sábado, julho 02, 2011

Já lá vão sete (7) anos



Já lá vão sete anos sobre a hora a que Sophia nos deixou.



Era sobre a morte, tão suavemente sobre a morte, que ela escreveu:


  • QUANDO

    Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
    Continuará o jardim, o céu e o mar,
    E como hoje igualmente hão-de bailar
    As quatro estações à minha porta.

    Outros em Abril passarão no pomar
    Em que eu tantas vezes passei,
    Haverá longos poentes sobre o mar,
    Outros amarão as coisas que eu amei.

    Será o mesmo brilho, a mesma festa,
    Será o mesmo jardim à minha porta,
    E os cabelos doirados da floresta,
    Como se eu não estivesse morta.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Quinze Poetas Portugueses do Século XX
Seleção e prefácio de Gastão Cruz
Assírio & Alvim, Lisboa 2004

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quinta-feira, junho 30, 2011

Nova exposição na Galeria LX




Fingers Scintilla é um reputado artista no mundo virtual da Second Life.
A imagem central do cartaz deve já dar uma ideia da técnica e da capacidade criativa deste novo convidado da galeria.

Por um período de 3 semanas, a contar do próximo sábado (2 de Julho), pelas 22 horas, esta nova exposição - Darkness - estará patente na Galeria LX, num território  chamado PORTUCALIS.

O link acima só funcionará para os frequentadores deste mundo imersivo (3D), mas fica o convite para os mais afoitos, sem receio de se confundirem nesta realidade virtual.

Fiquem com uma foto de uma das últimas exposições na Galeria LX. Trata-se, curiosamente, do trabalho de uma artista que neste momento expõe na galeria do nosso atual convidado.

(Ao clicar sobre as fotos elas exibem uma cópia de maior dimensão)

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segunda-feira, junho 27, 2011

Um poema a cada segunda-feira (XXXII)



Quando das comemorações do Dia Mundial da Poesia, Paulo Pires, Técnico Superior da Biblioteca Municipal de Silves, compilou uma antologia que intitulou POESIA 21, porque se refere a 21 poetas e ao dia 21 de Março.
São trabalhos desses 21 poetas, gente que se vem afirmando no nosso mundo literário, que aqui estou a incluir desde a XX edição.



  • *

Por exemplo:

esta terra não está feita para nós.

Ruy Belo

Ou:
Junta meia dúzia ou assim
de dúvidas das mais resistentes. Precipita-as
na geografia movediça disto (será por aí
que entrará meio desfocado
o futuro). Nesse novelo de timbres
e toques, nesse feixe de sopros
e sons e olhos soltos prepara-se a queda.
Pisarás obstinadamente a terra,
distraidamente o mundo.
Enfia o cigarro por um instante
naquela ranhura do cinzeiro. Espera.
Pela espuma que dizem anda por aí nos dias,
ou melhor ainda pelo estremecer dos arames
nada inocentes que deixaste na côdea do dia
anterior. Em todos os dias então anteriores.
Espera que arranque o motor de uma das mãos,
os flexores profundos. Solta as falanges.
Espera, outra vez. Usa outras coisas que assobiem
um pouco o ar. Insiste e vinca
muito bem as dobras do costume, com a unha.
Nada a ver com espanto (ou não
exactamente): é que assim tesoura-se melhor.
Usa (por exemplo) a discreta pausa dos parêntesis.
Outras – as mais irreversíveis – cesuras.
Cospe e ganha gosto a decompor
desta terra a aspereza com o desamparo
(feliz?) de não estar feita.
Como a cama usada para o ensaio
das necessárias cambalhotas.
Desmancha. Repete: esta terra não.
E aqui abranda asperamente o não
e já te disse faz e desfaz esses nós
quantas vezes for necessário. Segura
uns segundos o estremunhar da crise.
Experimenta atar a terra com tesouras
– sempre exercita apocalipses, ainda
que provisórios e raramente consequentes.
Podes pegar por qualquer ponta
– isso depois ajusta-se
(embora não se acerte).
Remexe em tudo.
Deita fora as instruções.


Miguel Cardoso
Que se diga que vi como a faca corta
Mariposa Azual, Lisboa 2010
Poesia 21
Parceria Biblioteca Municipal de Silves / Escola Secundária de Silves

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domingo, junho 26, 2011

Luces de Abiud.


Aqui está um vídeo com as melhores fotos do concurso em Zalamea la Real, a que aqui me referi no passado dia 1 de Junho.


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quarta-feira, junho 22, 2011

Relembrando os eventos de 22 de Junho de 1924


Silves, anos 30, © Henrique Martins
Silves, anos 30

Corria o já distante ano de 1924. Em luta pela melhoria das suas condições de vida, a greve dos corticeiros prolongava-se no tempo. Sem salário, começa a estar em causa a satisfação das necessidades básicas. A fome atinge as famílias operárias e a solidariedade social organiza-se espontaneamente tentando suprir as necessidades alimentares, protegendo em especial as crianças e a sua saúde. Por todo o Algarve, do Sotavento ao Barlavento, há quem se proponha receber os filhos dos corticeiros de Silves. Centenas de crianças são deslocadas e acolhidas junto de famílias solidárias, de Vila Real de Santo António a Lagos.
Terminada a greve organizou-se o regresso das crianças e fixou-se a sua recepção num domingo, 15 dias depois de retomada a normalidade.
Por volta das oito da manhã, aguardando a chegada do comboio proveniente de Lagos, no largo da estação dos caminhos de ferro que serve Silves, a cerca de dois quilómetros da cidade, as famílias e alguns amigos aguardavam a chegada das crianças. O comboio da zona do Sotavento, onde se acolhera a maioria das crianças, só chegaria lá para o meio-dia. Resolveram descer à cidade.
Ao longo do percurso, mais gente se foi juntando. À entrada na cidade já o grupo se apresentava como um cortejo alegre e barulhento, com vivas e cantos que expressavam a alegria do reencontro das famílias e que inundavam de emoção todos os que vinham às janelas para ver o que se passava e os outros que se animavam a participar na recepção.

José dos Reis Sequeira, operário corticeiro e militante anarco-sindicalista, que viveu o acontecimento, no seu livro Relembrando e Comentando, numa edição de "A Regra do Jogo", 1978, descreve assim os acontecimentos que se seguiram:

  • " Os industriais e mais senhores ricos da terra não gostaram do acontecido. Sentiram-se comprometidos por terem dado ocasião a que isto viesse a dar-se. E calcularam que à chegada do outro comboio seria pior, já porque a hora era outra e também porque o número de crianças a chegar do lado do Sotavento era muito maior. Temendo isso decidiram pedir às autoridades para impedir o cortejo. Isto é o que se supõe.
    De todas as zonas da cidade se encaminhava gente para a estação de caminho de ferro. O comboio era um pouco depois do meio-dia mas chegou um pouco atrasado.
    Eu, de manhã, não tinha participado no cortejo mas agora iam chegar as minhas irmãs, não podia faltar. O largo fronteiriço à estação transbordava de gente. A recepção não é possível descrever: risos, choros de alegria, chamamentos, gritaria descontrolada e vivas de entusiasmo, tudo num ruído amalgamado e ensurdecedor.
    Depois da partida do comboio começou a marcha a caminho da cidade.
    A estrada depois de descrever uma curva corta um cerro pelo meio da encosta, em sentido longitudinal. Pela nossa direita o cerro sobe até ao cume. Pela esquerda, um muro de pouco mais de 50 cm de alto, defende a estrada da vertente, bastante declivosa, que desce até às hortas e ao rio.
    O cortejo era maciço. Em Silves, eu, nunca vi tanta gente junta. A primeira parte do percurso fez-se numa animação incontida e transbordante; mas quando a cabeça do cortejo dobrou a curva, começou-se a divisar o aparato bélico das forças da guarda republicana, distribuídas estrategicamente: infantaria à direita, na parte superior da encosta de armas aperradas, em linha de atiradores; ao fundo a cavalaria barrava a passagem na estrada. Restava-nos a vertente da esquerda, o desfiladeiro defendido pelo muro, mas possível de saltar por ser baixo.
    A notícia correu célere até à cauda. Um aviso circulou: «mulheres e crianças para a frente!» Isto, na ideia que os mercenários teriam um pouco de respeito pelos inocentes. Terrível ilusão!
    A movimentação fez-se mesmo em marcha. E um silêncio temeroso e de expectativa tomou o lugar da alegria esfusiante de até então. A marcha continuou. Nisto, o comandante da força desceu à estrada e ordenou dispersão imediata. Alguém na frente objectou que não havia outro caminho e que se passaria calado. A marcha continuou, convencidos que calados, não prejudicariam ninguém. Mas o tenente sobe para junto da força e ordena fogo. A primeira descarga foi cerrada e a fuzilaria continuou um pouco desencontradamente. Ao mesmo tempo avança a cavalaria em carga brutal sem respeito pelas mulheres e crianças.
    Faltam-me recursos para poder descrever o pânico causado por esta inqualificável patifaria. Foi simplesmente horrível. Os que não foram atingidos pelas balas, pelas patas dos cavalos, ou pelas espadeiradas, rolavam pela vertente da esquerda depois de saltar o muro. A confusão era enorme; gritos de dor e aflição; crianças que choravam aleijadas e perdidas da família. Os que não caíram debaixo das patas dos cavalos, caíram desequilibrados na íngreme encosta e raras foram as pessoas que não se feriram duma ou doutra maneira.
    Das balas houve um morto e diversos feridos de mais ou menos gravidade que foram hospitalizados."

José dos Reis Sequeira continua a descrever "o alvoroço e o espanto" que dominou a cidade. No dia seguinte, com o funeral da vítima marcado para muito cedo, a população assistiu de novo à barragem da guarda, impondo que o funeral se realizasse sem acompanhamento. Descreve ainda os protestos que se seguiram, as prisões que se sucederam, a saída dos presos sob fiança, a aguardar julgamento e finalmente a audiência em tribunal, com a defesa do advogado Campos Lima, do Conselho Jurídico da Confederação Geral do Trabalho (CGT), e a absolvição dos que a GNR tinha aprisionado.

P.S.
Este texto já aqui havia sido publicado em 22 de Junho de 2006. (clique)

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segunda-feira, junho 20, 2011

Um poema a cada segunda-feira (XXXI)



Quando das comemorações do Dia Mundial da Poesia, Paulo Pires, Técnico Superior da Biblioteca Municipal de Silves, compilou uma antologia que intitulou POESIA 21, porque se refere a 21 poetas e ao dia 21 de Março.
São trabalhos desses 21 poetas, gente que se vem afirmando no nosso mundo literário, que aqui estou a incluir desde a XX edição.




  • RUA DA ATALAIA
para o Rui Pires Cabral

Trazemos no fundo do casaco
algumas canções usadas
– e achamos, por vezes, que
é para nós que as estrelas brilham,
entre prédios demolidos e amores também.

Acabamos, mais cedo ou mais tarde,
por acreditar no silêncio.
A felicidade, para outros, continua válida.
Mas disso, obviamente, nada podemos saber.


Manuel de Freitas
[SIC]
Assírio & Alvim, Lisboa 2002
Poetas sem Qualidades
Averno, Lisboa 2002
Terra Sem Coroa
Teatro de Vila Real, Vila Real 2007
Walkmen
& Etc., Lisboa 2007
Brynt Kobolt
Averno, Lisboa 2008
Boa Morte
Edição de autor, Lisboa 2008
A Última Porta [antologia]
Assírio & Alvim, Lisboa 2010
A Nova Poesia Portuguesa
Livraria Incompleta, Lisboa 2010
Poesia 21
Parceria Biblioteca Municipal de Silves / Escola Secundária de Silves

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