De novo, um microconto (cerca de 50 caracteres):
Um dia, ao arrumar as ideias, arriscou-se a perder a cabeça.
De novo, um microconto (cerca de 50 caracteres):
Nuno Júdice regressa ao Local & Blogal como já sucedeu várias vezes (visite a compilação ao fundo da página), quase sempre quando aquilo que dele leio condiz com o que me alegra e me rejubila, ou com o que me atormenta, me inquieta e me incomoda, enfim, com o meu "estado de alma", seja lá isso o que for.
Nuno Júdice
Meditação sobre Ruínas (1994)
Poesia Reunida (1967-2000)
Publicações Dom Quixote, Lisboa 2000
Faz tempo que aqui não deixava um poema daqueles autores que habitaram este mesmo espaço geográfico, se bem que noutra época e civilização, e aqui escreveram sobre um imaginário que nos é comum e que o tempo e os homens ainda não conseguiram dirimir.
Ibn Sara, de Santarém, figura entre os meus poetas preferidos e aqui mais citados. (Veja a compilação ao fundo da página)
O poema que vou transcrever, e que me toca de perto porque o seu tema é o horizonte do meu dia-a-dia, já aqui foi referido, numa outra tradução, a que podeis aceder através de um link que figura neste post, de Maio de 2005.
Dedico-o à Manuela, de Dias com árvores.
Adalberto Alves
O meu coração é árabe
Assírio & Alvim, Lisboa 1999
A marca outonal do conto que se segue, mais precisamente de fim de férias, de final de Verão, leva-me a quebrar o hábito de publicação de um conto à sexta-feira.
Hoje, quinta-feira, o Equinócio de Outono apresentar-se-á pelas 22h23, para as coordenadas de Silves, e será mais pacífico, conto eu, do que o que vem acontecendo nas estradas portuguesas, ano após ano, pelos finais de férias e feriados.
O efeito da luz no ocre da falésia
Só teve tempo de travar. O carro ainda embateu, ligeiramente, de encontro ao rail que delimitava a via. Atordoado, apercebeu-se de que estava fora de mão, numa situação de elevado perigo para si e para os outros que ali circulavam, intensamente, no regresso de férias.
Que férias!!!
Sorria, certamente, enquanto revia as preguiçosas e despreocupadas manhãs, a longa e descontraída cavaqueira ao jantar, com os amigos, as animadas e despreconceituosas festas, noite fora. As tardes, na praia, a ler, a ouvir música, banhando-se amiúde nas tépidas águas do mar ou fitando, abstraído, o efeito da luz no ocre da falésia.
Foi aí que um violento raio de sol o despertou da sonolência e o acordou, no momento em que o seu carro seguia perigosamente descomandado.
O que escrevo por aqui tem a ver com as minhas preocupações pessoais, nas quais incluo a minha relação com a cidade, os cidadãos e a cidadania.
Se, porventura, ultimamente me venho referindo com maior frequência à actuação da Câmara Municipal de Silves, particularmente à da sua presidente, a quem, em última análise, cabem as responsabilidades, tal se deve a uma maior profusão de manifestações públicas e declarações, em crescendo certamente até ao acto eleitoral.
É assim natural que eu tenha um maior número de assuntos locais sobre que me pronunciar, evitando as diatribes do diz-que-disse, contribuindo com a minha opinião crítica, contrapondo sugestões e actuando com isenção e independência em relação ao jogo partidário.
Acontece que o acto eleitoral traz consigo outras vozes, que muito raramente se fazem ouvir, e que se me dirigem, dizendo contar connosco, com as pessoas, com mais ou menos energia renovável ou tradicional.
Acho que a oposição também tem contas a prestar, embora não pareça. É que muitos de nós, muitas vezes a maioria de todos nós, acabamos por votar na oposição.
O que me pergunto é o que farão de futuro os que não vierem a alcançar o poder e cuja atitude, nessa circunstância, poderia ser um dos motivos que me conduziriam ao voto.
Não estou interessado em quem detém o poder - «o poder sempre corrompe» - mas antes em quem o fiscaliza, em quem se lhe opõe, contrapondo uma outra forma de encarar as soluções políticas, que não as partidárias ou de mera gestão da coisa pública.
Se as actuações das autarquias se limitassem a decisões sobre o que é "melhor para o concelho", como se cada um não tivesse um entendimento próprio do que é ou não o "melhor para o concelho", não precisaríamos de eleições. Bastar-nos-ia um bom gestor, escolhido em concurso público.
O que espero, então, dos que vierem a ficar na oposição, é poder contar com eles nos actos de fiscalização e na disponibilização regular dessa informação:
Sonhos meus, dirão.
É porque existe o sonho que eu acho que votamos, tentando mudar, talvez mais a maneira como os partidos procedem, inovando, do que propriamente a cor no poder.
Quando deixarmos de crer na mudança, para que servirá o voto?
Aquela paz sem fim
Deitado de costas sobre a areia molhada, comecei a aperceber-me de que estava rodeado de gente. Surpreenderam-me os olhares atónitos, os grotescos ritos faciais.
Era uma plena tarde de Verão. Uma faixa de areia dourada demarcava o contorno da baía. O mar confundia-se com o céu num matizado de azul, de um inebriante azul.
Desci à praia. A calma ondulação convidava ao mergulho. O corpo aceitou com agrado o contacto com a água tépida. Mergulhei. Pareceu-me avistar um rochedo, isolado naquele fundo de areia. Tomei fôlego. Mergulhei de novo, mais profundamente. A refracção do sol projectava fantasmagóricos cambiantes de luz, evolucionando ao sabor da corrente que agitava as algas em atraentes movimentos baléticos. Curiosos peixes, pequenos e irrequietos camarões, até um polvo, que se escondia na sua toca, participava, com os seus tentáculos, nesta coreografia.
Subitamente algo aconteceu.
O rochedo ganhava a configuração do corpo dela, nua e palpitante. O seu sorriso, de maliciosa inocência, o penetrante olhar, os braços ondulantes abrindo-se para mim, o corpo em abandono, oferecendo-se-me.
Recordo o amplexo do nosso desejo e uma inquebrantável vontade de me aninhar a seu lado e com ela ficar, docemente, naquele sossego, naquela paz sem fim.
No Dia da Cidade, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, ocorreu o lançamento do último número da revista Monumentos, uma publicação semestral da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, na sua maior parte dedicada a Silves.
Um dos artigos da citada revista, assinado por Fernando Pessoa, arquitecto paisagista, refere-se a «Silves e a sua paisagem».
Na sequência do meu post anterior, dedicado à Serra, ocorreu-me trazer-vos algumas transcrições do referido artigo, pela sua importância e já que não será fácil ter acesso a esse documento.
O autor começa por afirmar: "Falar da paisagem envolvente de Silves não é, infelizmente, tão agradável como poderia ser se a sua qualidade ambiental fosse outra".
Descreve então Silves com algumas referências à sua história, à sua situação geográfica, à sua geologia e à natureza diversificada do seu concelho, «do litoral ao barrocal e até à serra».
Prossegue, referindo a flora e a degradação a que foi sendo sujeita a cobertura florestal, aceleradamente a partir do século XX com as campanhas do trigo do Estado Novo: «O abandono das terras declivosas, face às magras colheitas de cereal, deixou as encostas entregues à erosão, e apenas a esteva acabou por se fixar nos solos pedregosos e quase estéreis. Por fim, nas últimas décadas, foram as campanhas do eucalipto que completaram a desolação».
Depois, os fogos florestais.
Discorre em seguida sobre alguns produtos da serra, nomeadamente o gado e o mel e regista algumas várzeas cultivadas. «A ribeira de Odelouca é um dos cursos de água que atravessa a paisagem da envolvente de Silves e que apresenta ainda uma galeria ripícola bem conservada, nomeadamente com grupos de amieiros, representando um dos melhores trechos de património natural do Algarve».
Descreve mais algumas zonas, a que se refere como «...relíquias de flora indígena...». Propõe passeios a pé, à descoberta da natureza, pela Sapeira e vale da ribeira de Odelouca, pela «água calma dos pegos» e ainda pela ribeira de Benafátima. Refere então as barragens, do Arade e do Funcho, a irregularidade do regime de chuvas e o seu baixo armazenamento, e a pobre, desordenada e monótona paisagem envolvente, «... com base em eucaliptais de tipo industrial.»
Segue-se uma nota às décadas de fundos comunitários desperdiçados e desce ao vale do Arade e aos seus extensos laranjais, para afirmar: «Pomares e hortas ainda vicejam, mas se não se implantar uma política coerente de gestão global dos recursos hídricos é mais um sector da economia agrícola que fica seriamente ameaçado e, com ele, toda uma bela paisagem com séculos de existência».
Então o rio, a partir de Portimão, onde: «... os meandros acentuam-se, deixando ilhotas de sapal e margens de sapais altos, onde as garças, patos reais e muitas outras aves aquáticas nidificam ou ali encontram refúgio e alimento. Muitos trechos marginais mantêm um relativo bom estado de conservação».
Quase a terminar, lastima: «Hoje, ao subir-se o rio Arade, e à medida que nos aproximamos da cidade, a poluição e o cheiro retiram o prazer da viagem, e a água apresenta o mau aspecto dum rio de qualquer país onde os cuidados com a saúde pública sejam neglicenciados. O apregoado Projecto de Navegabilidade do Rio Arade talvez venha a ter como consequência positiva a solução destes problemas, até mesmo o do péssimo aspecto urbanístico que a cidade apresenta na sua urbanização marginal, sobretudo para quem chega de barco, e que contrasta negativamente com a formosura da encosta da cidade antiga».
Conclui: «A possibilidade [de poder «cantar a paisagem de Silves como o faziam os antigos senhores que dela fizeram capital sumptuosa...»] existe, assim venham também a existir a consciência ambiental e a capacidade cultural de quem terá que decidir o futuro da paisagem envolvente de Silves».
P.S.
1. A propósito do meu post anterior vai daqui um grande abraço ao João, de Asul.
2. Ainda um abraço a outro João, o Scotex, pela referência elogiosa.
3. Amanhã, sexta-feira, haverá um novo conto, o 13º.