sexta-feira, novembro 23, 2007

Leia comigo

Herberto Helder. Fotografia copiada a partir do sítio, na Internet, do Centro de Investigação para Tecnologias Interactivas

 


 


 


Pelo 77º aniversário de Herberto Helder (clique), leia comigo este excerto de As Musas Cegas:


  • Mulher, casa e gato.
    Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
    da casa, uma luz violenta.
    Ainda um peixe comprido pela cabeça do gato.
    A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
    pensa-a, enquanto
    o gato imagina a elevada casa.
    Eternamente a mulher da mão passa a mão
    pelo gato abstracto,
    e a casa e o homem que eu vou ser
    são minuto a minuto mais concretos.

    A pedra cai na cabeça do gato e o peixe
    gira e pára no sorriso
    da mulher da luz. Dentro da casa,
    o movimento obscuro destas coisas que não encontram
    palavras.
    Eu próprio caio na mulher, o gato
    adormece na palavra, e a mulher toma
    a palavra do gato no regaço.
    Eu olho, e a mulher é a palavra.

    Palavra abstracta que arrefeceu no gato
    e agora aquece na carne
    concreta da mulher.
    A luz ilumina a pedra que está
    na cabeça da casa, e o peixe corre cheio
    de originalidade por dentro da palavra.
    Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.
    Se toco (e é apaixonante)
    a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.
    Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.
    Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher
    com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.
    A mulher da palavra. A Palavra.

    Deito-me e amo a mulher. E amo
    o amor na mulher. E na palavra, o amor.
    Amo, com o amor do amor,
    não só a palavra mas
    cada coisa que invade cada coisa
    que invade a palavra.
    E penso que sou total no minuto
    em que a mulher eternamente
    passa a mão da mulher no gato
    dentro da casa.

    No mundo tão concreto.


Herberto Helder
(A Colher na Boca)
Ou o Poema Contínuo
Assírio & Alvim, Lisboa 2004

7 comentários:

hfm disse...

Leio. Leio sempre. Deram-me a conhecer tinha eu 16 anos. Continuo leitora.

hfm disse...

Leio. Leio sempre. Deram-me a conhecer tinha eu 16 anos. Continuo leitora.

António Baeta disse...

Helena
A repetição foi resposta à minha, no teu blog, ou mero acaso? :)
Também o leio sempre, mas só o conheci lá para os meus 18/20.
Um beijo amigo.

gato xara disse...

Belíssimo... Obrigado por esta partilha, não conhecia o poema. Abraço xaraz!

gato xara disse...

Belíssimo... Obrigado por esta partilha, não conhecia o poema. Abraço xaraz!

António Baeta disse...

Nuno
Estranho não conheceres, porque este poema é um dos que o Sandro costuma recitar.
Conheces o Sandro de certo e já o ouviste, quanto mais não fosse com a "Ode".
Aquele abraço, amigo.

gato xara disse...

Ouvi o Sandro, com a ODE, há uns três anos, de facto não me lembrava... É bom saber que a boa poesia é divulgada!
Abraço!