segunda-feira, março 22, 2010

As pedras são guardadoras de histórias


Presenciaram episódios de ódio
guardaram de olhares indiscretos
os suspiros contidos do amor
Lagos, Março 2010
Serviram de morno leito
às que deram vida
à vida que traziam em si
e de ara fria
aos que a perderam
no inesperado acidente que os vitimou
na doença que um dia se deixou denunciar
na velhice
que é apanágio de uma vida inteira

Testemunharam a intriga insidiosa
dos palácios
nos jogos do poder
e as decisões que mudaram o mundo
a fervorosa devoção
no interior dos templos
e o medonho sacrilégio
que ali se perpetrou

Ergueram a habitação abastada
e a mais humilde
que é sempre o lar
que ansiamos no regresso a casa

As pedras
são calçadas dos nossos percursos
praças públicas das nossas alegrias
e tristezas

As pedras
são guardadoras de histórias
por contar

sexta-feira, março 19, 2010

E a poesia aconteceu...


Auditório da Secundária de Silves, Março 2010

... na expressividade e na entrega à leitura dos poemas que cada um escolheu para dizer.

A foto regista um momento que antecede o início dos trabalhos, no auditório da Escola Secundária de Silves, onde alunos de "Português" participam no concurso "Palavras em Voz". No primeiro plano, elementos do júri, convidados de entre colegas de outras áreas de ensino ou cidadãos de alguma forma relacionados com a poesia. Os alunos presentes são concorrentes, na sua grande maioria.

O blogue Palavras Temporárias, que promove o Círculo de Leitura da escola, far-se-á eco desta actividade.

PARABÉNS, a alunos e professores.

quinta-feira, março 18, 2010

Pela liberdade e pela libertação dos presos políticos em Cuba


Um novo abaixo-assinado, desta vez de forma mais alargada e internacional:


Pela libertação dos presos políticos

"Pela libertação imediata e sem condições de todos os presos políticos das prisões cubanas; pelo respeito ao exercício, promoção e defesa dos direitos humanos em qualquer parte do mundo; pelo decoro e o valor de Orlando Zapata Tamayo, injustamente preso e brutalmente torturado nas prisões cubanas, morto após greve de fome por denunciar estes crimes e a falta de liberdade e democracia no seu país; pelo respeito à vida dos que correm o risco de morrer como ele para impedir que o governo de Fidel e Raul Castro continue eliminando fisicamente aos seus opositores pacíficos, levando-os a cumprir condenações injustas de até 28 anos por "delitos" de opinião; pelo respeito à integridade física e moral de cada pessoa, assinamos esta carta, e encorajamos a assiná-la também, a todos os que elegeram defender a sua liberdade e a liberdade dos outros."

Para subscrever clique aqui.

terça-feira, março 16, 2010

... ave...


Agora, que a Primavera já promete chegar.

  • Amendoeiras em Porto de Lagos

    Já não há amendoeiras
    nas estradas do Algarve...
    A linda rainha taifa
    voou dos meus dedos... ave...

    Voou nas verdes ladeiras
    das campanhas do Algarve...
    A linda rainha taifa
    foi pétalas de flor... ave...

    Tempestades, as primeiras,
    assolaram o Algarve
    e a linda rainha taifa,
    suspirando pela neve
    nos verdes campos que teve,
    soltou os cabelos... ave...
    Soltou os cabelos... ave...

Pedro Miranda Albuquerque
ALGARVE todo o mar
(Colectânea)
Dom Quixote, Lisboa 2005


sexta-feira, março 12, 2010

Fotos de um mundo virtual


Mais uma vez o meu avatar faculta ao comum dos mortais o conhecimento do que se passa para lá das portas dos que frequentam o mundo virtual da Second Life.

E esta, hein!


(Recomendo que usem o ícone que faculta uma visão em ecrã inteiro)
(Para sair basta premir a tecla Esc)




quarta-feira, março 10, 2010

A velha casa


Armação de Pêra, Dezembro 2009
            A velha casa projecta
            as suas sombras e
            as palavras dizem d
            o pai ainda com
            o pijama na manhã de domingo
            o almoço depois da missa
            a gambiarra a iluminar
            a refeição onde estamos todos
            a neve naquele ano avistada d
            a janela da porta d
            a cozinha
            o fogão de lenha
            o poial dos cântaros
            o poço
            os canteiros de amores-perfeitos
            os pés esguios d
            as couves-galegas esgargaladas como
            o pescoço das galinhas
            a erva-azeda para os coelhos
            o quarto
            o leito de ferro pintado de branco
            a janela baixa debruçada sobre
            a rua
            o canto da chuva n
            a noite escura
            a luz ainda acesa sob
            a porta do escritório d
            a mãe
            o medo dos ruídos do sótão
            o adormecimento d
            as memórias

terça-feira, março 09, 2010

O romantismo no séc. XXI


Este fim-de-semana, sem sair do concelho onde resido, no interior algarvio, tive o raro ensejo de assistir a dois concertos de música erudita:

Biblioteca Muncipal de Silves, Março 2010

      - o primeiro, na Biblioteca Municipal de Silves, com os músicos João Miguel Cunha (viola de arco), João Pedro Cunha e José Gomes (violinos), e Zurab Kala (violoncelo), num concerto comentado de uma obra de Robert Schumann, integrado num ciclo que recebeu o título “Ciclo Musical Persona” e de que esta foi a primeira sessão.

Igreja Matriz de S. Bartolomeu de Messines, Março 2010

      - o segundo, na Igreja Matriz de São Bartolomeu de Messines, com um grupo de câmara da Orquestra do Algarve, num concerto de Mozart, a propósito da passagem do 180º aniversário do nascimento do poeta João de Deus, natural desta localidade onde teve lugar o concerto.


Do primeiro quero manifestar o meu apreço pela iniciativa, que irá continuar com Chopin, a que se seguirão Zeca Afonso, Caetano Veloso e António Variações, a terminar com Beethoven.
Curiosa esta forma de integrar músicos de expressão erudita com músicos de expressão mais popular. Trata-se de uma maneira de tentar cativar novos públicos, partindo de uma base de aceitação que se configura na música de influência romântica.

O segundo concerto também se enquadraria nesta tendência de usar o romantismo para impressionar novos públicos, embora neste caso de homenagem a um poeta romântico fosse este o concerto adequado.
Mas a ideia de interromper um concerto de quatro andamentos, colocando a recitação de poemas a cada mudança, só porque se tratava de João de Deus, foi uma ideia de “bradar aos céus” dentro de uma igreja.

É precisamente esta questão da influência do romantismo que me traz hoje aqui, não porque não a compreenda e aceite, mas porque tenho assistido ao longo da minha vida a tentativas sobre tentativas de agradar ao público desta maneira, queimando sucessivamente etapas de iniciação, sem que se assista alguma vez, pelo menos com continuidade, a ouvir os nossos contemporâneos, no que se refere à música erudita, ou às tendências que sempre estão a emergir no que se refere à música mais popular. Quero ainda mencionar a quase total ausência dos jovens, particularmente os que frequentam agora estudos secundários ou universitários, que são os que detêm a potencialidade capaz de quebrar este ciclo vicioso.

Isto acontece na música, mas também nas artes plásticas e na literatura, onde se recorre ao romantismo ou a tendências que vão beber no gosto dessa época, e se acaba sempre por queimar etapas que se supõe pudessem conduzir a ver um cinema menos padronizado do que o que vem do lado de lá do Atlântico, apesar do seu bom cinema; um teatro com uma expressão mais contemporânea, a valorizar a cenografia, a expressão plástica e outras formas de comunicação, além dos fabulosos textos e interpretações do passado; uma literatura que não se fique pela estória, apesar das belas estórias que todos já lemos; uma poesia que não se expresse senão pela rima e pelos símbolos estereotipados do amorzinho e do luar, apesar dos inesquecíveis poemas que nos cativaram dessa forma; uma expressão plástica que não seja necessariamente figurativa, mas mais conceptual, apesar das belas obras que nos tocaram de maneira bem profunda e de que ainda recordamos a forte impressão que nos deixaram; uma fotografia que ultrapasse o pôr-do-sol, apesar dos belíssimos ocasos que já nos levaram às lágrimas; um concerto que se oiça em pleno silêncio, sem esquecer os que vivemos com os amigos e toda a multidão que connosco comungava o mesmo sentimento…

... uma manhã, uma tarde, um serão divertido, onde o divertimento não se fique pelo riso boçal ou pelo drama choramingas, mas resida no prazer que nos traz a fruição da expressão artística e que nos fale daquilo que somos hoje, porque é hoje o tempo em que vivemos e é preciso entendê-lo para melhor o construir.