quarta-feira, outubro 03, 2007

Por terras de Almodôvar

Continuação...

Museu da Escrita do Sudoeste, Almodôvar, Setembro 2007, Foto com a câmara do telemóvel Pois foi em busca de novos testemunhos, para além dos que já conhecia no meu concelho, que me desloquei a Almodôvar, em dia muito chuvoso, de modo que esta foto do exterior, batida com a câmara do telemóvel, não faz jus à apresentação do edifício do Museu da Escrita do Sudoeste, aberto ao público por ocasião das Jornadas Europeias de Património.

Museu da Escrita do Sudoeste, sala do rés-do-chão, Almodôvar, Setembro 2007, © António Baeta OliveiraPermito-me assim introduzir uma segunda foto, esta agora já no interior do edifício, sobre o salão do rés-do-chão e incentivar-vos a uma visita, logo que o museu abra definitivamente as suas portas e vos surja uma oportunidade.

Mas o meu passeio não se confinou à visita do Museu. Visitei ainda algumas outras localidades do concelho e assisti à actuação de corais femininos do cantar alentejano, como sucedeu em Nossa Senhora dos Padrões e onde me encantei em duas imagens de Maria, de produção popular e provavelmente local; uma ternura!

Igreja Matriz de Santa Cruz, Almodôvar, Setembro 2007, © António Baeta OliveiraOutra surpresa boa foi a de encontrar, isolado nas proximidades de uma pequena aldeia, um templo quinhentista, de três naves, com uma capela-mor que apresenta vestígios de frescos nas paredes, e outras capelas de decoração vegetalista - a Igreja Matriz de Santa Cruz.


Senhora da Lapa, Santa Cruz, Almodôvar, Setembro 2007, © António Baeta OliveiraNa vizinhança daquele templo, a poucos passos, sobre um arroio de água límpida, uma pequena ermida, dedicada à Senhora da Lapa e que, a meus olhos, me pareceu um morabito, uma referência de religiosidade própria dos povos berberes e aqui adaptada a templo cristão. Sobre a direita, ligeiramente elevado, um local pintado a cal; restos de alguma fonte extinta ou de gruta que a erosão varreu, e que um popular me descreveu como o sítio onde apareceu a Santa.


Mas a grande e definitiva surpresa ocorreu na Matriz de Santa Cruz, o já referido templo manuelino, pelo cair da tarde, bem longe do mundo urbano e dos seus ruídos, num momento de fruição quase mágico, ao ouvir os primeiros acordes de música antiga de referência mediterrânica, superiormente bem interpretada, ao som da harpa, do fagote, do alaúde, da flauta, da percussão e da voz feminina.

Matriz de Santa Cruz e Grupo musical Azizi, Almodôvar, © António Baeta Oliveira
Foi uma Jornada de Património a perdurar na memória.

P.S.
Se estiver interessado em ver mais fotografias sobre esta jornada de Almodôvar, onde se incluem as referidas imagens de Maria e os frescos da capela-mor, clique em Escrita do Sudoeste e Almodôvar

14 comentários:

Manuel Ramos disse...

Das pedras do Museu da Escrita do Sudoeste fica o mistério da escrita que ainda guarda, pelo menos para mim, um segredo ainda bem guardado. Já a Igreja de Santa Cruz, mesmo sendo a ter ainda visitado, é-me familiar. Aí está o que é o nosso manuelino mais genuíno, património do Alentejo e Algarve, um poço de ambiguidade estética, num momento de mudança de paradigmas (gótico/renascença), nos inícios de Quinhentos. O portal, é versão simplificada do de Alvor, até do de Odeáxere. O interior de três naves, a matriz de Monchique; a capela-mor igual a tantas outras da mesma época. O que a distingue é ter conservado os frescos renascentistas/maneiristas dos finais do séc. XVI, príncipios de XVII; surpreende também a estreiteza das naves laterais (quase inúteis) que a aproximam das experiências de igrejas-salão realizadas na mesma época (hallenkirchen) e terminam na adopção da nave única, como no caso da Misericórdia de Silves. Pena não se conseguir ver o arco-triunfal, ou as pias (água benta ou baptismal), pois normalmente registam alguma liberdade criativa pela sua decoração.
Uma pequena jóia perdida no Alentejo profundo.

António Baeta disse...

Obrigado pelo comentário especializado, Manuel.
Outra coisa curiosa é o que acontece na capela à esquerda da capela-mor, que apresenta duas saídas laterais: uma para o púlpito, à esquerda e outra para a sacristia, à direita.
Imagina como fiquei quando os músicos acabaram o seu ofício e se retiraram para dentro da capela, desaparecendo. :)
Quanto ao arco e ao baptistério, o problema foi a falta de luz, a que se juntou a humidade e alguma água da chuva, provavelmente, e que não permitia o disparo do obturador.
Um abraço.

hfm disse...

Já guardei as notas, como um roteiro. Gosto destas descobertas.

António Baeta disse...

Helena
Não será fácil a visita sem prévio contacto com a autarquia local ou mesmo com o pároco, no que se refere a Santa Cruz. De resto tudo poderás visitar, embora o Museu não tenha ainda aberto as suas portas (aguarda inauguração).
Outra coisa a que voltarei por aqui será na rota da gastronomia, embora desta vez me tenha limitado a um entaladinho de presunto, em generosas fatias de pão caseiro.
Um abraço

hfm disse...

Não será tão cedo a ida e espero que o Museu já tenha aberto; é que dia 16 parto para Barcelona. Um abraço

susecris disse...

A Igreja de Santa Cruz parece ser um tesouro a explorar! Quanto à Ermida de Senhora da Lapa, também "vi" um morábito assim que vi a foto, mas os meus olhos são muito suspeitos nestas coisas...
Desejo a continuação de Boas Viagens! (que também o são para nós!)

Marco disse...

O mau tempo é que me afastou de uma ida a Almodôvar, mas assim que abra definitivamente espero visitar o museu. Quanto aos monumentos visitados parecem-me bastante interessantes e constarão também na programação do próximo passeio a Almodôvar. Tal como o Manuel refere é curiosa a síntese do nosso Tardo-Gótico/Manuelino na Matriz de Santa Cruz!

Abraço
Marco

António Baeta disse...

Susecris e Marco
Um prazer vê-los por aqui, pelo que nos une em função da divulgação e da defesa do nosso Património.
Um abraço.

♥≈Nღdir≈♥ disse...

Adorei passear por Almodovar.
beijinhos e bom fim de semana

hfm disse...

Em resposta ao comentário sobre a citação de Agostinho da Silva e, conhecendo um pouco a sua obra, penso que ele não pensa que somos comandados pelo Destino mas que não vale a pena pensarmos que tudo está nas nossas mãos pois a vida é composta por outros, por países, por épocas, por...
Bfs

António Baeta disse...

Helena
Aqui, a tua resposta perde contexto, mas compreendo o que significas. Já houve quem lhe chamasse "O Homem e a sua circunstância".
Um beijo amigo

hfm disse...

Ortega e Gasset. Um beijo bfs

António Baeta disse...

Precisamente, Helena.

António Baeta disse...

Obrigado, Nadir.
Um beijo amigo.