segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Nevão de 2 de Fevereiro de 1954





(Desconheço o autor da fotografia)

Acabara de completar os meus 10 anos de idade quando, por um final de tarde do dia 2 de Fevereiro de 1954, em Alcantarilha, a uma das janelas do que ao tempo era a Junta de Freguesia (creio que ainda é no mesmo local), recordo com nitidez ter achado alguma estranheza às manchas brancas que se sucediam no topo do chapéu de chuva de uma senhora que passava na rua.

Assim como numa epifania, num deslumbramento, gritei para dentro:

          - Está a cair neve!

Todos vieram à janela, desde o meu pai e outros adultos, até aos meus irmão e outros amigos com quem brincávamos.

Saltámos para a rua sob a  ameaça do meu pai, esclarecendo vivamente que era para ir para casa e não para ficar na rua.

Não recordo o que entretanto se passou, mas tenho a ideia muito precisa de me ver a mim próprio, nariz colado à janela da cozinha, a ver a neve cair e a cobrir de branco tudo o que vista alcançava.

Deveria fazer frio, mas não tenho essa ideia.

Na manhã seguinte devemos ter acordado cedo e, seguramente bem agasalhados. Recordo os bonecos de neve, feitos pelos mais velhos, mesmo em frente à igreja matriz.

Não sei bem se nesse mesmo dia ou no dia seguinte, viajámos até Silves a visitar as minhas tias. A minha mãe deveria estar preocupada.

- Oh! As ruas ainda repletas de neve.

E aqui sob o arco do Torreão da Almedina, era ver a malta de Silves a escorregar na neve pela rua da Sé abaixo.

Voltamos, eu e o meu irmão Zé, a casa das tias (as tias viviam onde hoje fica o Art'aska) para ir buscar umas tábuas do tipo das que os miúdos estavam a usar para escorregar ladeira abaixo.

Trouxemos umas tábuas finas, como as que antigamente serviam para embalar os fardos de bacalhau e em breve ali estávamos a escorregar com a outra malta que ali se aglomerava.

Episódio inesquecível, este que agora vos conto.

Quem me dera ver a neve de novo hoje, 2 de Fevereiro, e garanto-vos que iria escorregar se arranjasse uma tábuas.

Também seria bem capaz de chorar de saudade.


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