Este fim-de-semana, sem sair do concelho onde resido, no interior algarvio, tive o raro ensejo de assistir a dois concertos de música erudita:

- o primeiro, na Biblioteca Municipal de Silves, com os músicos João Miguel Cunha (viola de arco), João Pedro Cunha e José Gomes (violinos), e Zurab Kala (violoncelo), num concerto comentado de uma obra de Robert Schumann, integrado num ciclo que recebeu o título “Ciclo Musical Persona” e de que esta foi a primeira sessão.

- o segundo, na Igreja Matriz de São Bartolomeu de Messines, com um grupo de câmara da Orquestra do Algarve, num concerto de Mozart, a propósito da passagem do 180º aniversário do nascimento do poeta João de Deus, natural desta localidade onde teve lugar o concerto.
Do primeiro quero manifestar o meu apreço pela iniciativa, que irá continuar com Chopin, a que se seguirão Zeca Afonso, Caetano Veloso e António Variações, a terminar com Beethoven.
Curiosa esta forma de integrar músicos de expressão erudita com músicos de expressão mais popular. Trata-se de uma maneira de tentar cativar novos públicos, partindo de uma base de aceitação que se configura na música de influência romântica.
O segundo concerto também se enquadraria nesta tendência de usar o romantismo para impressionar novos públicos, embora neste caso de homenagem a um poeta romântico fosse este o concerto adequado.
Mas a ideia de interromper um concerto de quatro andamentos, colocando a recitação de poemas a cada mudança, só porque se tratava de João de Deus, foi uma ideia de “bradar aos céus” dentro de uma igreja.
É precisamente esta questão da influência do romantismo que me traz hoje aqui, não porque não a compreenda e aceite, mas porque tenho assistido ao longo da minha vida a tentativas sobre tentativas de agradar ao público desta maneira, queimando sucessivamente etapas de iniciação, sem que se assista alguma vez, pelo menos com continuidade, a ouvir os nossos contemporâneos, no que se refere à música erudita, ou às tendências que sempre estão a emergir no que se refere à música mais popular. Quero ainda mencionar a quase total ausência dos jovens, particularmente os que frequentam agora estudos secundários ou universitários, que são os que detêm a potencialidade capaz de quebrar este ciclo vicioso.
Isto acontece na música, mas também nas artes plásticas e na literatura, onde se recorre ao romantismo ou a tendências que vão beber no gosto dessa época, e se acaba sempre por queimar etapas que se supõe pudessem conduzir a ver um cinema menos padronizado do que o que vem do lado de lá do Atlântico, apesar do seu bom cinema; um teatro com uma expressão mais contemporânea, a valorizar a cenografia, a expressão plástica e outras formas de comunicação, além dos fabulosos textos e interpretações do passado; uma literatura que não se fique pela estória, apesar das belas estórias que todos já lemos; uma poesia que não se expresse senão pela rima e pelos símbolos estereotipados do amorzinho e do luar, apesar dos inesquecíveis poemas que nos cativaram dessa forma; uma expressão plástica que não seja necessariamente figurativa, mas mais conceptual, apesar das belas obras que nos tocaram de maneira bem profunda e de que ainda recordamos a forte impressão que nos deixaram; uma fotografia que ultrapasse o pôr-do-sol, apesar dos belíssimos ocasos que já nos levaram às lágrimas; um concerto que se oiça em pleno silêncio, sem esquecer os que vivemos com os amigos e toda a multidão que connosco comungava o mesmo sentimento…
... uma manhã, uma tarde, um serão divertido, onde o divertimento não se fique pelo riso boçal ou pelo drama choramingas, mas resida no prazer que nos traz a fruição da expressão artística e que nos fale daquilo que somos hoje, porque é hoje o tempo em que vivemos e é preciso entendê-lo para melhor o construir.