segunda-feira, abril 10, 2006

Um teatro próximo de si

O CAPa (Centro de Artes Performativas do Algarve), em Faro, tem sido o local que me tem proporcionado o teatro que mais me interessa cultivar, sem esquecer a dança, que hoje não vem ao caso.
Na passada sexta-feira, foi no CAPa que assisti a Ácido, pelo Teatro da Garagem.
Esta companhia, a cujos trabalhos já assisti umas cinco ou seis vezes, é uma das minhas preferidas. As razões que poderia apresentar para este meu apreço estão praticamente todas contidas em Ácido. Um óptimo texto, habitualmente reflectindo sobre o que se vai passando à nossa volta, com forte pendor poético, apresentado numa cenografia simples na forma e materiais utilizados, mas complexa e densa na simbologia associada, servido por uma encenação de rigor e elevado grau de desempenho. Carlos Pessoa é o nome que sempre surge como assinatura da dramaturgia, encenação e cenografia, que eu projecto na voz, na expressividade, na interpretação de Miguel Mendes, que é, para mim, o rosto da companhia, embora conheça e vá conhecendo todos os outros rostos que no palco se nos mostram. Não conheço, mas reconheço os outros, os que não nos surgem no palco, mas que, conjuntamente, na música, na luz, no som, nos figurinos, na produção, enfim, me vêm habituando a um trabalho, que só lastimo pelo que tem de efémero, sem que eu perca a ilusão de um dia o poder agarrar e levar comigo, para o mostrar a todos os que não tiveram ou não souberam aproveitar esta minha oportunidade.

Ácido debruça-se sobre a migração. A rede, uma larga e vasta rede, como uma rede de pesca, como uma teia, da aranha que aguarda a sua vítima, é o elemento mais presente da cenografia e vai apanhando e consumindo no seu emaranhado os que nela caem, abandonados ao sabor da sorte numa carrinha que os deixa para lá da fronteira de Espanha, de França, ou da Alemanha, ou como sardinha enlatada, em contentores, tentando atravessar o Canal da Mancha em condições de absoluto desespero e degradação, comentados por um apresentador que fala para um fémur, aparentemente preocupado com o que se passa à sua volta, realçando as situações mais horríveis, enquanto pede que lhe filmem os sapatos ou o sobretudo, último modelo. A teia existe ainda na dona de casa, presa nas preocupações com a sua aparência, e na humilhada imigrante do Leste Europeu que se sujeita a todos os afazeres domésticos que a patroa impõe, tentando sobreviver à hecatombe que destruiu a sua sociedade. Na teia está preso o polícia da imigração, que nem precisa de ouvir as respostas para as suas perguntas, pois está possesso, de desespero, pelo que não consegue entender e cuja culpa faz recair sobre quem se lhe apresenta, o imigrante que se debate, enleado, entre a necessidade do visto e da legalização e a sua dignidade de ser humano consciente.

Em Ácido estamos bem longe do teatro perfumado, de recreação ou de pretensão, que se justifica na justificação desta sociedade. Em Ácido, estamos perante o absurdo desta sociedade sem justificação.

Nunca perca, um teatro próximo de si.

P.S.
Já aqui antes havia escrito sobre outro trabalho do Teatro da Garagem. É curioso como repito algumas afirmações. Ainda me acusam de plágio. ;-) Veja em A Vida Continua.

5 comentários:

≈♥ Nadir ♥≈ disse...

Bjs e boa semana

Torquato da Luz disse...

De plágio, não! De autoplágio, talvez...
Ainda corres o risco de o JPG te fazer o mesmo que à MRP e publicar um livro com o título "Couves e Alforrecas: Segredos da Escrita de António Baeta Oliveira" :).
Um abraço, Toy.

António Baeta disse...

Foi precisamente esse dislate que me levou a referir o plágio.
Aquele abraço.

sol13 disse...

E não fosses tu um Homem do teatro.

Bjokas

António Baeta disse...

Falava de uma outra dimensão do teatro.
Com o bebé tudo bem?
Felicidades.