quinta-feira, dezembro 20, 2007

A Paz é um processo de conflito

É para essa conflitualidade que vos quero chamar a atenção neste período de entorpecimento morno e balofo, tão característico desta febre consumista que só não esquece o próximo por "caridade", tão ávidos andamos na busca da "paz, da felicidade e da harmonia".
          - O que é preciso é sorrir, não é? Rir faz bem. Não me venhas para cá com tristezas!

O primeiro testemunho é de um poeta e amigo, a quem pedi para transcrever este seu poema:


  • Por muito que renasças e redigas
    tudo quanto disseste há dois mil anos,
    por muito que, por cima das intrigas,
    das falsidades e dos desenganos,
    a tua voz de novo se levante
    e fira os vendilhões e os tiranos,
    por muito que, outra vez, o galo cante,
    anunciando a luz de mais um dia,

    o presépio que o mundo te há-de dar
    esconderá sempre, implacável e fria,
    a cruz em que te vai crucificar.

Torquato da Luz

O segundo testemunho é de um músico e cantor que muito prezo e que embora neste seu trabalho se refira à realidade do seu país, reflecte bem a influência do meio social e as grandes divisões e conflitos instalados na sociedade.

Nota:
O título da canção - O Herói - de Caetano Veloso, vem adulterado pela ausência do ó (acentuado), pois em locais de expressão anglo-saxónica estes símbolos gráficos não existem.


Saibamos manter os olhos abertos para o que nos rodeia e... até 2008, muito provavelmente!

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Concurso do Local & Blogal

Decorreu mais um concurso do Local & Blogal, cuja intenção foi a de promover o património da cidade onde vivo, através da participação activa dos seus leitores, enquadrando-o nas tendências estéticas da época e projectando a sua matriz local num enquadramento mais vasto.

O concorrente vencedor identificou as duas cidades a que se reportam as imagens, Silves e Sevilha e, embora com alguma justificável indecisão, sobre essas duas imagens escreveu assim:

  • Foto nº 1 - Silves. Arcaria em volta inteira de gosto eclético, predominantemente mudéjar, suportada por colunas de ferro fundido realizadas na Fábrica das Devezas (Gaia) e pagas por Gregório Mascarenhas, industrial corticeiro e presidente da câmara por duas vezes nesta época. A influência decorativa neo-árabe está sobretudo presente na decoração estucada dos alfizes e nos alçados do zimbório que é rematado por clarabóia, assim como no friso que rodeia superiormente a galeria. É obra realizada provavelmente na última década do séc. XIX, princípios do séc. XX, no edifício destinado a ser os Paços do Concelho de Silves (Algarve, Portugal).

  • Foto nº 2 - Talvez Sevilha. Mas é plano difícil, muito fechado. É obra de tipo andaluz, sevilhano provavelmente. Novamente de gosto ecléctico, misturando elementos decorativos de influência islâmica e renascentista, fazendo utilização decorativa do azulejo tipo sevilhano, do estuque e do ladrilho hidráulico de cor verde e branca (tudo elementos decorativos de utilização na arte islâmica). A par de pormenores de tradição andaluza, como o ferro forjado. Se for edifício sevilhano, não me admirava nada que se tratasse de um pormenor do palácio neo-mudéjar, hoje Museu das Artes e Costumes Populares, no Parque Maria Luísa ou até um dos Pavilhões das redondezas, construídos propositadamente para a Feira Ibero-Americana de Sevilha em 1929, como é o caso do pavilhão português. Mas como já referi, o plano é muito apertado, podendo ser um revivalismo actual, em qualquer cidade andaluza!


Capa que antecede o Foral Manuelino de Silves

O vencedor, Manuel Francisco Castelo Ramos, Mestre em História de Arte, professor, director do Museu da Cortiça da Fábrica do Inglês, vereador não permanente da Câmara Municipal de Silves e que me concede a honra de ser meu amigo, já vencedor de um anterior concurso, aqui e aqui, nos mesmos moldes, irá receber como prémio uma edição dos Forais de Silves (Foral Afonsino de 1266, Foral dos Mouros Forros de Silves, Tavira, Loulé e Santa Maria de Faro, de 1269, e Foral Manuelino de 1504), de onde retirei a imagem acima, que serve de capa ao exemplar manuscrito e iluminuras do Foral Manuelino.

Notas:
1. Quero esclarecer que o edifício a que se refere a foto nº 2 é, precisamente, o que, do lado direito, abre a Avenida de la Constitución, em Sevilha, para quem, a partir do Ayuntamiento se dirija para a Catedral.
2. Resta-me ainda agradecer a todos os que se dispuseram a concorrer, nomeadamente a Filipe Rodrigues, que acertou nas duas cidades e também apresentou uma curiosa e adequada descrição do estilo e época dos edifícios.
3. Mais fotos que bati em Sevilha podem ser encontradas aqui.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Só. No silêncio

©António Baeta Oliveira

 

 


De onde estou, ouço o rolar dos carros que passam, os saltos altos de uma mulher na calçada, o arfar pesado de um idoso que sobe a rua e, escuta...

... o chilrear de um pássaro.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Cidades do Sul

1.

Este fim-de-semana detive-me em duas cidades do Sul da Península, como estas duas fotos documentam.

2.



De que cidades se trata?
Convido-vos a participar num concurso que consiste em acertar nessas duas cidades e acrescentar uma pequena descrição que se refira ao estilo e época dos edifícios.

Quem acertar nas duas cidades e apresentar a descrição que eu vier a julgar como a mais correcta e elegante, receberá um prémio.

Notas:
I. A descrição solicitada só serve como factor de desempate (se houver um só concorrente a nomear correctamente as duas cidades, ele será o vencedor, ainda que não apresente nenhuma referência a estilo e época).
II. O prazo de resposta encerra às 00h00 do dia 15 (sábado) e as respostas deverão ser enviadas para aqui (clique), mencionando no assunto - Concurso Local & Blogal
.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

segunda-feira, dezembro 03, 2007

A crítica do Romantismo

Na passada sexta-feira passou mais um ano sobre o dia da morte de Pessoa (30.Nov.1935).
Como sucedeu levar comigo, num passeio que dei junto à areia da praia, o Livro do Desassossego, de Bernardo Soares (heterónimo de Pessoa), e a leitura de um dos seus escritos, que abaixo transcrevo, me ter inspirado a foto abaixo, resolvi partilhar convosco esta reflexão do poeta.

Dominando o mar, Dezembro 2007, © António Baeta Oliveira


  • A personagem individual e imponente, que os românticos figuravam em si mesmos, várias vezes, em sonho, a tentei viver, e, tantas vezes, quantas as tentei viver, me encontrei a rir alto, da minha ideia de vivê-la. O homem fatal, afinal, existe nos sonhos próprios de todos os homens vulgares, e o romantismo não é senão o virar do avesso do domínio quotidiano de nós mesmos. Quase todos os homens sonham, nos secretos do seu ser, um grande imperialismo próprio, a sujeição de todos os homens, a entrega de todas as mulheres, a adoração dos povos, e, nos mais nobres, de todas as eras... Poucos como eu habituados ao sonho, são por isso lúcidos bastante para rir da possibilidade estética de se sonhar assim.

    A maior acusação ao romantismo não se fez ainda: é a de que ele representa a verdade interior da natureza humana. Os seus exageros, os seus ridículos, os seus poderes vários de comover e de seduzir, residem em que ele é a figuração exterior do que há mais dentro na alma, mas concreto, visualizado, até possível, se o ser possível dependesse de outra coisa que não o Destino.


Bernardo Soares
(Fernando Pessoa)
Livro do Desassossego
Assírio & Alvim, Lisboa 2005

quarta-feira, novembro 28, 2007

Privilégios de algarvio

Vivo em Silves, mas há uns bons anos atrás "cortei relações" com o litoral agarvio, com acentuada tendência no mês de Agosto.
Vou à praia, sim, mas em locais que conheço, como indígena privilegiado, com diminuta pressão urbanística e sem o peso das multidões que aqui acorrem, ou simplesmente afastando-me para a Costa Vicentina.
Este meu desamor pelas opções massificantes do turismo (com todos os perigos que pode gerar uma economia altamente dependente), chegam ao ponto de desconhecer quase completamente a zona de Albufeira, a cerca de 20 km da cidade onde vivo, e nunca ter visitado, até há poucos dias atrás, o empreendimento da Quinta do Lago.

Quinta do Lago sobre a zona da marisma, Novembro 2007, © António Baeta Oliveira
Um Sol convidativo, em pleno mês de Novembro, e alguma curiosidade pela forma como convive um empreendimento turístico com uma Reserva Natural, como esta da Ria da Formosa, levaram-me a um passeio.
Não sei como será em Agosto, mas a simples circunstância de não ser permitido circular a velocidade superior a 50 km/h, de não ser possível ultrapassar, já que a divisória central da estrada é dividida por pinos, de ter que se confinar o estacionamento aos lugares disponíveis, levam-me a crer que as "coisas" podem ser bem melhores relativamente a outros algarves que conheço.
Direi mesmo, sem prejuízo de outros locais que possam existir e eu não conheça, que a Quinta do Lago é exemplar.
A foto acima é reveladora de um paisagem sem pressão urbanística, integrada quase na perfeição na mata de pinheiros mansos que constituem a floresta local, onde as pessoas passeiam, a pé ou de bicicleta a pedal, com o respeito que certas barreiras impõem na proximidade das zonas de sapal, onde a vida animal é intensa, ou por areais a perder de vista.
No próximo Agosto virei aqui, de novo, para testar a situação.

segunda-feira, novembro 26, 2007

sexta-feira, novembro 23, 2007

Leia comigo

Herberto Helder. Fotografia copiada a partir do sítio, na Internet, do Centro de Investigação para Tecnologias Interactivas

 


 


 


Pelo 77º aniversário de Herberto Helder (clique), leia comigo este excerto de As Musas Cegas:


  • Mulher, casa e gato.
    Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
    da casa, uma luz violenta.
    Ainda um peixe comprido pela cabeça do gato.
    A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
    pensa-a, enquanto
    o gato imagina a elevada casa.
    Eternamente a mulher da mão passa a mão
    pelo gato abstracto,
    e a casa e o homem que eu vou ser
    são minuto a minuto mais concretos.

    A pedra cai na cabeça do gato e o peixe
    gira e pára no sorriso
    da mulher da luz. Dentro da casa,
    o movimento obscuro destas coisas que não encontram
    palavras.
    Eu próprio caio na mulher, o gato
    adormece na palavra, e a mulher toma
    a palavra do gato no regaço.
    Eu olho, e a mulher é a palavra.

    Palavra abstracta que arrefeceu no gato
    e agora aquece na carne
    concreta da mulher.
    A luz ilumina a pedra que está
    na cabeça da casa, e o peixe corre cheio
    de originalidade por dentro da palavra.
    Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.
    Se toco (e é apaixonante)
    a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.
    Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.
    Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher
    com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.
    A mulher da palavra. A Palavra.

    Deito-me e amo a mulher. E amo
    o amor na mulher. E na palavra, o amor.
    Amo, com o amor do amor,
    não só a palavra mas
    cada coisa que invade cada coisa
    que invade a palavra.
    E penso que sou total no minuto
    em que a mulher eternamente
    passa a mão da mulher no gato
    dentro da casa.

    No mundo tão concreto.


Herberto Helder
(A Colher na Boca)
Ou o Poema Contínuo
Assírio & Alvim, Lisboa 2004

terça-feira, novembro 20, 2007

Passeio pela Ilha Terceira

Por muito que se saiba que se vive sobre uma falha geológica, que de vez em quando sejamos sensíveis a um outro pequeno sismo, que nos falem de tremores de terra de há uns anos atrás ou do Terramoto de 1755, creio que nada se equivale à situação de ter testemunhos diários da presença vulcânica activa, como pude aferir aqui, na ilha Terceira.

Furnas, Terceira, Açores, Nobembro 2007, © António Baeta Oliveira
Mesmo assim, com os fumos constantes, o coberto vegetal tapado de enxofre (presumo eu), a terra quente ao toque da mão, estas evidências diárias fazem parte da rotina da vida de um açoriano e são, para eles, fenómenos muito vulgares.

Já me referi ao verde, à bruma, ao mar... mas o vulcanismo só se me patenteou quando deixei os circuitos urbanos de Angra do Heroísmo e Praia da Vitória e visitei o litoral e parte do interior da ilha.
É um mimo, um primor, apreciar o cuidado que se dedica às pequenas coisas, às casinhas pintadas e arrumadas, aos "impérios" do culto do Espírito Santo, à oferta gastronómica (do marisco ao peixe e às carnes, da manteiga ao queijo, dos vinhos aos licores e aguardentes), às estradas em bom piso, aos campos verdes a perder de vista e às vaquinhas que neles pastam, e ao mar.... sobretudo ao mar.

Deixo-vos com estes apontamentos de uma visita à Ilha Terceira e com algumas fotos de Fora de Angra (clique) num passeio em todo o seu perímetro, que culmina em Praia da Vitória e Monte Brasil, já de retorno a Angra do Heroísmo.

sexta-feira, novembro 16, 2007

A memória dos lugares

Angra, Terceira, Açores, Novembro 2007, © António Baeta Oliveira

Nem o tempo nublado, a filtrar a luz solar, consegue esconder a silhueta, o colorido, a memória restaurada de uma cidade e do seu urbanismo, que a torna única no mundo, de pleno direito Património Mundial da UNESCO.

O grupo escultórico, na fotografia, pretende significar, a meu ver, esse esforço de manter na vertical, de endireitar, de respeitar, de preservar o que a acção da natureza vulcânica do lugar teima em destruir, como no último terramoto, em 1980.

O centro histórico de Angra do Heroísmo é hoje um museu vivo, a pulsar.


  • Permitam-me usar a foice na minha seara e lembrar a rua Cândido dos Reis, memória da Silves corticeira dos finais do séc. XIX e princípios de XX, que poderia, ela também, ser única no mundo, com os antigos e longos muros das fábricas de cortiça, os prédios multicores mandados construir pelos industriais e pelos seus quadros superiores (até equipamentos culturais, como o Teatro Mascarenhas Gregório), bela, longa, enfileirada, exemplar marca de um tempo e de uma civilização que fez desta terra um dos maiores pólos industriais do país. Hoje é uma rua quase completamente destruída na sua unidade e identidade pela incúria, desrespeito e acção dos Homens, que não da Natureza.


1. Sobre a cidade de Angra do Heroísmo consulte este link para a Wikipédia

2. Sobre a forma como vi e fotografei Angra do Heroísmo siga o link para Webshots

quarta-feira, novembro 14, 2007

Na Praia da Vitória, por Vitorino Nemésio

© António Baeta Oliveira

 


 


 


 


 


Este casarão, mantido de pé em respeito pelo homenageado que figura no pequeno busto, seria uma mera ruína, sem especial interesse, não fosse a ligação que mantém a Vitorino Nemésio.

Mas arrisco-me a afirmar, pelo menos assim o senti, que este casarão ganha vida e quase se consegue imaginá-lo com as suas dez janelas rasgadas sobre a sacada de rexas, depois da leitura desta placa, que não se avista na foto acima, pois fica exactamente na extremidade do edifício, sobre a esquerda (basta contar as janelas, para se entender que a fotografia não abrange o edifício por inteiro).

© António Baeta Oliveira

 


 


 


 


 


 


 


Há edifícios que valem pelo valor de um homem, pelo menos aqui e agora, na cidade de Praia da Vitória.

E não me diga que não lhe cresceu uma vontade de ler
O Mistério do Paço do Milhafre?!

segunda-feira, novembro 12, 2007

O verde, a bruma, o mar...

Algures entre Angra do Heroísmo e Praia da Vitória, Terceira-Açores, Novembro 2007, © António Baeta Oliveira
O verde, a bruma, o mar...

Sobretudo o mar, como na estrofe de um poema, de um autor cujo nome lamentavelmente acabei por esquecer, e que figurava num dos pequenos painéis de azulejo, de uma designada Rota de Poesia, numa das ruas da cidade de Praia da Vitória, que dizia assim:


O mar é a quarta parede (...)

sexta-feira, novembro 02, 2007

Por Todos-os-Santos

Em Silves é tempo da sua feira anual, a Feira de Todos-os-Santos, onde é tema recorrente o Outono, a chegada dos primeiros frios, a chuva ou a seca.
Habitualmente sempre aqui (clique) escrevo sobre a Feira, como o fiz o ano passado e em outros anos, por finais de Outubro ou inícios de Novembro, em posts que é possível encontrar nos arquivos da coluna da esquerda, com excepção feita para o ano de 2005, em que nada escrevi, talvez porque não me tivesse apetecido.
Hoje trago-vos um episódio de uma feira de há uns bons anos atrás.

Os «seringonhos» (farturas), Feira de Todos-os-Santos, Silves, Outubro 2006,© António Baeta Oliveira


  • Por várias vezes me quedei, absorto, à montra da loja, olhando aquela linda blusa de lã.
    A minha mãe, a quem revelei tal desejo, surpreendeu-me ao oferecer-ma pela véspera da Feira.
    Também terá achado linda, aquela linda blusa de lã.
    Estava um belo dia de Sol, a deitar por terra o mito de que chove sempre nesta ocasião.
    Barba feita, banho cheiroso e a linda blusa de lã, com que queria deslumbrar os olhos negros de uma namorada dos meus 18 anos.
    Parti para a feira e para o encontro marcado junto aos carrinhos de choque.
    Cheguei, perlando suor, e avistei-a, ela também com uma linda blusa de lã.
              - Tu também, querido? Em blusa de lã num dia tão quente!
              - Despimo-nos!

Deixem-me dizer-vos que aquela do "Despimo-nos!" não deve ter sido bem assim, talvez antes "Despimo-las?" ou tão só um acordo tácito perante a evidência do desconforto; eventualmente alguma cumplicidade no olhar que então trocámos.
Dado tratar-se da narrativa de um episódio passado há algum tempo, permiti-me alguma liberdade criativa. :)


Este post irá permanecer no topo da página de entrada do blog durante toda uma semana.
Ausento-me, em passeio, por Angra do Heroísmo e pela Terceira, donde conto trazer algo para contar e fotos para vos mostrar.
Até lá!

quarta-feira, outubro 31, 2007

A música e a alegria colectiva

Anonima Nuvolari, Café Inglês, Silves, Outubro 2007, © António Baeta OliveiraTarde de domingo ensolarada, em finais de Outubro; mais exactamente no último domingo de Outubro.
Pátio exterior do Café Inglês, nas Escadinhas do Castelo, à sombra do arvoredo, tendo por cenário de fundo a vetusta Sé, outrora Catedral, e a imponente muralha almóada da alcáçova do Castelo de Silves.

O público, cosmopolita, de vários pontos da Europa e do mundo, enche as mesas, ainda repletas de pratos, travessas, copos, chávenas, garrafas, guardanapos... em refeições por terminar, no intervalo das palmas, das canções gritadas a plenos pulmões, da alegria e da festa de sabor marcadamente mediterrânico.

A animação coube aos Anonima Nuvolari (clique para aceder à sua música em myspace), provenientes da sempre bela cidade de Nápoles, ao fundo da bota italiana.

concertina e saxofonecontrabaixo

 


 


 



voz
percussãoguitarra

 


 


 



Das canções populares e das canções de amor até às canções da Resistência, numa encenação de todo informal, mas onde se distingue bem a intenção e o trabalho de coordenação, os músicos encheram o pátio com a sua vivacidade, o seu humor e a sua alegria.

Você saberão o que quero significar, quando digo que há momentos tão belos e tão intensos, tão repletos de energia colectiva, de bem-estar, que por vezes damos por nós a pensar que nesse preciso momento, em qualquer parte do mundo, não haverá certamente um lugar tão aprazível como aquele onde estamos.

Sabem do que falo ou não?

Anonima Nuvolari
P.S.
Se nos confinarmos à música, faz mais pela animação cultural o David Hancock (responsável pela programação do Café Inglês) num fim-de-semana do que a monopolizadora administração local num mês inteiro.
Se alargarmos a observação a todas as outras formas de expressão, digamos que a administração local, num mês inteiro, bate uma quinzena do Café Inglês por uma margem diminuta.

segunda-feira, outubro 29, 2007

Perto dos que nos antecederam

Arrifana, Aljezur, Outubro 2007, © António Baeta OLiveira

 


 


 


 


 


Por estas paragens, face a este oceano rebelde que parece não ter fim, viveu uma das figuras mais carismáticas da nossa história - Ibn Qasi (séc. XII), monge-guerreiro, sufí, líder de um reino que se estendia até Niebla, junto às portas de Sevilha.
Perto deste local, onde bati a fotografia, construiu o seu ribat - (convento-fortaleza) - e daqui dirigiu a revolta dos muridines.
Descendente de família autóctone e poderosa, convertido ao islamismo, foi contemporâneo de Afonso Henriques, com quem estabeleceu acordos que vieram a resultar no seu assassinato, em Silves, acusado de traição.

Morgado de Arje, Portimão, Outubro 2007, © António Baeta Oliveira

 


 


 


 


 


Também Ibn Mahfot, último rei de Niebla (séc. XIII), numa extensão que incluía o termo de Silves, escolheu o local cuja vista a fotografia pretende retratar, perto da ribeira de Boina, afluente do Arade, para aí se refugiar das solicitações da corte e gozar os prazeres da Natureza e da Vida

E eu também, no âmbito do 5º Encontro de Arqueologia do Algarve, me encantei nestes locais que pude fruir na tarde e no anoitecer do passado sábado, e que tamanha nostalgia me cravaram no peito.

quarta-feira, outubro 24, 2007

Maria Keil

Fotografia recortada, a partir de uma publicação da Biblioteca Nacional Digital, referida mais abaixo no textoMaria Keil nasceu em Silves, decorria o ano de 1914.
É uma personalidade incontornável na cultura portuguesa, nomeadamente no que se refere ao mundo da azulejaria e da ilustração.


Sobre a sua vida e obra aconselho, vivamente, a referência que se segue, na Biblioteca Nacional Digital (clique), a propósito de uma sua exposição, em 2004, na Biblioteca Nacional, e onde poderá apreciar uma parte significativa do trabalho desta grande mulher.
Para a conhecer melhor, recomendo ainda a leitura da revista Noesis, nº 54 (clique), onde se publicou uma sua entrevista, realizada por José Carlos Abrantes e Dora Santos.

Porquê falar agora de Maria Keil?
Porque, mais uma vez, a administração da cidade e do concelho deixa passar a oportunidade de reforçar os laços de identidade e de coesão social, nesta malograda cidade de Silves, ao perder esta exposição, agora em Lagos, como se pode testemunhar neste artigo publicado no Barlavento (clique), a 20 de Outubro de 2007.

Silves morre, culturalmente, em cada dia que passa, tanto pelo que não se faz, como pelo que não se deixa fazer, por uma administração que sufoca a sociedade civil, ao substituir-se no seu papel.
Parece, por vezes, que age de propósito, não fosse a evidente ausência de um plano estratégico para o concelho e a visão inadequada da forma como deve incentivar as iniciativas sociais e culturais, geradoras de coesão e convivência social, numa sociedade que perde identidade todos os dias.

Não é que a exposição de Maria Keil fique mal em Lagos; talvez até fique melhor. Do que me queixo é da falta de visão estratégica e de iniciativa. A administração da cidade deveria ter sabido desta exposição, da mesma forma que Lagos o soube.

A única referência pública a Maria Keil, uma personalidade nascida nesta cidade, está patente no pequeno largo ao fundo da Praça de Al-Mu'tamid, o antigo Largo do Poço da Câmara, de que abaixo tenho uma fotografia de pormenor, de um seu painel sobre Silves, junto ao qual nem se faz referência ao seu autor (a sua naturalidade, a sua vida, a sua obra).

Pormenor do painel de azulejos, de Maria Keil, no antigo Largo do Poço da Câmara, Silves, Outubro 2007, © António Baeta OliveiraO painel assinala vários símbolos identitários, como o rio, o laranjal e a cor do grés de Silves, em pequenos azulejos de decoração geométrica e vegetalista, a evocar o seu passado mouro e o seu período mais brilhante, que é, ainda hoje, passados oito séculos, motivo inspirador de qualquer hipótese estratégica para o desenvolvimento social e económico da cidade.

P.S.
Também Manuel Ramos, no seu Saco dos Desabafos, se refere a Maria Keil, sob o título Santos-da-Casa não fazem milagres.

segunda-feira, outubro 22, 2007

Stabat Mater

Maria João Luís, © Artistas UnidosMaria João Luís, prémio da crítica para a melhor interpretação feminina, esteve no CAPa, em Faro, com Stabat Mater, do italiano Antonio Tarantino, numa produção de Artistas Unidos e encenação de Jorge Silva Melo.
Num registo dramático de desespero e desesperança, ela traz-nos, viva, a pulsar como uma chaga purulenta, a história da vida de uma mulher na miséria e na profunda solidão, como só se atinge no âmago de uma grande cidade.
Usa uma linguagem dura e um gesto rude, agressivo, com que se fere e nos fere na sua crueza tão real.
O que nos revela é uma história cíclica, sem continuidade nem regresso, de uma mulher, mãe solteira, e dos seus preconceitos, arrumados e definitivos, catalogados, repletos de xenofobia, de racismo, de defesa contra a agressão social.
É a história da miséria humana, tentando sobreviver, nos escombros de uma sociedade que recorre aos organismos estatais de assistência e a instituições religiosas de apoio para descansar a nossa consciência.

Na página de apresentação deste seu trabalho, Jorge Silva Melo respiga um poema do poeta Gomes Leal (1848-1921), a que não resisto trazer-vos aqui:

  • Eu vejo-a vir ao longe perseguida
    como de um vento lívido varrida
    cheia de febre, rota, muito além…
    – pelos caminhos ásperos da História –
    enquanto os reis e os deuses entre a glória
    não ouvem a ninguém.

    Ela vem triste, só, silenciosa,
    Tinta de sangue, pálida, orgulhosa,
    Em farrapos na fria escuridão…
    Buscando o grande dia da batalha.
       É ela! É ela! A lívida Canalha!
       Caim é vosso irmão.

    Eles lá vêm famintos e sombrios,
    Rotos, selvagens, abanando aos frios,
    Sem leite e pão, descalços, semi-nus…
    (…)
    São os tristes, os vis, os oprimidos
    (…)
    São os párias, os servos, os ilotas
    Vivem nas covas húmidas, ignotas
    (…)
    Eles vêm de muito longe, vêm da História.
    Frios, sinistros, maus como a memória
    Dos pesadelos trágicos e maus.
    (…)
    Vêm uns ecos perdidos de batalha
    Como uns ventos do norte impetuosos
    - são os passos, nas trevas, vagarosos
    Os passos da Canalha.


Gomes Leal
A Canalha


Nota:
Curioso ter ficado a saber que os Artistas Unidos estarão em Silves, a 17 de Novembro, com a peça Music-Hall, no Teatro Mascarenhas Gregório, num momento em que nada se sabe de um teatro já inaugurado, em vésperas de eleições, para logo a seguir fechar as suas portas, já lá vão mais de dois anos, e cuja justificação já foi evocada pelos mais variados e desconcertantes motivos.
Esperemos que seja desta vez e, felizmente, pelo menos a meu gosto e meu aviso, pelos Artistas Unidos.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Parabéns, poeta!

Esta será a 83ª vez que Ramos Rosa cumpre o seu aniversário.

Para os que não sabem ou os que duvidam que ele tenha nascido neste meu Algarve, confirmem-no, na leitura deste seu poema:

  • Terraço Aberto

    Terraço aberto
    aos ventos e aos astros
    crivado
    das balas de frescura
    das ranhuras do sol

    muros
    onde vejo dedos
    muros fraternos
    de meus ossos

    aqui respiro
    através das flores
    da chaminé
    nos planos brancos
    nos montes azulados
    nas velas brancas
    nas areias douradas

    aqui respiro
    a claridade


António Ramos Rosa
Quinze Poetas Portugueses do Século XX
(Selecção e Prefácio de Gastão Cruz)
Assírio & Alvim, Lisboa 2004

segunda-feira, outubro 15, 2007

Em Cacela-a-Velha, sobre o mar

Cacela Velha, Outubro 2007, © António Baeta Oliveira

Em cada dia e para cada lugar, num determinado momento de tempo, o Sol cede à Lua o seu direito ao firmamento.
Há lugares, porém, onde o desacordo gera um hiato de poder ou um poder comum em que se não distingue o mando.
Aí, então, há uma paragem no tempo, em que se instala o vazio e o silêncio.
Os Homens são sensíveis à angústia do momento e invadidos por uma nostalgia tão profunda que, não raro, vertem lágrimas que não são de choro, nem de riso.
Eu sei de um lugar onde tal sucede a cada ocaso - em Cacela-a-Velha, sobre o mar.

P.S.
Se tiver interesse em ver mais fotos do lugar, clique em Cacela Velha

quarta-feira, outubro 10, 2007

Dissimulação

Algar Seco, Carvoeiro, Outubro 2007, © António Baeta Oliveira

  • Dissimulação

    Os que parecem pescar, debruçados
    nestas falésias sobre o mar, dissimulam
    o apelo irresistível do

    s i l ê n c i o

    e a vertigem dos grandes

    e s p a ç o s

    na busca da parcela, que lhes cabe,
    do todo do

    i n f i n i t o.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Verso Vão

O Mar, Carvoeiro, Setembro 2007, © António Baeta Oliveira
  • Verso Vão

    Onda de sol, verso de ouro,
    perífrase vã. Extasiar-me,
    antes, por esta fusão,
    mistura de brilhos. Ou, ainda
    mais íntima, a consciência
    extensa como o céu, o corpo de tudo,
    semelhança absoluta. Respirar
    na quebra da onda. Na água,
    uma braçada lenta
    até ao limite de mim.

Fiama Hasse Pais Brandão
Arómatas & Ecos
Obra Breve
(Poesia Reunida)
Assírio & Alvim, Lisboa 2006

quarta-feira, outubro 03, 2007

Por terras de Almodôvar

Continuação...

Museu da Escrita do Sudoeste, Almodôvar, Setembro 2007, Foto com a câmara do telemóvel Pois foi em busca de novos testemunhos, para além dos que já conhecia no meu concelho, que me desloquei a Almodôvar, em dia muito chuvoso, de modo que esta foto do exterior, batida com a câmara do telemóvel, não faz jus à apresentação do edifício do Museu da Escrita do Sudoeste, aberto ao público por ocasião das Jornadas Europeias de Património.

Museu da Escrita do Sudoeste, sala do rés-do-chão, Almodôvar, Setembro 2007, © António Baeta OliveiraPermito-me assim introduzir uma segunda foto, esta agora já no interior do edifício, sobre o salão do rés-do-chão e incentivar-vos a uma visita, logo que o museu abra definitivamente as suas portas e vos surja uma oportunidade.

Mas o meu passeio não se confinou à visita do Museu. Visitei ainda algumas outras localidades do concelho e assisti à actuação de corais femininos do cantar alentejano, como sucedeu em Nossa Senhora dos Padrões e onde me encantei em duas imagens de Maria, de produção popular e provavelmente local; uma ternura!

Igreja Matriz de Santa Cruz, Almodôvar, Setembro 2007, © António Baeta OliveiraOutra surpresa boa foi a de encontrar, isolado nas proximidades de uma pequena aldeia, um templo quinhentista, de três naves, com uma capela-mor que apresenta vestígios de frescos nas paredes, e outras capelas de decoração vegetalista - a Igreja Matriz de Santa Cruz.


Senhora da Lapa, Santa Cruz, Almodôvar, Setembro 2007, © António Baeta OliveiraNa vizinhança daquele templo, a poucos passos, sobre um arroio de água límpida, uma pequena ermida, dedicada à Senhora da Lapa e que, a meus olhos, me pareceu um morabito, uma referência de religiosidade própria dos povos berberes e aqui adaptada a templo cristão. Sobre a direita, ligeiramente elevado, um local pintado a cal; restos de alguma fonte extinta ou de gruta que a erosão varreu, e que um popular me descreveu como o sítio onde apareceu a Santa.


Mas a grande e definitiva surpresa ocorreu na Matriz de Santa Cruz, o já referido templo manuelino, pelo cair da tarde, bem longe do mundo urbano e dos seus ruídos, num momento de fruição quase mágico, ao ouvir os primeiros acordes de música antiga de referência mediterrânica, superiormente bem interpretada, ao som da harpa, do fagote, do alaúde, da flauta, da percussão e da voz feminina.

Matriz de Santa Cruz e Grupo musical Azizi, Almodôvar, © António Baeta Oliveira
Foi uma Jornada de Património a perdurar na memória.

P.S.
Se estiver interessado em ver mais fotografias sobre esta jornada de Almodôvar, onde se incluem as referidas imagens de Maria e os frescos da capela-mor, clique em Escrita do Sudoeste e Almodôvar

segunda-feira, outubro 01, 2007

A nossa primeira escrita

A Estela do Guerreiro, Almodôvar e Museu da Escrita do Sudoeste, Setembro 2007, © António Baeta Oliveira

A escrita do Sudoeste, de há mais de dois mil e quinhentos (2500) anos, é a primeira escrita que se conhece no território a que hoje chamamos Portugal.
Se bem que ainda por decifrar, no seu sentido mais amplo, conhecem-se no entanto os sons representados nos seus símbolos (porque língua fonética) pela semelhança que apresentam em relação à escrita dos fenícios (no actual Líbano), povo de marinheiros e comerciantes, com quem os povos que aqui viveram bem antes de nós se relacionavam e com quem estabeleceram laços de intercâmbio.

A feitoria fenício-púnica, hoje destruída, do Cerro da Rocha Branca, junto a Silves, e que terá estado na origem da nossa cidade e na origem do próprio topónimo, Cilpes, foi um desses portos de comunicação com o Mundo Mediterrânico.

Os testemunhos encontrados dispersam-se ao longo das principais vias de comunicação da época (1ª Idade do Ferro), os cursos de água, - Sado, Mira, Odelouca, Arade, Foupana, Vascão, Oeiras - em torno de um ponto central, que coincide com o lugar de maior número de testemunhos encontrados, situado no que é hoje o concelho de Almodôvar.
Daí que se justifique plenamente a criação deste Museu da Escrita do Sudoeste, que agora abriu ao público no contexto das Jornadas Europeias de Património, e de cuja colecção destaco a pedra sepulcral que se pode ver na fotografia acima e que ostenta a figura de um guerreiro, muito possivelmente representando o próprio homem cuja sepultura se pretendeu assinalar.

A continuar...

segunda-feira, setembro 24, 2007

Milreu, Monumento Nacional

No passado fim-de-semana, por ocasião das Jornadas Europeias de Património, fui "aliciado" por um convite para ouvir um grupo de câmara da Orquestra do Algarve (clique) entre as Ruínas de Milreu (clique).

Ruína da ábside do Templo de Milreu, Estoi, Setembro 2007, © António Baeta Oliveira
O tempo que se fez sentir, com bastante humidade e ameaçando chuva, se bem que não tenha impedido a visita guiada, alterou o local do concerto, transferido para a Igreja de Estoi.

O concerto perdeu, para mim, grande parte do fascínio que as ruínas lhe podiam emprestar. Esse fascínio reside na nostalgia que me assalta nestes locais relacionados com vivências de um passado remoto. Já a tal me referi num post de Fevereiro de 2005, que vos convido a visitar, e onde transcrevi um belo poema de Jorge de Sena, inspirado na peça escultórica aqui encontrada e que se identifica pelo nome de cabecinha romana de Milreu (clique)

P.S.
Ainda vos convido a visitar o local onde publiquei, além da foto que ilustra este post, várias outras que bati nesta deslocação a Milreu (clique).

quarta-feira, setembro 19, 2007

Ainda o Mediterrâneo

Promontório e Ermida da Senhora da Rocha, junto a Armação de Pêra, ©, António Baeta Oliveira

É ainda o Mediterrâneo e a sua influência que se faz sentir neste promontório feito barco, rasgando o mar, transportando no seu dorso esta ermidinha branca de cal.

As colunas da entrada da Ermida foram datadas como dos primeiros tempos do cristianismo na Península Ibérica.

P.S.
Algumas fotografias de minha autoria, que incluem o capitel de uma das colunas atrás referidas, bem como alguns pormenores do exterior da Ermida e vários olhares à sua volta, podem ser encontrados em Senhora da Rocha (clique)

terça-feira, setembro 18, 2007

Planície Mediterrânica

No passado fim-de-semana dei um salto a Castro Verde, perseguindo a XV edição do Festival Sete Sóis, Sete Luas. Fi-lo a uma sexta-feira, na impraticabilidade de o fazer no sábado ou no domingo, por motivos de ordem pessoal e familiar, e isso deve ter pesado na quebra das minhas melhores expectativas: reduzido interesse e reduzido público nas manifestações programadas para a tarde. Mas, de facto, a uma sexta-feira, quem não está de férias tem que trabalhar e não pode andar em festivais, como eu.

Quando a noite veio, as coisas animaram em volta da gastronomia, com pratos que apresentavam nomes e ingredientes de sabor mediterrânico; mas o que mais apreciei foi a animação à mesa, à boa maneira desta gente do Sul.

Vieram depois, no Cine-Teatro, as tonalidades mediterrânicas provenientes da Grécia e da Turquia pelos Café Aman, e do País Basco, Itália e Portugal, pelos Gialetta. Soube então que a gialetta é o nome italiano para o nosso gaspacho, com as naturais diferenças que se registam de região para região e se patenteiam nas diversas designações que assume.


Igreja dos Remédios, Castro Verde, Setembro 2007, © António Baeta OliveiraMas, com mais ou menos Mediterrâneo de outras paragens, a Planície Mediterrânica, que dá o nome ao Festival, esteve sempre presente, como podeis comprovar pela fotografia ao lado, da Igreja dos Remédios, em Castro Verde, bem mediterrânica, apesar dos traços culturais do Sul de Portugal, a marcar a diferença que nos caracteriza no todo identitário desse mar interior e da sua periferia.


P.S.
Pode ter acesso a mais fotos desta minha viagem, clicando em Castro Verde

quarta-feira, setembro 12, 2007

O Verão despede-se devagar

Kite-surf, Praia do Carlos, Armação de Pêra, Agosto 2007, © António Baeta Oliveira

Esta deverá ser a última foto do que chamarei o meu Verão balnear, mas não a última foto deste Verão (é claro que não sou eu o surfista; a minha relação com a foto está na sua autoria).

O Verão despede-se devagar, como quem não quer partir, mas o equinócio ditará o seu fim, inelutavelmente, na manhã de domingo, dia 23.


Por estes dias, mais exactamente a 13, outra civilização viverá uma mudança radical - a chegada do Ramadão muçulmano.

Que as mudanças dos nossos calendários sejam favoráveis à paz e harmonia entre os Homens!
Bem estimaria que esta minha referência e este meu desejo viessem de alguma forma contribuir para uma chamada à reflexão e à compreensão das diferenças. Conhecer ou tentar conhecer, é sempre um grande passo.
Saibamos dá-lo!

quinta-feira, agosto 30, 2007

Andei perdido, sim!

Algures sobre o Tâmega, © António Baeta Oliveira


Andei perdido, sim!

E trago ainda nos olhos este inebriamento verde, reflectido, no final da manhã, sobre as tranquilas águas do Tâmega.

terça-feira, agosto 14, 2007

O que se pretende com uma Feira Medieval?

Quero, em primeiro lugar, remeter-vos para o que escrevi em Agosto do ano passado a propósito da Feira Medieval de Silves.
Como sei, no entanto, que muitos não o farão e não quero arriscar uma conversa fora de contexto, porque a Feira não começou hoje, e a minha opinião sobre a Feira também não é de agora, permito-me transcrever um pouco do que escrevi o ano passado:


  • quero lembrar que «... estas simulações de recreação histórica que se não baseiam em episódios da história local e continuam a recear a utilização do período mais brilhante da época medieval, o período muçulmano, fazem desta Feira um mero divertimento, que a médio ou longo termo prejudicará a verdadeira imagem histórica desta cidade, vulgarizando-a, pela semelhança com todas as outras feiras do mesmo teor que se realizam, cada vez mais, de Norte a Sul de Portugal, sem falar da vizinha Espanha.
    Não se queira medir o "sucesso" pelo número de visitantes, que em última análise prejudica a qualidade dos serviços prestados e a própria fruição das propostas de animação que são dirigidas a quem nos visita.

    A FEIRA pode e deve ser melhorada, visando a defesa e a divulgação da identidade local e a melhoria da oferta turística, servindo a economia, a história, a cultura e o lazer. (...)»


Tenciono pronunciar-me, a seu tempo, sobre o que disse a propósito da recreação de episódios da história local, este ano introduzidos, e ao recuo do período histórico para o séc. XI, mas do que quero falar hoje é da concepção da Feira na mente dos responsáveis locais, assunto que venho abordando desde a primeira Feira e de que a fotografia abaixo é o paradigma mais eloquente.

Feira Medieval, Agosto de 2007, © António Baeta Oliveira
Estas duas torres e seu passadiço, efémeras, pelo material em que foram construídas, com ar de cenário de cinema de tipo hollywood(esco), de filme de 2º ou 3ª série, escondem duas torres em pedra da região, restauradas muito provavelmente sobre outras preexistentes e que se avistam ao fundo, por detrás do mamarracho.

É esta concepção que está em causa na produção desta Feira dita de recreação histórica: preferir o mito ao episódio histórico, o bonitinho ao vetusto, o folclorezinho de meia tigela à verdadeira FESTA e à sua alegria, a animação bacoca à recreação que diverte e educa.
Faz-me lembrar a programação televisiva em horário nobre, e que cada vez mais se alarga ao longo do dia, ao serviço dos interesses comerciais da publicidade e enredada na necessidade de ter público, para ter receitas, e que vem influenciando a mentalidade das maiorias.
Será que a Administração Local deve proceder da mesma maneira, usando os nossos impostos?

Há uma identidade local que deve ser preservada e divulgada e é essa identidade que deve justificar tudo, sob pena desta FEIRA se tornar num mero e boçal divertimento de gente mascarada.

Mas se é isso que se pretende, já cá não está quem falou, desde que não se justifique com base na verosimilhança histórica ou na recriação e recreação históricas confinadas a períodos precisos, iludindo e prejudicando a identidade de uma cidade que já existia antes de nós e onde viveram os nossos antepassados, o que nos deve merecer todo o respeito e admiração.

quinta-feira, agosto 09, 2007

Está aí a Feira Medieval!


A partir de hoje e até dia 15, Silves vive a sua Feira Medieval.
Conto trazer aqui as minhas impressões.

terça-feira, julho 31, 2007

De novo com Metheny & Mehldau

Loulé, 30 de Julho/07 - Metheny & Mehldau

Se bem que com a câmara do telemóvel, a foto documenta a entrada do quarteto, na sua primeira interpretação, nos minutos em que a organização permitiu este tipo de registo.

Em pleno Verão algarvio, Metheny e Mehldau confrontaram-se com um espectáculo de ar livre e um público que, na grande maioria, acorreu a uma oferta amplamente divulgada, mas que aparentava desconhecer os músicos e o tipo de música que se propunham apresentar; demasiada gente de pé, a circular, revelando alguma inquietação, gente que abandona o espectáculo sem sequer esperar o intervalo entre as músicas, gente que fala sem reservas, desrespeitando quem quer ouvir, gente que aplaude demasiadas vezes, particularmente após as exuberâncias estilísticas de Metheny (provavelmente o músico que atraiu o maior número de pessoas), ou os ataques de Ballard sobre a sua bateria.
Estivemos longe do concerto de Lisboa: o público satisfez-se com um curto encore e os próprios músicos limitaram-se a cumprir; Jeff Ballard não se conseguiu entusiasmar o suficiente para ensaiar o longo e excelente solo que tanto entusiasmou a Aula Magna.


sexta-feira, julho 27, 2007

O Verão convida ao lazer


Foi o ter ido em busca deste local, Odeceixe, no Algarve, se bem que na costa a Sudoeste, o motivo que me afastou por alguns dias do vosso convívio.

O Verão irá provocar destas abertas, ou porque o calor aperta e as férias convidam ao lazer, ou porque me afasto para outras paragens, mais ou menos remotas.

segunda-feira, julho 16, 2007

Uma (1) noite de Jazz


Uma noite de jazz permitiu-me usufruir, pela primeira vez, do agradável espaço situado nas traseiras da Fissul, junto ao rio, cuja conclusão nos foi prometida para finais de Maio de 2006 e que ainda hoje, apesar do recente e apressado reatar das obras, se mantém por concluir.

Gostei bastante do que nos trouxe Afonso Pais, num repertório de proximidade cultural, tanto pelas opções de compositores brasileiros, como das suas próprias composições; uma referência especial para a voz e interpretação de Joana Machado, de uma sobriedade e um desempenho, que me surpreenderam pela positiva.

Pena é que estas ofertas se apresentem isoladas, como por mero acaso, sem uma estratégia visível. O público aderiu muito bem, mas é uma iniciativa sem consequências, apesar da programada sessão didáctica, que não irá influenciar o público que aqui ontem acorreu.

Uma palavra ainda para uma situação que pode ser solucionada. Já tinha notado a ausência de uma caixa de distribuição eléctrica e, eventualmente, de distribuição de uma rede de som. É inadmissível que uma obra em vésperas de inauguração tenha que recorrer a cabos sobre o chão, vindos de outro lado, para uma electrificação que deveria existir no local e que já me tinha saltado à vista, apesar de leigo na matéria.
Mais uma "programação científica" da POLIS, locução que já ouvi usar várias vezes, por responsáveis, a propósito de reparos ou opiniões contrárias.

terça-feira, julho 10, 2007

Uma prenda de aniversário

No passado fim-de-semana parti ao encontro de Pat Metheny e Brad Mehldau (bem como de Larry Grenadier e Jeff Ballard, no contrabaixo e bateria), no que veio a ser, de encontro às minhas melhores expectativas, um inesquecível concerto, na Aula Magna, em Lisboa.

De regresso à rotina diária, vim a verificar que nesse Domingo, dia 8 de Julho, este blog cumprira quatro anos de vida.

Foi uma bela oferta de aniversário!

Saudando todos os que têm a paciência de me ler e que justificam a minha escrita, quero partilhar um pouco das minhas emoções, exactamente com o trecho que abriu este grande concerto.



P.S.
Este Worl Tour de Metheny e Mehldau, que se iniciou em Março, nos Estados Unidos, e terminará em finais de Setembro, no Japão, passará ainda por Loulé, a 30 de Julho.

quinta-feira, julho 05, 2007

Lugares do Sul

Lugares do Sul é um lugar onde se preservam as memórias deste mundo que sofre a influência da bacia mediterrânica e que constituem um acervo colectivo que nos identifica e que se nos projecta na poesia, nas portas, nos barcos, nas cores da terra e do mar, na arquitectura, no artesanato, nos usos e costumes, nos rostos de muitos homens e mulheres...
Senti-me em casa, percorrendo devagar as imagens e os textos.

Remeto-vos para uma leitura atenta deste blog, mas chamo a particular atenção para o post sobre o topónimo de Loulé, que refere expressamente uma sessão pública a que também estive presente e a que fiz referência aqui.
Acho que muita coisa de comum ireis encontrar, se conheceis de perto o Local & Blogal, logo até no poema com que Lugares do Sul abre o mês de Junho e que aqui publiquei em 28 de Fevereiro de 2005.

O meu abraço irmão a quem se responsabiliza por Lugares do Sul!

segunda-feira, julho 02, 2007

Sophia não nos deixou

Sophia deixou-nos?

Vejam como se mantém entre nós e o que nos diz sobre o meu Algarve.

  • ALGARVE

    1
    A luz mais pura
    Sobre a terra seca

    2
    Um homem sobe o monte desenhando
    A tarde transparente das aranhas

    3
    A luz mais que pura
    Quebra a sua lança


Sophia de Mello Breyner Andresen
ALGARVE todo o mar
(Colectânea)
Dom Quixote, Lisboa 2005

quinta-feira, junho 28, 2007

As Moradas Inúteis

Amanhã, 29, pelas 21h30, no CAPa (Centro de Artes Performativas do Algarve), em Faro, o meu amigo e poeta José Carlos Barros apresentará o livro - Las Moradas Inútiles, numa edição bilingue (português e castelhano), a integrar a colecção de poesia Palabra Ibérica.
Lá estarei para o abraçar e solicitar o seu autógrafo no exemplar que entretanto encomendei na Livraria Livrododia e que me permite transcrever o poema que escolhi trazer-vos.

  • Os Lugares Ausentes

    As folhas apodrecem no fundo do tanque.
    Recordas o tempo em que os canais
    traziam a água em declive
    e um estreito fio de luz acompanhava
    pelo fim da tarde o voo das aves
    a caminho dos açudes. Terás na memória
    os torrões da aluvião a desenhar o labirinto do vale,
    os muros de musgo a definir o cadastro
    e o perímetro dos campos alagados à vez,
    a vara de negrilho espetada na terra pelas mãos
    das crianças, o eco de uma voz a atravessar
    os telhados e a vibrar ainda no arame das vinhas.
    Mas agora é como se nem regressasses
    e só os ramos inclinados das tílias
    deixassem as suas folhas em forma de coração
    a apodrecer no fundo do tanque sem água.

José Carlos Barros
Las Moradas Inútiles
Ayuntamiento de Punta Umbría

quinta-feira, junho 21, 2007

Pelos Santos Populares

A aproximar-se o São João, decidi revelar-vos onde o meu heterónimo passou o Santo António.
Trata-se desse indivíduo que, de blue jeans, camisa branca e ténis brancos, cabelo escuro e curto, dá azo a uma demonstração muito expressiva dos seus dotes de dançarino, num domínio perfeito do corpo e dos músculos, numa alegria extremamente comunicativa, para quem todos olham e a quem apetece abraçar (não fora o cheiro entranhado a sardinha assada e o hálito pronunciado a vinho tinto, bem carrascão).
Pois é! Uma noite inolvidável na Second Life (SL), sobre uma praia bem agradável, propriedade de duas gémeas portuguesas e duas grandes amigas, Winter e Summer, em Tuscany Prospero ou brevemente, em Portucalis.
Visitem Twins Beach Resort, quando entrarem na Second Life.
(Aos dois links acima só terão acesso se estiverem registados na SL)

E vejam o vídeo, a que me escuso de citar os autores já que constam na sua ficha técnica.
Ana Lutetia, também portuguesa e minha estimada amiga, tem um blog - Ana Lutetia - e partilha com outra amiga, Cat Magellan, um outro blog, que vos convido a visitar - Get a (second) life!

segunda-feira, junho 18, 2007

Teatro e Dança (II)

(Continuação do post anterior)

Também sobre a Companhia de Dança de Olga Roriz já aqui me tinha referido em post de 28 de Outubro de 2005, sobre Pedro e Inês (clique).

Daqui em diante..., o trabalho que Olga Roriz agora trouxe ao Algarve e ao Auditório Municipal de Lagoa, debruçava-se, como antes já havia informado, em posts antecedentes, sobre as relações humanas, nomeadamente as relações amorosas.
A forma de expressão sobre esta temática era agora a da dança, mas não numa estética pré-contemporânea, onde os conceitos de beleza e equilíbrio se confundem com os do romantismo e os seus antecedentes do mundo greco-romano, antes numa decomposição do gesto, numa tentativa de voltar atrás, num entender das motivações que estão no seu embrião, na desconstrução de tudo o que o precede, num despir das roupagens que o mascaram.
E é tão belo e profundamente arrebatador o perseguir desse desfasamento: o entender das pulsões, do ponto, do local preciso onde o gesto arranca, precipitado, dinâmico, urgente e adquire o resultado que lhe resta depois da actuação da inércia e da gravidade.

Sempre presente, como uma batida que apela ao despertar das consciências, creio ter identificado três simbologias dominantes: a da terra, leia-se ambiente, traduzida por porções abundantes de terra, em sacos, depositada aqui e acolá, onde os corpos assentam os pés, se envolvem, se roçam, se cobrem por todo o corpo, nos cabelos, nos braços, nas pernas, no tronco e que espalham profusamente até que o chão se cubra dessa terra, num apelo gritante, a lembrar que sem ela não somos nada; a água que se derrama e que se mistura com a terra, feita lama primordial, e que prefigura a escassez desse recurso vital; o aquecimento global, nos anúncios de temperaturas que sobem para além dos 50ºC. e que se ouvem na respiração ofegante dos excelentes bailarinos em palco, no paroxismo de um estertor que lembra o do amor ou o da morte.

Obrigado, Olga Roriz!

quinta-feira, junho 14, 2007

Teatro e Dança

Já por duas vezes aqui abordei trabalhos do Teatro da Garagem: em 11 de Julho de 2005, sobre a peça A vida continua (clique) e em 10 de Abril de 2006 num post que intitulei Um Teatro próximo de si (clique).

Em Comédia em 3 Actos, a que assisti na passada sexta-feira e que mereceu outra representação no sábado seguinte, o 1º acto teve lugar na caixa negra da sala principal, no rés-do-chão do CAPa.
Miguel Mendes assumiu, com a mestria a que já me habituou, o papel de um homem, Tavares Pereira, cheio de tiques e preocupações higiénicas levadas ao extremo, num cenário de banco de jardim sobre relva, onde, em breves apontamentos de limpeza e desinfestação do banco onde pretende sentar-se, para espiar os casais de namorados, escondido por detrás de um jornal que finge ler, acaba por traçar o perfil psicológico da personagem, num recorte de comicidade. A outra personagem é Boazinha, a garota por quem Tavares Pereira se apaixona. Uma terceira personagem, a Tia Alberta, introduz o elemento gerador do cómico pelo absurdo da aproximação amorosa de Tavares Pereira a uma Boazinha que nunca sentiria a mínima atracção por tal sujeito. A Tia Alberta é assim o sonho de Tavares Pereira, numa mente perturbada de solteirão voyeur e tremendamente só. O riso também se gera com base na crueldade do nosso olhar perante a figura patética do solteirão face a uma Boazinha muito escultural e inocentemente fútil.

O 2º acto, num dos pisos superiores do edifício, com algumas cadeiras, tapetes e almofadas para os espectadores, numa sala ampla, retoma o tema das relações amorosas de um par: Madalena Furacão e o Materialista da Treta.
A peça irrompe com uma entrada precipitada de Madalena através de um enorme círculo de esferovite, como os círculos de projecção de luz nos espectáculos de cabaret. Num salto acrobático, Madalena estilhaça o círculo de esferovite, lançada no ar, e entra em cena aterrando em palco, de pé, exclamando fortemente, numa surpresa que toma conta da sala: "EU SOU DOIDA!".
Está dado o mote às relações conturbadas de Madalena e do Materialista. Uma terceira personagem, o fotógrafo, simboliza esse sonho de ser grande no mundo do show business, numa procura de figurar no meio do jet set como o topo dos objectivos de vida: o dinheiro, a fama, o prazer, num furacão desmedido, em relações sem significado, que se consomem na volúpia desmesurada do dia-a-dia. A comédia reside no absurdo e no sem-sentido das relações, num envolvimento de tragédia, que me deixou inquieto e perturbado. Foi o acto de que mais gostei e é, creio eu, o que me ficará registado na memória do espectáculo, protagonizado por dois excelentes actores, de uma sobriedade inexcedível no meio de um cataclismo sucessivo de situações dramáticas.
Comédia?!
Sim, no que ela tem de trágico.

O 3º acto, de novo no rés-do-chão, traz-nos a nostalgia de um par de saltimbancos: ele, o homem em avançada idade, e ela, a jovem aprendiz.
Foi o acto de que menos gostei, por uma razão que tem a ver com a minha visão pessoal do acto dramático e da sua representação. As duas personagens vivem substancialmente das capacidades histriónicas e do perfil físico dos seus dois intérpretes, como virtuosos do espectáculo, que é uma circunstância de que não gosto. Não aprecio o artista virtuoso e fixo-me de tal modo nesse modelo de representação, que acabo por perder a visão geral do texto e do espectáculo. Mas isto é assunto pessoal e não uma crítica.

(Continua num próximo post o que se refere à dança)

segunda-feira, junho 11, 2007

Raro fim-de-semana cultural

Apenas cerca de meio milhar de pessoas, em todo o Algarve, se disponibilizou para assistir, neste fim-de-semana que agora terminou, a dois raros momentos de elevado valor cultural.
Ambos servidos por uma estética contemporânea, algo vanguardista até, coincidiam em temas de reflexão sobre as relações pessoais no mundo de hoje, nomeadamente as relações amorosas.
Falo de Comédia em 3 Actos, com a assinatura do Teatro da Garagem, sedeado em Lisboa, que escolheu o CAPa (Centro de Artes Performativas do Algarve), em Faro, para esta sua estreia nacional, e de Daqui em diante..., da Companhia de Dança de Olga Roriz, no Auditório Municipal de Lagoa.

Isto sucede numa região cuja oferta começa a ganhar consistência, embora revele, na maior parte das vezes, certa apetência por espectáculos de alguma garantia institucional, quero significar que dirigidos ao gosto de uma maioria consumidora de cultura, reflectindo, de certo modo, as opções estéticas do poder instituído, mais arrojadas nas concepções que têm a ver com a forma do que propriamente com o conteúdo, numa estética de alguma solidez clássica e aristotélica, sem grandes intervenções críticas sobre os problemas da nossa contemporaneidade ou, pelo menos, numa perspectiva que não permite o reflexo de outros sectores de pensamento, minoritários é certo, mas que não se enquadram nas ideologias, filosofias ou estéticas mais comuns e que dominaram o pensamento do século passado.

O texto alongou-se para além da minha intenção inicial. Em próximo post debruçar-me-ei sobre a forma como vivi os dois espectáculos a que faço referência.

terça-feira, junho 05, 2007

As Noites

Recordam a minha introdução ao post de 24 de Maio?
Vejam como o diz Casimiro de Brito.

  • As Noites

    As noites essas alimentam-se
    pela excessiva luz do dia
    Como se um raio de sol tivesse
    ficado esquecido
    na metálica planície
    do sul


Casimiro de Brito
Ode & Ceia
Algarve lugar onde (1964-1969)
Publicações Dom Quixote, Lisboa 1985


quinta-feira, maio 31, 2007

Os sonhos de Akira Kurosawa

Não tenho qualquer intenção de converter este blog numa sucursal do Youtube, mas o facto é que estes dois clips, em sequência, têm a sua razão de ser: a publicação do anterior fez-me lembrar este trabalho, tão belo, de Akira.
Porque não mostrá-lo já, num momento em que estou ocupado com outras coisas e disponho de menos vagar para uma escrita mais pessoal?
Espero que gostem, como eu gostei, particularmente das cenas finais desta viagem pela obra de Van Gogh.


segunda-feira, maio 28, 2007

As Mulheres na Arte

Uma amiga chamou-me a atenção, o trabalho é público e quero divulgá-lo, porque o considero precioso.
Não percam, por favor!

quinta-feira, maio 24, 2007

Sobre o que estou a ler

Há alguns anos atrás, quando iniciei o meu blog, escrevi um dia, com intenção poética, algo sobre a alcáçova do castelo da minha terra, referindo-me a ela como se armazenasse o calor do dia e o mantivesse até à madrugada seguinte, numa metáfora à memória dos que me antecederam.
Alguém comentou: - "Mares do Sul".
Intrigado, perguntei ao autor do comentário sobre o conteúdo da sua escrita, que não tinha entendido.
Disse-me que o que eu escrevera lhe fazia lembrar "Os Mares do Sul", um livro de Manuel Vásquez Montalbán.

Procurei o livro, comprei-o, li-o e fiquei preso a este autor, criador da personagem do detective Pepe Carvallo, galego residente em Barcelona.

Li depois outros livros seus, da biblioteca pessoal de um amigo meu, que o conhecia bem. Os seus livros, usam o enredo e a intriga policial para nos falar de viagens pelas mais diversas partes do mundo, debruçando-se sobre a geografia, a observação dos costumes e tradições, a política, a gastronomia, a crítica da sociedade onde vivemos e das mudanças que o tempo, a massificação e a globalização vêm introduzindo.
Montalbán escreve com um conhecimento profundo dos Homens e dos locais deste mundo em que vivemos, que ele deve ter de facto percorrido de lés-a-lés, pois sei que faleceu em 2003, vítima de um ataque cardíaco no aeroporto de Banguecoque.

Estou a ler, deliciado, a sua última obra - Milénio - uma volta ao mundo, em dois volumes editados pela ASA, que assim inicia a publicação integral da Série Pepe Carvalho.

Aconselho vivamente!

segunda-feira, maio 21, 2007

A música, a voz, o corpo em cena, as memórias

      Damen und Herren
            Ladies and Gentlemen
                  Mes Dammes et Monsieurs:


Ute Lemper


(Clique para ampliar)

Na mais irrepreensível linha das canções de cabaret, a 29ª edição do Festival Internacional de Música do Algarve trouxe ao Teatro das Figuras, em Faro, a sua mais fabulosa intérprete.

Foi um dos mais vibrantes e impressionantes espectáculos a que assisti em toda a minha vida.

Ute Lemper encheu a cena, num espectáculo de música, canto, dança e teatro, em interpretações riquíssimas de Jacques Brel, Jacques Prévert, Edith Piaf, Léo Ferré, Kurt Weil, Marlene Dietrich, Van Morrison e The Doors, numa variedade a que ela confere um intimismo, uma expressividade, uma sensualidade, um jogo de emoções e cumplicidades como só é possível a uma artista total, que se apodera do drama e do desespero de gente só, marginal, que procura na decadência das tabernas, dos cabarets, dos prostíbulos, a parcela de prazer que a vida lhes nega, nessa imagem dos marinheiros do Port d'Amsterdam.

Não resisto a deixar-vos um registo de Ute Lemper numa interpretação muito pessoal de Milord, a canção que a voz de Piaf nos deu a conhecer.


Capa do álbum, Blood and Feathers


quinta-feira, maio 17, 2007

4º Festival Islâmico de Mértola

No que se refere à avaria do meu computador, quero informar que a máquina está recuperada, mas ainda carece de algumas adaptações e actualizações.
Entretanto, tinha várias coisas para vos contar que o tempo desactualizou, mas há uma ou outra coisa de carácter tão intemporal que conto trazer aqui.

Urgente e com uma marca muito temporal é a minha chamada de atenção para a realização, neste fim-de-semana, do 4º Festival Islâmico de Mértola.


Sobre o 3º Festival, há dois anos atrás, deixei este post (clique), cuja leitura vos proponho e onde abordo as minhas impressões sobre o que lá vivi.


Notas:
1. O meu arquivo do mês de Maio de 2005 (clique) está todo ele recheado de referências a essa civilização do Al-Ândalus. Julgo que vale a pena uma visita.
2. Estive em Mértola na semana passada, para participar numa conferência internacional integrada no projecto Mercator, relacionado com cidades portuárias do Mediterrâneo, manifestação que integra já este 4º Festival.