segunda-feira, Julho 28, 2014

Telhados






Foi esta minha foto que me sugeriu o tema, se bem que de telhado já pouco há; restam algumas telhas.

Como esta, há pela cidade dezenas de situações semelhantes.

A cidade envelheceu e os "novos" prédios de apartamentos, construídos ao longo dos anos 70 nas zonas onde, em enormes quintais murados, se guardava a cortiça em prancha, ainda por laborar, absorveram a migração das pessoas que abandonaram as velhas e tradicionais casas de família na zona do centro histórico e zonas adjacentes.

São essas casas que, agora destelhadas, se encontram ao abandono.

Na maioria das situações os passantes nem se dão conta do estado destas casas, pois as fachadas, apesar de envelhecidas, não apresentam o ar de ruína dos telhados. Mas para os que , como eu, se põem a olhar pelas fechaduras, pelos vãos das portas, pelas janelas entreabertas, sabem bem como a Natureza tomou conta do interior das casas, com ervas e destroços.

Esta ruína, um dia tomará conta das fachadas e nessa altura serão dezenas de casas em perigo de ruína iminente, como se a cidade subitamente envelhecesse.

Há que prevenir esta situação com uma boa antecedência. Um estudo, seguido de um plano de abordagem da situação, já deveria ter sido iniciado.

Sabemos que os executivos têm prazos diminutos e que há muitas e variadas coisas a que têm que dar atenção. Os seus prazos de vigência não comportam planos de médio e longo prazo, mas deveria haver entendimento entre partidos para a elaboração de um estudo desta natureza, ou mais cedo ou mais tarde, terão entre mãos um problema com que não poderão lidar.

Aí então será tarde.


segunda-feira, Julho 21, 2014

Chaminés





Esta chaminé teve a oportunidade de chamar a atenção sobre si devido ao infortúnio do telhado desta casa e até da própria casa, atingida pela velhice e pelo abandono.

Sem a queda do telhado ela mal seria avistada da rua e mesmo que o fosse não chamaria a atenção de ninguém. 

Que importância tem uma chaminé, quando há tantas? Pelo menos uma em cada casa e as casas são tantas numa cidade, por pequena que a cidade seja.

Você é capaz de descrever a chaminé da sua casa?

Quantas pessoas numa cidade serão capazes de o fazer com algum pormenor?



E já pensou na importância de uma chaminé? 

Ela é o escoadouro de fumos, de cheiros, de humores, de palavras mais ou menos gritadas, por desespero, por raiva, por alegria. 

Por elas passam cantos e exclamações que mais ninguém ouviu. Por ela se renova o ar que se respira. 

As chaminés são mesmo indispensáveis numa casa, mesmo quando no exterior não se apresentam com a aparência desta, na foto, e se resumem a um simples tubo ou bocal.

As nossas chaminés cá do sul, as algarvias, até são famosas pelos recortes e estilizações e pela cuidada brancura que a cal lhes confere.

São vaidosas.



Esta outra chaminé, por exemplo, é bem vaidosa.

Apreciem bem como se estica, como se eleva, na pretensão de atingir a altura das muralhas mais altas do castelo.

É como se soubesse como ficou bem na fotografia, rivalizando com a outra, pretensiosa na sua aparência, mas que ficou bem mais abaixo, já lá no limite do telhado.

É certo que a perspetiva desempenha aqui um papel de relevo, pois nem as muralhas são tão baixas, nem as chaminés tão elevadas, mas isso já é por conta da câmara fotográfica e do olhar do fotógrafo, que até inscreve na própria foto ramos de árvores mais altas que o castelo e que as próprias chaminés, mas que, na realidade se ficam bem mais abaixo do que o mais baixo dos telhados.

O olhar tem destas coisas enganosas e as chaminés aproveitam-se destas circunstâncias para se mostrar, quando não são os fotógrafos a querer chamar a atenção para as coisas que o nosso olhar de todos os dias acaba por não ver.

Hoje dispus-me a prestar-lhes esse favor.

Que vivam as chaminés, que hoje aqui  estiveram para lembrar que há muita coisa que todos os dias avistamos e parece não ter importância, só porque o nosso olhar não atingiu ou não prestou atenção.

E estivemos a falar de coisas. Como seria se falássemos de pessoas?

Há na realidade muitas pessoas que todos os dias avistamos sem dar por elas e são essas as que provavelmente mais precisariam que as tivéssemos visto com outro olhar.

Vamos ser mais atentos?!




segunda-feira, Julho 14, 2014

Há que olhar ao chão que se pisa







Não acredito muito nesta premissa contida no título, cujo sentido ultrapassa o mero cuidado com o chão e pode mesmo atingir o nível do preconceito e da afirmação de superioridade em relação a outros (supostamente inferiores perante o superior), mas acho que devemos mesmo ter atenção ao chão que se pisa, por variados motivos: pode estar enlameado, mal nivelado, esburacado, conspurcado, ou antes possuir sinais de advertência ou de intenção de embelezamento, como o dos arranjos da chamada "calçada portuguesa" ou os tais pequenos paralelepípedos decorados a tinta e mesmo a fios de lã, como já tenho avistado por aí.

O chão da fotografia passa a ideia de um chão irregular e incómodo, mas quem o percorre sabe que não é assim e que até faculta alguma firmeza no andar, sem erosão significativa da sola do calçado e é até permeável, garantindo o regular escoamento da água após as chuvas ou lavagens, enriquecendo o subsolo com a humidade que deixa passar e evitando as águas de escorrência em demasia.

É pena que o nosso caminho, vida fora, raramente se nos apresente com as vantagens desta calçada sem sobressaltos e até há épocas, como a que agora vimos a atravessar, que lamentavelmente se fecham às ambições e aos esforços dos que se prepararam para enfrentar uma vida melhor do que a de seus pais ou ainda aos que trabalharam toda uma vida na esperança de uma velhice como uma "calçada sem sobressaltos" e se veem  com as solas rompidas pelo mau caminho.

Temos que olhar ao chão que se pisa e exigir uma calçada que não dificulte tanto os nossos melhores esforços e que nos mereça os sacrifícios que nos impõem e a que nos impomos.

Saibamos usar os nossos direitos de cidadania e reclamar uma "calçada" melhor.

segunda-feira, Julho 07, 2014

Compulsão






Interrogo-me sobre esta compulsão que faz com que as formigas se organizem em coletivo, de forma a garantir um determinada finalidade.

Sofreremos nós, também, algum efeito compulsivo que, de tão habituados ao nosso livre arbítrio, nem demos por tal?

Muito plausivelmente as formigas nem se dão conta disso, mas procedem em conformidade.

Estou agora a pensar na fábula da cigarra e da formiga, que usa estas duas espécies para contrapor a preguiça aos valores do trabalho, como se a cigarra não tivesse que se esforçar para  a obtenção do seu alimento. É que as formigas o fazem desta forma que nos parece penosa, enquanto a cigarra "canta".

Eu detesto ser um indivíduo, desde que me entendo como pessoa.

De tal maneira isso está presente na minha natureza libertária que desconfio compulsivamente das maiorias e é com dificuldade e algum recuo que me integro em coletivos, e se provisoriamente o faço, ainda que de "alma e coração", a minha experiência revela que não me fixo de todo. 

E esta minha atitude mostra-se-me compulsiva, se de alguma forma reflito sobre ela, como o estou a fazer agora.

Tenho esta natureza libertária, apesar de todas as prisões a que me sujeito no dia a dia, muitas vezes com gosto e com prazer.

Deve ser alguma compulsão que recuso reconhecer, já que entendo o efeito gregário como uma necessidade egoísta de satisfação das minhas necessidades mais diversas.

Gosto muito de estar só, mas não aturo isso por muito tempo.

Deve ser essa tal compulsão gregária. :)



segunda-feira, Abril 07, 2014

Os balaústres






Os balaústres são elementos arquitetónicos perfeitamente dispensáveis; a sua utilização é meramente decorativa.


Na foto acima em vez dos balaústres poderia haver um simples muro, com decoração, ou tão somente  essa mesma abertura, cujo vão poderia ser suportado por outro elemento arquitetónico, sem recurso ao balaústre.



Mas o balaústre é um elemento simpático, elegante, não só na forma, como também na natureza dos materiais comummente utilizados. Daí a sua frequente utilização ao longo dos tempos. 



Em Silves, se olharmos com atenção vê-los-emos com frequência em edifícios de várias épocas e tendências estilísticas.



A política, mais no sentido da jogo partidário, do que propriamente no seu sentido etimológico, usa demasiados balaústres; quero significar, como descrevi acima, elementos meramente decorativos.



Esses balaústres políticos assumem o poder, que deveria ser exercido por políticos capacitados para gerir a vida em sociedade, como fantoches, elegantes, que se colocam em lugares que necessitam de ser preenchidos para um determinado desempenho, mas que só lá estão para fazer figura, como os balaústres da arquitetura, para suportar um vão.



Preenchido o lugar, fixam-se por tanto tempo quanto possam, iludindo com a sua aparência os que confundem a política com o futebol, apoiando de olhos fechados o seu clube predileto e o treinador responsável, zangando-se quando os resultados não satisfazem, mas apoiando sempre o seu clube favorito.



E isto tanto se passa a nível nacional como a nível local.



Continuamos a votar nos "clubes" favoritos sem ter em conta as propostas, os projetos, a capacidade das pessoas que se propõem cumpri-los, sem ter em conta os balaústres que só lá estão para preencher as vagas necessárias, os vãos.


quinta-feira, Abril 03, 2014

E não vai ser fácil, não.




Estrada rural, a montante da margem esquerda do Arade.


Onde nos conduz esta velha estrada, que simula dirigir-se ao céu?

Quis percorrê-la, devagar, como quem busca.

Encontrei quintas abandonadas, muros desfeitos pelo abandono, pela incúria e pelo tempo.

Vivemos numa sociedade que mudou. Mudou tão profundamente que já não há capacidade para manter uma propriedade como estas; e se porventura houvesse oportunidade para uma destas propriedades, já não haveria para as outras.

A sociedade mudou, mas as pessoas não mudaram com ela; desadaptaram-se.

E agora a desadaptação vai necessitar de uma mudança de paradigma, que esta nossa crise prolongada já prenuncia.

E não vai ser fácil, não.