segunda-feira, novembro 22, 2010

Um poema a cada segunda-feira (I)




Terminada que está a divulgação dos Postais com poemas, publicados por ocasião da IV Bienal de Poesia de Silves, decidi manter à segunda-feira uma rubrica de poesia, enquanto assim se mantiver este meu ânimo.


Irei aqui colocando poemas que o critério do momento vier a ditar.


Abro com uma poetisa que foi participante ativa num movimento poético com origem em Faro e que marcou de forma indelével a poesia portuguesa da nossa contemporaneidade. Falo do movimento Poesia 61.

  • RITUAL
    a jarra tombou
    a água correu sobre a mesa

    as flores calaram-se aos poucos
    o espantalho tocou o acordeão

    a criança cansou-se do vento
    desatou as sandálias

    o mar meditou duas vezes
    qual o horizonte

    do sótão a galinha presa
    viu um avião voar

    uns quantos vestiram-se de negro
    viveram da morte dos outros

    suicidou-se uma sombra
    debaixo do meu pé

    A mulher calçou-se de branco
    para a ressurreição

    o país desbotou
    no mapa das escolas

    amor que esperas de mim
    a não ser eu
Luiza Neto Jorge
poesia
Assírio & Alvim, Lisboa 2001

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quarta-feira, novembro 17, 2010

Sarau Instável na Biblioteca




Sarau Instável
 Música de Cama


Os múltiplos e (in)sondáveis prazeres, tentações, encantamentos, efabulações, “desvarios” e provocações da literatura erótica…


Com convidados muito especiais: na dança do ventre, música e performance ao vivo…


Lá estarei, na Biblioteca Municipal, amanhã, dia 18, a partir das 21h00.

Informações mais detalhadas aqui (clique).

segunda-feira, novembro 15, 2010

Postais com poemas (XXIX)


A IV Bienal de Poesia de Silves editou uma coleção de postais, divulgando poemas de cada um dos convidados.

Aqui os trouxe, paulatinamente, a cada segunda-feira.

Este é o último.

IV Bienal de Poesia de Silves, postais

  • Trazia os olhos bêbedos de mar
    e nos cabelos, que o vento alongava,
    luziam raios de sol e de luar,
    que qualquer deus estranho combinava. (...)

quarta-feira, novembro 10, 2010

Arcos donde se avistam arcos



Na ausência de tema ou falta de inspiração fica esta foto recentemente batida em Granada, numa visita à Alhambra.

segunda-feira, novembro 08, 2010

Postais com poemas (XXVIII)


A IV Bienal de Poesia de Silves editou uma coleção de postais, divulgando poemas de cada um dos convidados.

Aqui os trago, paulatinamente, a cada segunda-feira.

Este é o penúltimo.

IV Bienal de Poesia de Silves, postais

  • À cautela
    imitar os girassóis em cada vela

    dar moinhos à farinha
    e um nome à estória (...)

sábado, novembro 06, 2010

A pequena praça, de Sophia












(Imagem do blog Banco da Poesia, com a devida vénia)


SOPHIA cumpriria hoje 91 anos.
Quero recordá-la neste seu poema:

  • A Pequena Praça

    A minha vida tinha tomado a forma da pequena praça
    Naquele outono em que a tua morte se organizava meticulosamente
    Eu agarrava-me à praça porque tu amavas
    A humanidade humilde e nostálgica das pequenas lojas
    Onde os caixeiros dobram e desdobram fitas e fazendas
    Eu procurava tornar-me tu porque tu ias morrer
    E a vida toda deixava ali de ser a minha
    Eu procurava sorrir como tu sorrias
    Ao vendedor de jornais ao vendedor de tabaco
    E à mulher sem pernas que vendia violetas
    Eu pedia à mulher sem pernas que rezasse por ti
    Eu acendia velas em todos os altares
    Das igrejas que ficavam no canto desta praça
    Pois mal abri os olhos e li foi para ler
    A vocação do eterno escrita no teu rosto
    Eu convocava as ruas os lugares as gentes
    Que foram as testemunhas do teu rosto
    Para que eles te chamassem para que eles desfizessem
    O tecido que a morte entrelaçava em ti




Sophia de Mello Breyner Andresen
Dual, 1972
Poemas Portugueses - Antologia da Poesia Portuguesa do Séc, XIII ao Séc. XXI
Porto Editora, 2009

quinta-feira, novembro 04, 2010

Na Mesquita de Córdova



No regresso da minha viagem a Granada, também me fiz passear por Córdova.

Apesar dos quase cinco séculos que separam a construção da Mesquita da época final da construção da Alhambra, aqui em Córdova o despojamento arquitetónico, a horizontalidade da construção, o rigor, até mesmo a finalidade, virada para o silêncio, para a meditação, provocam uma sensação completamente diferente da que descrevi a propósito da Alhambra de Granada.

Recordo a primeira vez que visitei a Mesquita, já lá vão mais de 30 anos, e a forte reação emocional que me provocou a entrada no edifício. Verti copiosamente lágrimas que não conseguia controlar. Curiosamente, sucedeu-me a mesma coisa quando pela primeira vez avistei a Catedral de Santiago de Compostela.
Permitam-me que confesse que em Granada e na Alhambra me fico sempre por um mero "beicinho" e não quero com esta afirmação estabelecer qualquer comparação que de alguma forma ponha em causa o profundo apreço que tenho por qualquer uma destas obras monumentais, incontestáveis peças do melhor do Património Histórico da Humanidade.

Recordo também ter uma atitude condenatória face à transformação da Mesquita em Catedral, mas hoje em dia, e habituado que estou à destruição dos templos de outras religiões para implantar a nova, dos novos senhores, acho que Carlos V, apesar de ter querido afirmar o seu estatuto de Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, revelou algum respeito perante o templo muçulmano, incorporando mesmo, na estrutura vertical da nova Catedral, além da Mesquita muçulmana, elementos decorativos que evocam a presença da Mesquita, paredes-meias.
Podeis confirmar isso mesmo em algumas das fotos que aqui (clique) deixo.