quinta-feira, dezembro 10, 2009

O Sol a fazer das suas


Porta na Rua Nova, Silves. Dezembro 2009

Curiosamente foi o post sobre Copenhaga 2009 a interpor-se a duas fotos de portas da mesma rua, onde o Sol parece querer brincar com as sombras que ele próprio cria.
Aqui, face a uma porta desnudada de qualquer decoração, salvo o recuo emoldurado em que se integra, projectou sombras de ramos, a alegrar a monotonia branca da cal desta parede.

terça-feira, dezembro 08, 2009

Copenhaga é o limite


Retirado do PUBLICO
(Imagem retirada do jornal Público e com link directo para o jornal)


Que saibam os representantes de todas as nações do mundo convergir numa proposta a respeitar, a exemplo do que fizeram 56 jornais em 44 países num editorial comum.

Leia-o, se ainda não o fez, clicando aqui.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Amor, com amor se paga


Casa na Rua Nova, em Silves. Dezembro 2009
O Sol parece guardar algum cuidado; não vá a roupa ficar molhada, contrariando a intenção de quem a usa vestir.
Como que afasta as sombras, contornando blusas, camisolas e cuecas. Reserva até um espaço para uma peça extra, revelando-se conhecedor dos hábitos de quem conta com ele.
Amor, com amor se paga - costuma dizer-se.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

As hespérides são moças algarvias


Esfíngie helénica (sec.VI a.C.) - Museu Municipal de Arqueologia, Silves

  • As hespérides são moças algarvias

    E em parte alguma encontramos a fina areia doirada
    que os pés nus das deusas podiam pisar com delícias.
    Teixeira Gomes: Agosto Azul

    Ao descrever o Promontório Sagrado, ou cabo de
    S. Vicente-Sagres, diz Estrabão, fundando-se nas
    palavras de Artemidoro: "... que ali não é permitido
    sacrificar, nem ir de noite àquele lugar, porque se
    assevera que os deuses estão lá, então."
    José Leite de Vasconcelos: Religiões da Lusitânia


    No Garb realça o azul deuses morenos
    À doçura dos figos submetidos.
    Vieram gregos. Ficaram Sarracenos.
    Nardos enfolham seus nomes esquecidos.

    À noite ordenham luas nos terraços,
    Dão leite à sombra. Abrolham os perfumes.
    Silêncio. Só de um lírio ouvem-se os passos.
    Madruga a pesca, rompe um mar de lumes.

    Esvoaçam suas túnicas de abelhas
    Entre vinhas, seus bêbados recintos;
    E quando a amendoeira nas orelhas
    Põe flores, deram-lhe os deuses esses brincos.

    Vem de turbante o sol e toma posse
    De corpos, cactos, milhos e vinhedos.
    Excita o açúcar na batata-doce
    E despe as almas gregas dos penedos.

    Ouro firme, crepúsculos de cinabre
    Senhorio de azul. Balcões mouriscos.
    Ferve a prata na pesca. O cheiro abre
    No ar quente uma vulva de mariscos.

    Jardins de Hespéria? Ninfeu de ondas macias,
    O mar. As ninfas guardam os pomares.
    As hespérides são moças algarvias
    Todas jasmim, da testa aos calcanhares.

    Garb de praia pele magia e lendas,
    Branco de extasiadas geometrias.
    Absorto o tempo. São gregas as calendas
    Com pálpebras de mouras gelosias.

    Laranjas, cal, areia e rocha ardente
    têm sede da luz que dá mais vida.
    Índigos deuses. Ardor. Tudo é presente.
    Causa clara de beira-mar garrida.

Natália Correia
Neste lugar onde os Deuses
Poesia Completa. Publicações Dom Quixote, 1999

Adosinda Providência Torgal
Madalena Torgal Ferreira

ALGARVE todo o mar
(Colectânea)
Dom Quixote, Lisboa 2005

sábado, novembro 28, 2009

Cinema de animação, esse ilustre desconhecido


Na última sessão do Ciclo de Cinema que a Biblioteca Municipal de Silves vem a promover, assisti a um filme de animação que já aqui mereceu referência - Persépolis.

No debate que se lhe seguiu, Graça Lobo, do Cineclube de Faro, mencionou uma cineasta portuguesa, uma das nossas mais premiadas cineastas, segundo as suas palavras, de quem eu nunca antes ouvira falar ou cujo nome se me perdeu nos escombros da memória.

Procurei-a no Google, esse incomensurável repositório, e teria muita pena se não pudesse dá-la a conhecer, de tal forma fiquei bem impressionado pelo que vi e mal impressionado pela forma como autores portugueses deste nível ficam escondidos aos olhos da grande maioria, no meio de uma parafernália de main stream, com que a publicidade da indústria cinematográfica vai construindo o (des)gosto do público.

Trata-se de
                  Regina Pessoa.

Aqui a tendes, graças ao Youtube:





quinta-feira, novembro 26, 2009

De ti, para ti


Parece que estou em tempo de particular comemoração de aniversários, mas não passa de mera proximidade de datas.
Permitam-me, então, saudar o aniversário de um poeta amigo - Torquato da Luz.

  • PARA TI

    Para ti quero a flor da madrugada,
    a luz que chega dos lados do mar,
    o cântico das ondas sobre a praia
    e o voo sereno das mais raras aves.

    Para ti quero a estrela da manhã,
    a brisa que refresca o fim da tarde,
    o sabor perfumado das romãs
    e a placidez do tempo das searas.

    Para ti quero isto, aquilo e tudo
    o que cabe e não cabe neste mundo.

Torquato da Luz
Por Amor e outros poemas
Papiro Editora, Lisboa 2008

segunda-feira, novembro 23, 2009

Pelo aniversário de ...


                                    ... Herberto Helder:



  • Nenhum corpo é como esse, mergulhador, coroado
    de puros volumes de água.
    Nenhuma busca tão funda, a tal pressão,
    como pesa na água uma ilha fria,
    a raiz de uma ilha.
    Uns procuram ramas de ouro.
    Outros, filões de púrpura unindo
    sono a sono. Há quem estenda os dedos para tocar
    as queimaduras no escuro. Há quem seja
    terrestre.
    Tu esbracejas entre sal agudo.
    Não falas, mal respiras, moves-te apenas
    e fulguras
    como uma estrela cheia de bolhas.
    Feroz, paciente, arremetido, mortal, centrífugo.
    Com todo o peso do coração no centro.
(poema dedicado ao pintor Cruzeiro Seixas)

Herberto Helder
FLASH, 1980
Ou o Poema Contínuo
Assírio & Alvim, Lisboa 2004