quarta-feira, abril 14, 2010

Há velhos ao Sol nos bancos dos jardins


Velhos ao Sol, Silves, Abril 2010
Eu sei que nasci num país onde os velhos são deixados nos bancos dos jardins.
Sei que mal sei aparelhar as letras para uma leitura em que entenda o que está escrito no jornal.
Sei que a reforma me vai dando para comer e para um cigarrinho, mas receio uma doença e não tenha dinheiro para os remédios.
Sei que a família me vê como um estorvo e me trata como uma criança, apesar da sinceridade do amor que têm por mim.
Mas, amigo, ainda gosto de sorrir à vida de cada vez que, pela manhã, ponho os pés assentes no chão e me firmo em pé.

segunda-feira, abril 12, 2010

Ciclo Persona na Biblioteca Municipal (III sessão)


Paulo Pires, Irene Pimentel e José Louro. Bilioteca Municipal de Silves. Abril 2010
Esta terceira sessão foi dedicada a Zeca Afonso.

Paulo Pires, animador destas sessões, moderou o debate.

Irene Pimentel, investigadora de História Contemporânea e autora do livro JOSÉ AFONSO, edição do Círculo dos Leitores, na colecção Fotobiografias do Século XX, referiu-se a aspectos da vida e obra de Zeca, com a serenidade e o à-vontade de uma investigadora que sabe bem do que fala, numa proximidade muito grande junto de um público muito diversificado e com diferentes expectativas face à personalidade aqui homenageada, de certa maneira.

José Louro, conhecido homem do teatro nesta nossa região e que de perto privou com Zeca no período em que ele aqui viveu, na cidade de Faro, revelou episódios bem característicos da personalidade do homenageado, com muita graça e muito respeito por este seu amigo.

A Ricardo Martins e à sua banda, recentes finalistas da última edição do Festival da Canção, coube a responsabilidade musical.
Nada tenho a apontar em particular à execução dos temas, mas o tratamento dado às canções não faz muito o meu gosto: alguma ligeireza em temas muito fortes como em "os vampiros", toadas demasiado "adocicadas" em temas mais líricos, um ritmo de música de dança a espelhar um pouco um Zeca já institucionalizado, onde o que diz e proclama já não provoca contestação, como se todos já estivéssemos de acordo quanto à visão deste mundo que nos rodeia.

Mas Zeca provoca festa e quando há festa eu também lá estou, emprestando o meu entusiasmo.

Ficam as visões do mundo para outras tertúlias e outras sessões deste ciclo, muito provavelmente já na próxima sessão, com Vera Mantero a interpretar Caetano Veloso.

quinta-feira, abril 08, 2010

Tal como nós...


Um telhado em Lagos, ao entardecer. Março 2010
            ...há uns que reservam bem cedo um poiso seguro antes que a noite caia, outros há que preferem beber a vida até à última gota.

terça-feira, abril 06, 2010

Romance Popular


Esta melhoria do tempo, este acalentar do Sol, estes dias cheios de luminosidade, a exuberância da Natureza, o verde que tudo cobre depois de um prolongado tempo de chuva, o matizado das flores sobre esse tapete verde, até mesmo o incómodo de uma alergia que nunca antes sentira, são sinais de que por este meu Algarve há vida que vive intensamente.

Queria trazer-vos algo de genuinamente algarvio e deparei-me com...

Estácio da Veiga (séc.XIX), figura incontornável da arqueologia nacional, que dedicou algum do seu tempo à recolha do romanceiro popular.

Transcrevo um dos seus romances, mantendo a ortografia original:

  • A Moira Encantada

    Meia noite além resôa
    Cêrca das ribas del mar,
    Meia noite já é dada
    E o povo ainda a folgar.
    Em meio de tal folguedo
    Todos quedam sem fallar,
    Olhos voltam ao castello
    Para ver, para avistar
    A linda moira encantada,
    Que era triste a suspirar.

    -Quem se atreve, ái quem se atreve
    Ir ao castello e trepar
    Para vencer lo encanto
    Que tanto sabe encantar?
    - Ninguem ha que a tal se atreva,
    Não ha que em moiras fiar;
    Quem lá fôsse a taes deshoras
    Para só desencantar,
    Grande risco assim corrêra
    De não mais de lá voltar.
    - Ái que linda formusura,
    Quem a poderá salvar!
    O alvor dos seus vestidos
    Tem mais brilho que o luar!
    Dôces, tão dôces suspiros
    Onde ouvi-los suspirar?

    Assim um bom cavalleiro
    Só se estava a delatar,
    Em amor lhe ardia o peito,
    Em desejos seu olhar.
    Tres horas eram passadas
    Neste continuo anciar.
    Cavalleiro de armas brancas
    Nunca soube arreceiar:
    Invoca a linda moirinha,
    Mas não ouve o seu fallar.
    Nada importa a D. Ramiro
    Mais que a moira conquistar;
    Vai subir por muro acima,
    Sente os pés a resvalar!
    Ái que era passada a hora
    De a poder desencantar!

    Já lá vinha a estrella d'alva
    Com seus brilhos a raiar;
    No mais alto do castello
    Já mal se via alvejar
    A fina branca roupagem
    Da linda filha de Agar.
    Ao romper do claro dia,
    Para bem mais se pasmar,
    Sobre o castello uma nuvem
    Era apenas a pairar.
    Jurava o povo, jurava,
    E teimava en affirmar,
    Que dentro daquella nuvem
    Vira a donzellinha entrar.
    Dom Ramiro d'enraivado
    De não lhe poder chegar,
    Dalli parte, e contras os moiros
    Grande briga vai armar.
    Por fim ganha um bom castello,
    Mas... sem moira para amar.

Estácio da Veiga
A moira Encantada, Romanceiro do Algarve, Imp.
Joaquim Germano de Sousa Neves, Lisboa 1870

ALGARVE todo o mar
(Colectânea)
Adosinda Providência Torgal
Madalena Torgal Ferreira

DOM Quixote, Lisboa 2005

quarta-feira, março 31, 2010

EM DEFESA DO MUSEU NACIONAL DE ARQUEOLOGIA


Transcrevo, e apelo à subscrição do seguinte comunicado do ICOM:


ICOM

Declaração e abaixo-assinado adoptado pela
Assembleia-Geral da Comissão Nacional Portuguesa
do Conselho Internacional dos Museus (ICOM)


Subscreva em: http://peticao.com.pt/mna


            Quando há cerca de um ano o anterior Governo colocou a hipótese da transferência do Museu Nacional de Arqueologia (MNA) para a Cordoaria nacional, o seu Grupo de Amigos (GAMNA) chamou logo a atenção para os riscos inerentes, dos quais o mais importante é o da segurança geotécnica do local e do próprio edificado da Cordoaria, para aí se poderem albergar as colecções do Museu Nacional português com colecções mais volumosas e com o maior número de peças classificadas como “tesouros nacionais”.

            Após as últimas eleições pareceu ser traçado um caminho que permitia encarar com seriedade esta intenção política. A ministra da Cultura afirmou à imprensa que fora pedido ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) um parecer acerca das referidas condições geotécnicas e que seria feito projecto de arquitectura coerente, respeitador tanto da Cordoaria Nacional como do programa do Museu. Ao mesmo tempo garantiu que esse complexo seria totalmente afecto ao MNA, sem a instalação antecipada de outros serviços no local. Sendo assim, deixaria também de ser necessário alienar espaços do MNA nos Jerónimos, a título de garantia da ocupação antecipada da Cordoaria.

            Causa, pois, profunda estranheza a sucessão de acontecimentos das últimas semanas, os quais vão ao ponto de comprometer ou até inviabilizar a continuidade da gestão do Director do Museu, que nos cumpre elogiar pelo dinamismo que lhe conseguiu imprimir e de cujos interesses se constitui, perante todos nós, em legítimo garante.

            O estudo tranquilizador que se dizia ter sido pedido ao LNEC, deu afinal lugar a parecer meramente pessoal do técnico convidado para o efeito. O GAMNA, encomendou estudo alternativo, que vai em sentido contrário. O Director do Museu recolheu, ele próprio, outros pareceres, dos mais reputados especialistas da área da engenharia sísmica, que igualmente corroboram e ampliam as preocupações existentes. É agora óbvia a necessidade da realização de um programa de sondagens e de verificações in loco, devidamente controlado por entidade idónea, de modo a poder definir com rigor a situação da Cordoaria em matéria de riscos sísmicos, maremoto, efeito de maré, inundação e infiltração de águas salgadas. A recente tragédia ocorrida na Madeira, onde se perdeu quase por completo o acervo do Museu do Açúcar, devido a inundação, aí está para nos lembrar como não pode haver facilidade e ligeireza neste tipo de decisões.

            Enquanto não estiver garantida a segurança geotécnica da instalação do MNA na Cordoaria Nacional e enquanto não forem realizados os adequados estudos de planeamento urbano e circulação viária, importa manter todas as condições de operacionalidade do Museu nos Jerónimos. Neste sentido consideramos incompreensível a alienação pretendida da “torre oca” a curto prazo, até porque uma tal opção iria comprometer definitivamente qualquer hipótese futura de regressar a planos de remodelação e ampliação do MNA nos Jerónimos, conforme foi a opção consistente de sucessivos Governos, até há dois anos. O MNA merece todo o respeito e não pode ser considerado como mero estorvo num local onde aparentemente se quer fazer um novo Museu.

            O poder político não pode actuar ignorando os pareceres técnicos qualificados e agindo contra o sentimento de todos os que amam o património e os museus. Apelamos ao bom senso do Governo, afirmando desde já a nossa disposição para apoiar o GAMNA na adopção de todas as medidas cívicas e legais necessárias para que seja defendida, como merece, a instituição mais do que centenária fundada pelo Doutor Leite de Vasconcelos, o antigo “museu do homem português” e actual Museu Nacional de Arqueologia.

Lisboa, em 29 de Março de 2010.


segunda-feira, março 29, 2010

Ciclo Persona na Biblioteca Municipal de Silves


A Biblioteca Municipal de Silves deu continuidade ao Ciclo Persona a cuja programação é possível aceder clicando no link atrás.


O Maestro João Miguel Cunha foi, de novo, o comentador da sessão e o pianista João Luís Rosa o intérprete da tarde.

João Luís Rosa, na Biblioteca Municipal de Silves, Março 2010, foto com câmara do telemóvelForam os Prelúdios de Chopin a obra com que fomos presenteados na vibrante interpretação de João Luís Rosa, um jovem pianista radicado no Algarve, professor na Academia de Música de Lagos e no Conservatório de Portimão, e que já conta com um invejável currículo nacional e internacional.

Na impossibilidade de vos trazer aqui o seu concerto procurei no youtube uma interpretação que me agradasse de entre os 24 prelúdios de Chopin e escolhi precisamente o que mais intensamente me tocou na passada tarde de domingo.



A interpretação, no vídeo, é de Aldona Dvarionaité, de origem lituana.

O Ciclo continua no próximo dia 10 de Abril com uma sessão dedicada a José Afonso e contará com a presença de Irene Pimentel (Prémio Pessoa 2007) e José Louro, conhecida figura do Teatro no Algarve, amigo e colega de Zeca. O concerto será da responsabilidade de Ricardo Martins e seu quarteto.

quinta-feira, março 25, 2010

Já não há flores de amendoeiras


Cumeada-Cortes, Silves, Março 2010
Já não há flores de amendoeiras

Dantes
amigo
das Cortes ao Benaciate
tudo isto era uma jardim

Já quase não há valados brancos
nem nas chaminés se estiliza mais
a branca flor

A neve
que o rei mouro mandou plantar
é uma lenda
de que os mais novos desconfiam
promessa adiada na encosta do castelo

Sem valados brancos
e brancas chaminés
sem paredes de cal
nas casas brancas
que iam das Cortes ao Benaciate
para que servem
as flores de amendoeira
senão para pintar de nostalgia
esse passado árabe de poesia