sexta-feira, setembro 30, 2005

Um Cont(inh)o (VI)

De novo, um microconto (cerca de 50 caracteres):


  • Um dia, ao arrumar as ideias, arriscou-se a perder a cabeça.

quarta-feira, setembro 28, 2005

Na linha dupla das estações

Nuno Júdice regressa ao Local & Blogal como já sucedeu várias vezes (visite a compilação ao fundo da página), quase sempre quando aquilo que dele leio condiz com o que me alegra e me rejubila, ou com o que me atormenta, me inquieta e me incomoda, enfim, com o meu "estado de alma", seja lá isso o que for.

  • Poema

    Escrevo na linha dupla das estações:
    o outono, o inverno; e ainda
    a primavera, ou o verão - quando
    o azul cai, ao fim da tarde,
    ou não chega a nascer
    das grandes névoas matinais.

    Sei que, no fundo do poema,
    um sentimento se arrasta;
    e coincide com o tempo
    que o inspirou, com esse lodo
    de emoções que se juntou
    na alma, submergindo na sua
    monotonia o impulso divino.

    Não perco tempo a ver
    as árvores, os arbustos que se
    enchem de flor com o primeiro
    sol, ou as pedras molhadas como
    dorsos de antigos animais. Volto
    para mim próprio como quem
    regressa de viagem; e não
    estava à minha espera,

    intruso, visita
    indesejável na minha vida.

Nuno Júdice
Meditação sobre Ruínas (1994)
Poesia Reunida (1967-2000)
Publicações Dom Quixote, Lisboa 2000

segunda-feira, setembro 26, 2005

As laranjas, de Ibn Sara

Faz tempo que aqui não deixava um poema daqueles autores que habitaram este mesmo espaço geográfico, se bem que noutra época e civilização, e aqui escreveram sobre um imaginário que nos é comum e que o tempo e os homens ainda não conseguiram dirimir.
Ibn Sara, de Santarém, figura entre os meus poetas preferidos e aqui mais citados. (Veja a compilação ao fundo da página)
O poema que vou transcrever, e que me toca de perto porque o seu tema é o horizonte do meu dia-a-dia, já aqui foi referido, numa outra tradução, a que podeis aceder através de um link que figura neste post, de Maio de 2005.
Dedico-o à Manuela, de Dias com árvores.

  • As Laranjas

    laranjas são brasas vivas sobre ramos
    ou rostos espreitando entre colinas verdes?
    e a ramaria, folhas que baloiçam
    ou formas frágeis que me causam pena?

    vejo-te, laranjeira, com os teus frutos,
    lágrimas rubras dos tormentos do amor.
    são sólidos mas, se fundidos, vinho seriam
    moldados pelas mãos mágicas da natureza.
    são bolas de cornalina sobre ramos de topázio
    à espera do açoite da brisa.
    porque tais frutos beijamos,
    ou seu cheiro aspiramos,
    eis que às vezes nos parecem
    ou rostos de raparigas
    ou pomos feitos perfume.

Adalberto Alves
O meu coração é árabe
Assírio & Alvim, Lisboa 1999

Improvisation
Alla
Fondou de Béchar
al sur (1994)


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quinta-feira, setembro 22, 2005

Um Conto (XIV)

A marca outonal do conto que se segue, mais precisamente de fim de férias, de final de Verão, leva-me a quebrar o hábito de publicação de um conto à sexta-feira.
Hoje, quinta-feira, o Equinócio de Outono apresentar-se-á pelas 22h23, para as coordenadas de Silves, e será mais pacífico, conto eu, do que o que vem acontecendo nas estradas portuguesas, ano após ano, pelos finais de férias e feriados.

  • O efeito da luz no ocre da falésia

    Só teve tempo de travar. O carro ainda embateu, ligeiramente, de encontro ao rail que delimitava a via. Atordoado, apercebeu-se de que estava fora de mão, numa situação de elevado perigo para si e para os outros que ali circulavam, intensamente, no regresso de férias.

    Que férias!!!

    Sorria, certamente, enquanto revia as preguiçosas e despreocupadas manhãs, a longa e descontraída cavaqueira ao jantar, com os amigos, as animadas e despreconceituosas festas, noite fora. As tardes, na praia, a ler, a ouvir música, banhando-se amiúde nas tépidas águas do mar ou fitando, abstraído, o efeito da luz no ocre da falésia.

    Foi aí que um violento raio de sol o despertou da sonolência e o acordou, no momento em que o seu carro seguia perigosamente descomandado.


terça-feira, setembro 20, 2005

A abstenção é o descrédito na mudança

O que escrevo por aqui tem a ver com as minhas preocupações pessoais, nas quais incluo a minha relação com a cidade, os cidadãos e a cidadania.
Se, porventura, ultimamente me venho referindo com maior frequência à actuação da Câmara Municipal de Silves, particularmente à da sua presidente, a quem, em última análise, cabem as responsabilidades, tal se deve a uma maior profusão de manifestações públicas e declarações, em crescendo certamente até ao acto eleitoral.
É assim natural que eu tenha um maior número de assuntos locais sobre que me pronunciar, evitando as diatribes do diz-que-disse, contribuindo com a minha opinião crítica, contrapondo sugestões e actuando com isenção e independência em relação ao jogo partidário.

Acontece que o acto eleitoral traz consigo outras vozes, que muito raramente se fazem ouvir, e que se me dirigem, dizendo contar connosco, com as pessoas, com mais ou menos energia renovável ou tradicional.
Acho que a oposição também tem contas a prestar, embora não pareça. É que muitos de nós, muitas vezes a maioria de todos nós, acabamos por votar na oposição.

O que me pergunto é o que farão de futuro os que não vierem a alcançar o poder e cuja atitude, nessa circunstância, poderia ser um dos motivos que me conduziriam ao voto.
Não estou interessado em quem detém o poder - «o poder sempre corrompe» - mas antes em quem o fiscaliza, em quem se lhe opõe, contrapondo uma outra forma de encarar as soluções políticas, que não as partidárias ou de mera gestão da coisa pública.
Se as actuações das autarquias se limitassem a decisões sobre o que é "melhor para o concelho", como se cada um não tivesse um entendimento próprio do que é ou não o "melhor para o concelho", não precisaríamos de eleições. Bastar-nos-ia um bom gestor, escolhido em concurso público.

O que espero, então, dos que vierem a ficar na oposição, é poder contar com eles nos actos de fiscalização e na disponibilização regular dessa informação:

  • da parte dos vereadores, sobre a forma como votaram e por que o fizeram dessa maneira, em cada uma das decisões da câmara municipal, exigindo, não só, que se tornem públicas as actas, mas que o seu teor consiga chegar ao conhecimento do mais comum dos cidadãos, envolvendo-nos na compreensão das decisões políticas, fazendo viver a cidadania;
  • da parte dos representantes na Assembleia, que se não limitem a disputas partidárias, quando não pessoais, em mimetismos da actuação parlamentar, que afastam os cidadãos pelo desinteresse; quanto às actas e sua divulgação, exigir que não se fique pelo mero cumprimento da lei, mas que elas sejam um contributo à discussão pública, à participação democrática dos cidadãos; eventualmente um tema de debate nas assembleias de freguesia.

Sonhos meus, dirão.
É porque existe o sonho que eu acho que votamos, tentando mudar, talvez mais a maneira como os partidos procedem, inovando, do que propriamente a cor no poder.
Quando deixarmos de crer na mudança, para que servirá o voto?

sexta-feira, setembro 16, 2005

Um Conto (XIII)

  • Aquela paz sem fim

    Deitado de costas sobre a areia molhada, comecei a aperceber-me de que estava rodeado de gente. Surpreenderam-me os olhares atónitos, os grotescos ritos faciais.

    Era uma plena tarde de Verão. Uma faixa de areia dourada demarcava o contorno da baía. O mar confundia-se com o céu num matizado de azul, de um inebriante azul.
    Desci à praia. A calma ondulação convidava ao mergulho. O corpo aceitou com agrado o contacto com a água tépida. Mergulhei. Pareceu-me avistar um rochedo, isolado naquele fundo de areia. Tomei fôlego. Mergulhei de novo, mais profundamente. A refracção do sol projectava fantasmagóricos cambiantes de luz, evolucionando ao sabor da corrente que agitava as algas em atraentes movimentos baléticos. Curiosos peixes, pequenos e irrequietos camarões, até um polvo, que se escondia na sua toca, participava, com os seus tentáculos, nesta coreografia.

    Subitamente algo aconteceu.

    O rochedo ganhava a configuração do corpo dela, nua e palpitante. O seu sorriso, de maliciosa inocência, o penetrante olhar, os braços ondulantes abrindo-se para mim, o corpo em abandono, oferecendo-se-me.
    Recordo o amplexo do nosso desejo e uma inquebrantável vontade de me aninhar a seu lado e com ela ficar, docemente, naquele sossego, naquela paz sem fim.


P.S.
A propósito do desastre de New Orleans, chamo a atenção para estas três galerias de fotos, com música, sob o título "Jazz em silêncio", no Público. (clique no sublinhado)

quarta-feira, setembro 14, 2005

Uma Revista dedicada a Silves e seu Património

Sé de Silves, Agosto de 2005, © António Baeta Olveira

No Dia da Cidade, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, ocorreu o lançamento do último número da revista Monumentos, uma publicação semestral da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, na sua maior parte dedicada a Silves.

Um dos artigos da citada revista, assinado por Fernando Pessoa, arquitecto paisagista, refere-se a «Silves e a sua paisagem».
Na sequência do meu post anterior, dedicado à Serra, ocorreu-me trazer-vos algumas transcrições do referido artigo, pela sua importância e já que não será fácil ter acesso a esse documento.

O autor começa por afirmar: "Falar da paisagem envolvente de Silves não é, infelizmente, tão agradável como poderia ser se a sua qualidade ambiental fosse outra".
Descreve então Silves com algumas referências à sua história, à sua situação geográfica, à sua geologia e à natureza diversificada do seu concelho, «do litoral ao barrocal e até à serra».
Prossegue, referindo a flora e a degradação a que foi sendo sujeita a cobertura florestal, aceleradamente a partir do século XX com as campanhas do trigo do Estado Novo: «O abandono das terras declivosas, face às magras colheitas de cereal, deixou as encostas entregues à erosão, e apenas a esteva acabou por se fixar nos solos pedregosos e quase estéreis. Por fim, nas últimas décadas, foram as campanhas do eucalipto que completaram a desolação».
Depois, os fogos florestais.
Discorre em seguida sobre alguns produtos da serra, nomeadamente o gado e o mel e regista algumas várzeas cultivadas. «A ribeira de Odelouca é um dos cursos de água que atravessa a paisagem da envolvente de Silves e que apresenta ainda uma galeria ripícola bem conservada, nomeadamente com grupos de amieiros, representando um dos melhores trechos de património natural do Algarve».
Descreve mais algumas zonas, a que se refere como «...relíquias de flora indígena...». Propõe passeios a pé, à descoberta da natureza, pela Sapeira e vale da ribeira de Odelouca, pela «água calma dos pegos» e ainda pela ribeira de Benafátima. Refere então as barragens, do Arade e do Funcho, a irregularidade do regime de chuvas e o seu baixo armazenamento, e a pobre, desordenada e monótona paisagem envolvente, «... com base em eucaliptais de tipo industrial.»
Segue-se uma nota às décadas de fundos comunitários desperdiçados e desce ao vale do Arade e aos seus extensos laranjais, para afirmar: «Pomares e hortas ainda vicejam, mas se não se implantar uma política coerente de gestão global dos recursos hídricos é mais um sector da economia agrícola que fica seriamente ameaçado e, com ele, toda uma bela paisagem com séculos de existência».
Então o rio, a partir de Portimão, onde: «... os meandros acentuam-se, deixando ilhotas de sapal e margens de sapais altos, onde as garças, patos reais e muitas outras aves aquáticas nidificam ou ali encontram refúgio e alimento. Muitos trechos marginais mantêm um relativo bom estado de conservação».
Quase a terminar, lastima: «Hoje, ao subir-se o rio Arade, e à medida que nos aproximamos da cidade, a poluição e o cheiro retiram o prazer da viagem, e a água apresenta o mau aspecto dum rio de qualquer país onde os cuidados com a saúde pública sejam neglicenciados. O apregoado Projecto de Navegabilidade do Rio Arade talvez venha a ter como consequência positiva a solução destes problemas, até mesmo o do péssimo aspecto urbanístico que a cidade apresenta na sua urbanização marginal, sobretudo para quem chega de barco, e que contrasta negativamente com a formosura da encosta da cidade antiga».
Conclui: «A possibilidade [de poder «cantar a paisagem de Silves como o faziam os antigos senhores que dela fizeram capital sumptuosa...»] existe, assim venham também a existir a consciência ambiental e a capacidade cultural de quem terá que decidir o futuro da paisagem envolvente de Silves».

P.S.
1. A propósito do meu post anterior vai daqui um grande abraço ao João, de Asul.
2. Ainda um abraço a outro João, o Scotex, pela referência elogiosa.
3. Amanhã, sexta-feira, haverá um novo conto, o 13º.