografia associada, deveria ser homem pouco dado à contemplação da Natureza e pouco preocupado com as condições do tempo, para além das que teriam a ver com o êxito dos seus projectos.
Com a mentalidade própria da sua época e a classe social de um príncipe, de um Infante de Portugal, não lhe deveria passar pela cabeça qualquer preocupação com as gentes do povo que lhe pudesse merecer algo mais do que a distante atitude da chamada "caridade cristã".
Se caravelas houvesse que não partiam com tempo agreste, mais se deveria ao êxito do empreendimento e menos à preocupação com o número de vitimados pelas calamidades do tempo e as condições da viagem.
Praticamente senhor de todo o Algarve, acumulava dividendos pessoais das mais variadas actividades da região, desde o produto da pesca à produção de farinha, de azeite, de frutos secos, de vinho...
E estou em crer que não os usaria em proveito pessoal, de tal forma seria um homem imbuído nos seus afazeres, projectos múltiplos, lúgubre e misógino como parece ter sido.

Mas os mitos empurram-nos para observar um Infante, superiormente sentado frente ao mar, olhando o vento que verga as palmeiras, preocupado com a sorte dos seus mareantes e o destino daquelas mulheres e filhos que no cais ficavam a acenar.