
Que melancolia é esta
que invade os muros
com a tinta de um crepúsculo outonal
e os ergue
em silêncios de luz e sombra
(a)tingindo
o azul cobalto do céu
quarta-feira, março 03, 2010
Que melancolia é esta?
segunda-feira, março 01, 2010
Sentimento do Tempo

Em tarde de domingo chuvoso, mexendo em papéis e remexendo memórias, recordei este poeta italiano, talvez o maior poeta italiano do séc. XX, exilado no Brasil durante o fascismo de Mussolini.
- SILÊNCIO
Conheço uma cidade
que cada dia se enche de sol
e tudo desaparece num momento
Cheguei lá quase à noite
No coração durava o ruído
das cigarras
Do navio
envernizado de branco
eu vi
a minha cidade perder-se
deixando
um pouco
um abraço de lumes no ar indeciso
suspensos
Giuseppe Ungaretti
Sentimento do Tempo
Publicações Dom Quixote, Lisboa 1971
sexta-feira, fevereiro 26, 2010
Protesto dirigido à Embaixada de Cuba
À embaixada de Cuba em Portugal:
“Nós, cidadãos de um país que conquistou a sua liberdade há 36 anos, solidários com a resistência a todas as formas de imperialismo, críticos do bloqueio injusto e injustificável a Cuba por parte dos Estados Unidos da América, vimos através deste abaixo-assinado protestar contra morte do activista Orlando Zapata Tamayo depois de uma pena de prisão absurda e de uma greve de fome pelos seus direitos civis. E, através deste protesto, manifestar a nossa solidariedade empenhada para com todos os presos políticos cubanos e para com todos aqueles que em Cuba lutam por valores que, para quem, como os portugueses, viveu meio século de ditadura, são bens preciosos: a democracia, a liberdade e o direito a autodeterminação dos povos e dos indivíduos. Não há verdadeira independência de um povo sem democracia. Não há revolução que valha a pena sem liberdade.”
Pode assinar aqui. Divulgue através das redes sociais e do seu blogue.
quinta-feira, fevereiro 25, 2010
Poesia de Aimé Césaire

Estes graves acontecimentos que tiveram lugar no Haiti e agora na Madeira trouxeram-me à memória o poeta Aimé Césaire, natural da Martinica.
A sua poesia é fortemente marcada por um grande amor à terra onde nasceu e reflecte imenso, além da situação colonial, o cíclico massacre do vulcanismo e das tempestades tão característico desta zona caribenha.
O poema que escolhi, deste velho livro, é um poema de amor onde a amada é esta sua terra que chora, num rosto de mulher.
- A RODA
A roda é a mais bela descoberta do homem e a única
existe o sol que roda
a terra que roda
existe o teu rosto que roda sobre o eixo do teu pescoço
quando choras
mas vós minutos não enrolareis na bobina da vida
o sangue lambido
a arte de sofrer aguçada como cotos de árvore
pelas facas do inverno
a corça louca de sede
que vem mostrar-me à beira de água
teu rosto de escuna desmastrada
teu rosto
como uma aldeia adormecida no fundo de um lago
e que renasce na manhã da relva
semente dos anos
Aimé Césaire
Antologia Poética
Publicações Dom Quixote, Lisboa 1970


