terça-feira, agosto 14, 2007

O que se pretende com uma Feira Medieval?

Quero, em primeiro lugar, remeter-vos para o que escrevi em Agosto do ano passado a propósito da Feira Medieval de Silves.
Como sei, no entanto, que muitos não o farão e não quero arriscar uma conversa fora de contexto, porque a Feira não começou hoje, e a minha opinião sobre a Feira também não é de agora, permito-me transcrever um pouco do que escrevi o ano passado:


  • quero lembrar que «... estas simulações de recreação histórica que se não baseiam em episódios da história local e continuam a recear a utilização do período mais brilhante da época medieval, o período muçulmano, fazem desta Feira um mero divertimento, que a médio ou longo termo prejudicará a verdadeira imagem histórica desta cidade, vulgarizando-a, pela semelhança com todas as outras feiras do mesmo teor que se realizam, cada vez mais, de Norte a Sul de Portugal, sem falar da vizinha Espanha.
    Não se queira medir o "sucesso" pelo número de visitantes, que em última análise prejudica a qualidade dos serviços prestados e a própria fruição das propostas de animação que são dirigidas a quem nos visita.

    A FEIRA pode e deve ser melhorada, visando a defesa e a divulgação da identidade local e a melhoria da oferta turística, servindo a economia, a história, a cultura e o lazer. (...)»


Tenciono pronunciar-me, a seu tempo, sobre o que disse a propósito da recreação de episódios da história local, este ano introduzidos, e ao recuo do período histórico para o séc. XI, mas do que quero falar hoje é da concepção da Feira na mente dos responsáveis locais, assunto que venho abordando desde a primeira Feira e de que a fotografia abaixo é o paradigma mais eloquente.

Feira Medieval, Agosto de 2007, © António Baeta Oliveira
Estas duas torres e seu passadiço, efémeras, pelo material em que foram construídas, com ar de cenário de cinema de tipo hollywood(esco), de filme de 2º ou 3ª série, escondem duas torres em pedra da região, restauradas muito provavelmente sobre outras preexistentes e que se avistam ao fundo, por detrás do mamarracho.

É esta concepção que está em causa na produção desta Feira dita de recreação histórica: preferir o mito ao episódio histórico, o bonitinho ao vetusto, o folclorezinho de meia tigela à verdadeira FESTA e à sua alegria, a animação bacoca à recreação que diverte e educa.
Faz-me lembrar a programação televisiva em horário nobre, e que cada vez mais se alarga ao longo do dia, ao serviço dos interesses comerciais da publicidade e enredada na necessidade de ter público, para ter receitas, e que vem influenciando a mentalidade das maiorias.
Será que a Administração Local deve proceder da mesma maneira, usando os nossos impostos?

Há uma identidade local que deve ser preservada e divulgada e é essa identidade que deve justificar tudo, sob pena desta FEIRA se tornar num mero e boçal divertimento de gente mascarada.

Mas se é isso que se pretende, já cá não está quem falou, desde que não se justifique com base na verosimilhança histórica ou na recriação e recreação históricas confinadas a períodos precisos, iludindo e prejudicando a identidade de uma cidade que já existia antes de nós e onde viveram os nossos antepassados, o que nos deve merecer todo o respeito e admiração.

6 comentários:

Marco disse...

Também lá estive e fiquei precisamente com a mesma sensação, mas de início pensei que pudesse ser preconceito, visto que não sou apreciador desta vaga de feiras medievais que "grassam" o país. Também reparei nas "torres de papel" como lhes chamei num diálogo que tive e achei despropositado. Não deixa de ser positivo até certo ponto a quantidade de gente que o evento consegue trazer, mas não seria preferível conseguir trazer tanto ou mais público ao longo do ano, através do que realmente temos e não através do "folclorezinho de meia tigela"? É absolutamente necessária uma promoção do nosso património e da sua importância histórica no contexto do sul de Portugal e mesmo da Península Ibérica. É que temos praticamente tudo para fazer isso, e quando digo isto refiro-me a outros períodos que não apenas o medieval.

Sandra disse...

Depois de lá ter estado, e apesar de até me ter "divertido" imenso, não posso deixar de fazer um comentário completamente de acordo com esta observação.
É pena de facto que as coisas não sejam feitas e pensadas com outros olhos e num contexto histórico mais real. Penso que só teriamos a ganhar com isso.

hfm disse...

"Há uma identidade local que deve ser preservada e divulgada e é essa identidade que deve justificar tudo, sob pena desta FEIRA se tornar num mero e boçal divertimento de gente mascarada."

Apesar de não conhecer a Feira em questão concordo com o que ficou escrito em cima pois, em Junho, num passeio do Centro Nacional de Cultura fomos até o Castelo de Tomar a 1 dia com os Templários. Descrevê-lo seria fatigante até porque a partir da hora de um péssimo almoço que a ASAE deveria verificar, todos partimos para o Castelo, por nossa conta, deixando os pseudo Templários a fazerem sozinhos a momices.

Refilei com o CNC e deu resultado - o próximo passeio será gratuito! Não podemos aceitar certas "mascaradas".

gabriela r martins disse...

o mesmo sentimento .o mesmo raciocínio .o mesmo desencanto .a não admiração ao facto ,infelizmente

.
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um beijo solidário

António Baeta disse...

Obrigado pela solidariedade, minha amiga.
Um beijo.

Templar disse...

Caro professor
Mais uma vez gostei do que escreveu sobre o assunto.
Deixo-lhe aqui um convite para um passeio num fórum de arqueologia,
que julgo que lhe possa vir a interessar:http://arqueologia.informe.com/index.php

Com os melhores cumprimentos de um antigo aluno seu, que seguiu os passos da arqueologia.
Cristóvão Mendes