sexta-feira, março 12, 2010

Fotos de um mundo virtual


Mais uma vez o meu avatar faculta ao comum dos mortais o conhecimento do que se passa para lá das portas dos que frequentam o mundo virtual da Second Life.

E esta, hein!


(Recomendo que usem o ícone que faculta uma visão em ecrã inteiro)
(Para sair basta premir a tecla Esc)




quarta-feira, março 10, 2010

A velha casa


Armação de Pêra, Dezembro 2009
            A velha casa projecta
            as suas sombras e
            as palavras dizem d
            o pai ainda com
            o pijama na manhã de domingo
            o almoço depois da missa
            a gambiarra a iluminar
            a refeição onde estamos todos
            a neve naquele ano avistada d
            a janela da porta d
            a cozinha
            o fogão de lenha
            o poial dos cântaros
            o poço
            os canteiros de amores-perfeitos
            os pés esguios d
            as couves-galegas esgargaladas como
            o pescoço das galinhas
            a erva-azeda para os coelhos
            o quarto
            o leito de ferro pintado de branco
            a janela baixa debruçada sobre
            a rua
            o canto da chuva n
            a noite escura
            a luz ainda acesa sob
            a porta do escritório d
            a mãe
            o medo dos ruídos do sótão
            o adormecimento d
            as memórias

terça-feira, março 09, 2010

O romantismo no séc. XXI


Este fim-de-semana, sem sair do concelho onde resido, no interior algarvio, tive o raro ensejo de assistir a dois concertos de música erudita:

Biblioteca Muncipal de Silves, Março 2010

      - o primeiro, na Biblioteca Municipal de Silves, com os músicos João Miguel Cunha (viola de arco), João Pedro Cunha e José Gomes (violinos), e Zurab Kala (violoncelo), num concerto comentado de uma obra de Robert Schumann, integrado num ciclo que recebeu o título “Ciclo Musical Persona” e de que esta foi a primeira sessão.

Igreja Matriz de S. Bartolomeu de Messines, Março 2010

      - o segundo, na Igreja Matriz de São Bartolomeu de Messines, com um grupo de câmara da Orquestra do Algarve, num concerto de Mozart, a propósito da passagem do 180º aniversário do nascimento do poeta João de Deus, natural desta localidade onde teve lugar o concerto.


Do primeiro quero manifestar o meu apreço pela iniciativa, que irá continuar com Chopin, a que se seguirão Zeca Afonso, Caetano Veloso e António Variações, a terminar com Beethoven.
Curiosa esta forma de integrar músicos de expressão erudita com músicos de expressão mais popular. Trata-se de uma maneira de tentar cativar novos públicos, partindo de uma base de aceitação que se configura na música de influência romântica.

O segundo concerto também se enquadraria nesta tendência de usar o romantismo para impressionar novos públicos, embora neste caso de homenagem a um poeta romântico fosse este o concerto adequado.
Mas a ideia de interromper um concerto de quatro andamentos, colocando a recitação de poemas a cada mudança, só porque se tratava de João de Deus, foi uma ideia de “bradar aos céus” dentro de uma igreja.

É precisamente esta questão da influência do romantismo que me traz hoje aqui, não porque não a compreenda e aceite, mas porque tenho assistido ao longo da minha vida a tentativas sobre tentativas de agradar ao público desta maneira, queimando sucessivamente etapas de iniciação, sem que se assista alguma vez, pelo menos com continuidade, a ouvir os nossos contemporâneos, no que se refere à música erudita, ou às tendências que sempre estão a emergir no que se refere à música mais popular. Quero ainda mencionar a quase total ausência dos jovens, particularmente os que frequentam agora estudos secundários ou universitários, que são os que detêm a potencialidade capaz de quebrar este ciclo vicioso.

Isto acontece na música, mas também nas artes plásticas e na literatura, onde se recorre ao romantismo ou a tendências que vão beber no gosto dessa época, e se acaba sempre por queimar etapas que se supõe pudessem conduzir a ver um cinema menos padronizado do que o que vem do lado de lá do Atlântico, apesar do seu bom cinema; um teatro com uma expressão mais contemporânea, a valorizar a cenografia, a expressão plástica e outras formas de comunicação, além dos fabulosos textos e interpretações do passado; uma literatura que não se fique pela estória, apesar das belas estórias que todos já lemos; uma poesia que não se expresse senão pela rima e pelos símbolos estereotipados do amorzinho e do luar, apesar dos inesquecíveis poemas que nos cativaram dessa forma; uma expressão plástica que não seja necessariamente figurativa, mas mais conceptual, apesar das belas obras que nos tocaram de maneira bem profunda e de que ainda recordamos a forte impressão que nos deixaram; uma fotografia que ultrapasse o pôr-do-sol, apesar dos belíssimos ocasos que já nos levaram às lágrimas; um concerto que se oiça em pleno silêncio, sem esquecer os que vivemos com os amigos e toda a multidão que connosco comungava o mesmo sentimento…

... uma manhã, uma tarde, um serão divertido, onde o divertimento não se fique pelo riso boçal ou pelo drama choramingas, mas resida no prazer que nos traz a fruição da expressão artística e que nos fale daquilo que somos hoje, porque é hoje o tempo em que vivemos e é preciso entendê-lo para melhor o construir.

segunda-feira, março 08, 2010

João de Deus - 180º aniversário


(Casa-Museu João de Deus)

Passa hoje o 180º aniversário do nascimento de João de Deus.

Um poema em jeito de homenagem.

  • A vida é o dia de hoje

    A vida é o dia de hoje,
    A vida é ai que mal soa,
    A vida é sombra que foge,
    A vida é nuvem que voa;

    A vida é sonho tão leve
    Que se desfaz como a neve
    E como o fumo se esvai:
    A vida dura um momento,
    Mais leve que o pensamento,
    A vida leva-a o vento,
    A vida é folha que cai!

    A vida é flor na corrente,
    A vida é sopro suave,
    A vida é estrela cadente,
    Voa mais leve que a ave:

    Nuvem que o vento nos ares,
    Onda que o vento nos mares,
    Uma após outra lançou,
    A vida - pena caída
    Da asa da ave ferida
    De vale em vale impelida
    A vida o vento levou!

João de Deus
A vida é o dia de hoje
Com a devida vénia a:
Rua da Poesia
(clique)

quarta-feira, março 03, 2010

Que melancolia é esta?


Fortaleza de Armação de Pêra, Dezembro 2009
            Que melancolia é esta
            que invade os muros
            com a tinta de um crepúsculo outonal
            e os ergue
            em silêncios de luz e sombra
            (a)tingindo
            o azul cobalto do céu

segunda-feira, março 01, 2010

Sentimento do Tempo



Em tarde de domingo chuvoso, mexendo em papéis e remexendo memórias, recordei este poeta italiano, talvez o maior poeta italiano do séc. XX, exilado no Brasil durante o fascismo de Mussolini.

  • SILÊNCIO

    Conheço uma cidade
    que cada dia se enche de sol
    e tudo desaparece num momento

    Cheguei lá quase à noite

    No coração durava o ruído
    das cigarras

    Do navio
    envernizado de branco
    eu vi
    a minha cidade perder-se
    deixando
    um pouco
    um abraço de lumes no ar indeciso
    suspensos

Giuseppe Ungaretti
Sentimento do Tempo
Publicações Dom Quixote, Lisboa 1971


sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Protesto dirigido à Embaixada de Cuba


À embaixada de Cuba em Portugal:


“Nós, cidadãos de um país que conquistou a sua liberdade há 36 anos, solidários com a resistência a todas as formas de imperialismo, críticos do bloqueio injusto e injustificável a Cuba por parte dos Estados Unidos da América, vimos através deste abaixo-assinado protestar contra morte do activista Orlando Zapata Tamayo depois de uma pena de prisão absurda e de uma greve de fome pelos seus direitos civis. E, através deste protesto, manifestar a nossa solidariedade empenhada para com todos os presos políticos cubanos e para com todos aqueles que em Cuba lutam por valores que, para quem, como os portugueses, viveu meio século de ditadura, são bens preciosos: a democracia, a liberdade e o direito a autodeterminação dos povos e dos indivíduos. Não há verdadeira independência de um povo sem democracia. Não há revolução que valha a pena sem liberdade.”


Pode assinar aqui. Divulgue através das redes sociais e do seu blogue.