segunda-feira, dezembro 12, 2011

Um poema a cada segunda-feira (LVI)



O Público divulgou, há alguns anos, uma série de antologias de poesia que encomendara a certas personalidades da vida portuguesa não diretamente relacionadas com a literatura.

É desse manancial que esta rubrica se irá sustentar por algum tempo, confinando-se as minhas escolhas às opções dessa personalidades e a poetas que viveram, ou ainda vivem, sob o bafo civilizacional do séc. XXI.

A primeira vaga proveio da safra de Mário Soares.
Prossigo, agora com Miguel Veiga.


  • SONETO QUASE MUDO
                       Para o Miguel Veiga, "gauchement"...

Há o silêncio, às vezes, entre nós,
e é um silêncio denso, ou uma fala
críptica, uma linguagem que abdica
do som, para ser só a voz da alma...

Há súbitas catarses de palavras
em torrente, cachoeiras de espuma
efervescente, ou talvez a timidez
dos gestos reprimidos ou represos.

Há os olhos que dizem sem dizer,
há o fluido subtil de quem se entende
mais longe do que a vida nos permite.

E há a confiança na ausência,
há segredos sabidos sem saber,
manhãs comuns em cada amanhecer.

Rui Polónio Sampaio
Os poemas da minha vida
Miguel Veiga
Público, Lisboa 2005

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segunda-feira, dezembro 05, 2011

Um poema a cada segunda-feira (LV)



O Público divulgou, há alguns anos, uma série de antologias de poesia que encomendara a certas personalidades da vida portuguesa não diretamente relacionadas com a literatura.

É desse manancial que esta rubrica se irá sustentar por algum tempo, confinando-se as minhas escolhas às opções dessa personalidades e a poetas que viveram, ou ainda vivem, sob o bafo civilizacional do séc. XXI.

A primeira vaga proveio da safra de Mário Soares.
Prossigo, agora com Miguel Veiga.


  • NÃO SEI DE AMOR SENÃO
Não sei de amor senão o amor perdido
o amor que só se tem de nunca o ter
procuro em cada corpo o nunca tido
e é esse que não pára de doer.
Não sei de amor senão o amor ferido
de tanto te encontrar e te perder.

Não sei de amor senão o não ter tido
teu corpo que não cesso de perder
nem de outro modo sei se tem sentido
este amor que só vive de não ter
o teu corpo que é meu porque perdido
não sei de amor senão esse doer.

Não sei de amor senão esse perder
teu corpo tão sem ti e nunca tido
para sempre só meu de nunca o ter
teu corpo que me dói no corpo ferido
onde não deixou nunca de doer
não sei de amor senão o amor perdido.

Não sei de amor senão o sem sentido
deste amor que não morre por morrer
o teu corpo tão nu nunca despido
o teu corpo tão vivo de o perder
neste amor que só é de não ter sido
não sei de amor senão esse não ter.

Não sei de amor senão o não haver
amor que dure mais que o nunca tido.
Há um corpo que não pára de doer
só esse é que não morre de tão perdido
só esse é sempre meu de nunca o ser
não sei de amor senão o amor ferido.

Não sei de amor senão o tempo ido
em que o amor era amor de puro arder
tudo passa mas não o não ter tido
o teu corpo de ser e de não ser
só esse é meu por nunca ter ardido
não sei de amor senão esse perder.

Cintilante na noite um corpo ferido
só nele de o não ter tido eu hei-de arder
não sei de amor senão amor perdido.

Manuel Alegre
Os poemas da minha vida
Miguel Veiga
Público, Lisboa 2005

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segunda-feira, novembro 28, 2011

Um poema a cada segunda-feira (LIV)



O Público divulgou, há alguns anos, uma série de antologias de poesia que encomendara a certas personalidades da vida portuguesa não diretamente relacionadas com a literatura.

É desse manancial que esta rubrica se irá sustentar por algum tempo, confinando-se as minhas escolhas às opções dessa personalidades e a poetas que viveram, ou ainda vivem, sob o bafo civilizacional do séc. XXI.

A primeira vaga proveio da safra de Mário Soares.
Prossigo, agora com Miguel Veiga.


  • AINDA ME ACOLHO
Ainda me acolho, Pai,
à tua madresilva.
Ali tens a passiflora,
não envelheceu.
O cedro grande, maior ainda.
O forno, dedadas
expungidas pelas portas.
A buganvília, não esqueço,
é preciso cortá-la.
A Mãe não está nem volta.

António Osório
Os poemas da minha vida
Miguel Veiga
Público, Lisboa 2005

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segunda-feira, novembro 21, 2011

Um poema a cada segunda-feira (LIII)



O Público divulgou, há alguns anos, uma série de antologias de poesia que encomendara a certas personalidades da vida portuguesa não diretamente relacionadas com a literatura.

É desse manancial que esta rubrica se irá sustentar por algum tempo, confinando-se as minhas escolhas às opções dessa personalidades e a poetas que viveram, ou ainda vivem, sob o bafo civilizacional do séc. XXI.

A primeira vaga proveio da safra de Mário Soares.
Prossigo, agora com Miguel Veiga.


  • BARCAROLA
quero falar aqui do meu amor, quero falar
quando o silêncio é de oiro ensimesmado,
o tempo é de ferrugem,
e o espaço é de água na longa solidão
riscada pelas aves.

pobre relento dos sonhos que sonhámos:
passámos por aqui, os olhos rasos de luz
e o coração embalado por um fio de música
a diluir-se no crepúsculo
com as águas morosas, a

sombra a carregar-se ao rés das casas, as
rosas semicerrando-se numa leve respiração.
águas do douro que corriam, para onde
levavam as lembranças como barcos
que se esquecessem do seu rumo?

leve brisa do mar que nos chegava,
salina sem sabermos
que anunciava as lágrimas, de que fundo
dos mares atormentadas arrancava?
cais humilde das cargas, quem diria

que ali só atracavam desventuras?
ali, só quero falar desta golfada a desprender-se
de sonho e oiro a que te misturavas
num ledo encantamento entre rumores
que se apagavam fulvos em surdina

e sílabas, sílabas que na alma a pouco e pouco
emudeciam comovidas. noite, ó noite
que cobriste essas horas do teu luto,
quando será manhã para que seja
outra tarde outra vez essa harmonia?

Vasco Graça Moura
Os poemas da minha vida
Miguel Veiga
Público, Lisboa 2005

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segunda-feira, novembro 14, 2011

Um poema a cada segunda-feira (LII)



O Público divulgou, há alguns anos, uma série de antologias de poesia que encomendara a certas personalidades da vida portuguesa não diretamente relacionadas com a literatura.

É desse manancial que esta rubrica se irá sustentar por algum tempo, confinando-se as minhas escolhas às opções dessa personalidades e a poetas que viveram, ou ainda vivem, sob o bafo civilizacional do séc. XXI.

A primeira vaga proveio da safra de Mário Soares.
Prossigo, agora com Miguel Veiga.


  • AS PALAVRAS
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade
Os poemas da minha vida
Miguel Veiga
Público, Lisboa 2005

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quarta-feira, novembro 09, 2011

Colóquio: Estudos Árabes em Portugal



O Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves (CELAS) vai realizar no próximo sábado, 12, às 14:30 horas, um colóquio sobre a temática Estudos Árabes em Portugal, marcada para o auditório do Instituto Superior Jean Piaget, em Silves, com entrada livre.

Serão abordados os seguintes temas: Arabismo em Portugal: 500 anos de uma temática nunca esquecida, por António Rei; O Arabismo português e a escola orientalista europeia, por Mostafa Zekri; Alandalus, 1300 anos – Novas polémicas de interpretação histórica, por Adalberto Alves.

Em paralelo, será lançada a obra O Gharb Al-Andalus, primeiro volume de textos do arabista Garcia Domingues, “textos que se encontram dispersos e esquecidos apesar da sua pertinência e actualidade científicas” e que o CELAS tem vindo a recolher para publicação.

Este projeto teve início em 2010 com a reedição da obra «História Luso-Árabe», por ocasião das comemorações do centenário do nascimento de Garcia Domingues.

Texto adaptado de um comunicado de imprensa

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segunda-feira, novembro 07, 2011

Um poema a cada segunda-feira (LI)



O Público divulgou, há alguns anos, uma série de antologias de poesia que encomendara a certas personalidades da vida portuguesa não diretamente relacionadas com a literatura.

É desse manancial que esta rubrica se irá sustentar por algum tempo, confinando-se as minhas escolhas às opções dessa personalidades e a poetas que viveram, ou ainda vivem, sob o bafo civilizacional do séc. XXI.

A primeira vaga proveio da safra de Mário Soares.
Prossigo, agora com Miguel Veiga.


  • PUDESSE EU
Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.



Sophia de Mello Breyner Andresen
Os poemas da minha vida
Miguel Veiga
Público, Lisboa 2005

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