terça-feira, maio 16, 2006

Sevilha e a arquitectura religiosa

Esta visita a Sevilha incluiu obrigatoriamente a majestosa Catedral, que aqui vos trago na imponência do transepto...

... e que sempre me deslumbra pela magnificência arquitectónica, pelo requinte dos trabalhos em prata e em madeira, a lembrar a Sevilha dos Descobrimentos e da colonização da América dita latina, e onde a luz do sol, coada pelas artísticas rosáceas, parece dourar os tectos.
Mas esta visita gozou, pela sua peculiaridade de encontro temático e internacional sobre arquitectura religiosa, de privilégios especiais de descida às escavações em curso na própria Catedral, no Alcázar e na Igreja Colegial de San Salvador. Nesta última, os níveis de ocupação sobrepõem-se desde os romanos até à nossa época...
      San Salvador, nível islâmico, Sevilha 2006, © António Baeta Oliveira       San Salvador, nível do séc. XVI, Sevilha 2006, © António Baeta Oliveira
... revelando, nomeadamente, uma mesquita do séc. IX e uma catedral do séc. XVI, de que a foto mostra o lajeado, a anteceder a actual igreja.
O privilégio incluiu também a visita ao Alcázar, guiada pelo próprio director e, em dia de fecho semanal, exclusivamente para o nosso grupo. Visitámos escavações recentes, a revelar reformas no palácio, no final do séc. XI, de que se destaca uma porta, que a breve trecho se abrirá para o exterior, e se soube duma vasta intervenção que irá disponibilizar aos visitantes uma basílica dos primeiros tempos do cristianismo, que jaz sob um largo adjacente ao edifício.
E, sem a confusão habitual que geram 7 mil visitas diárias, foi possível ficar, longamente, observando deslumbrado a exuberância da arte mudéjar.
        Porta mudéjar do Alcázar, Sevilha 2006, © António Baeta Oliveira             O mudéjar no Alcázar, Sevilha 2006, © António Baeta Oliveira

sexta-feira, maio 12, 2006

Na rota do Al-Ândalus


Regressei de onde sempre estive.
Para além do teor formal das comunicações dos especialistas e das visitas especializadas, o encontro dos afectos e das sensibilidades: de portugueses, espanhóis e marroquinos; de muçulmanos, cristãos, judeus ou sem religião; dos que se expressavam em português, em castelhano, em francês, em árabe, em hebraico, em dialectos berberes ou judeo-marroquinos.
No meio de tanta diferenciação, o seio de uma civilização comum, a vontade e a urgência de um diálogo sobre o que nos identifica e que se manifestou na amizade que soubemos construir.

P.S.
O meu obrigado a EmocionalTur pela transcrição e referência.

quinta-feira, maio 04, 2006

Uma ilha de silêncio

Depois do percurso pela City, desci até à Catedral de São Paulo e percorri lentamente a Fleet Street, até Temple, precisamente no início da Strand.
Conhecia já esta zona, de Temple e da Strand, mas nunca antes tinha associado o nome - TEMPLE - a um templo dos Templ(ários), o que aguçou a minha curiosidade e veio a resultar no mais agradável e enriquecedor momento da minha estadia nesta grande urbe europeia.
No meio da agitação de uma das mais movimentadas zonas da cidade, vim a encontrar, para além de uma pequena porta entreaberta, o acesso a uma autêntica ilha de silêncio e recolhimento.
Entrada para Temple Church, Londres, Abril 2006, © António Baeta Oliveira
É ali mesmo, através desta porta branca, entreaberta, que se acede a um estreito caminho que conduz ao Templo, como indica essa informação, em fundo negro, na ombreira da porta anterior.

Creio que nunca teria descoberto o local, apesar do mapa que levava comigo, caso não tivesse inquirido um cavalheiro, perdão, gentleman que por mim passou.
Protegido por uma série de edifícios que o cercam, relacionados com o Supremo Tribunal de Justiça, num pequeno largo onde alguns funcionários gozavam uma pausa para almoço e lazer, ali estava o TEMPLE, do séc. XII, cujo traçado da parte circular lembra a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, modelo habitual das igrejas templárias.
                                                     Temple Church, Londres, Abril 2006, © António Baeta Oliveira
No centro do pequeno pátio uma coluna sustenta um cavaleiro templário, que transporta um outro no seu cavalo.
                              Cúpula em Temple Church, Londres, Abril 2006, © António Baeta Oliveira
No interior, sob uma cúpula, em cuja base se recordam, a toda a volta, os nomes de vários cavaleiros, jazem no chão alguns outros, em sepulturas datadas do séc. XIII e cujas pedras tumulares reproduzem a efígie do sepultado.
Base da cúpula do Templo, Londres, Abril 2006, © António Baeta Oliveira             Sepulturas em Temple Church, Londres, Abril 2006, © António Baeta Oliveira
Esta pequena e deliciosa jóia arquitectónica foi o meu grande achado desta visita a Londres.
Fiquei por largo tempo, ainda, no exterior do templo...
                              Entrada para o Templo, Londres, Abril 2006, © António Baeta Oliveira
... ouvindo música, escrevendo e lendo, repousando um pouco após várias horas de passeio a pé. Foram momentos de muita tranquilidade e fruição estética os que vivi nesta ilha de silêncio, no meio do bulício da grande cidade.
Quem me diria em Londres!

P.S.
É só para lembrar que me vou ausentar de novo por algum tempo. Até breve!

quarta-feira, maio 03, 2006

Uma manhã na City

Num intervalo em Silves, entre Londres e Sevilha, trago-vos esta nota sobre o meu primeiro dia na City, zona da antiga cidade romana de Londinium e, hoje, centro da vida financeira.
No coração da City, Londres, Abril 2006, © António Baeta Oliveira
Aqui, onde os clássicos edifícios de ar imperial se confrontam com a nova arquitectura do alumínio e do vidro e onde os prédios vitorianos se reflectem nas paredes feitas janelas dos escritórios, que enchem construções com dezenas de andares.
                              Edifício na Lombard Street, Londres, Abril 2006, © António Baeta Oliveira

                  Aqui, onde o "tempo é dinheiro".
                                                                        Relógio na City, Londres, Abril 2006, © António Baeta Oliveira

segunda-feira, abril 24, 2006

Memórias que guardo, na ausência

Largo do Município, Silves, Abril 2006, © António Baeta Oliveira

Está aí, efervescente, o anúncio da proximidade do mês de Maio, o mês das flores, que torna ainda mais bela a minha cidade.

É esta imagem de Silves que quero guardar, agora que me ausento por algum tempo, por Londres, e logo a seguir, por Sevilha.

Silves em Abril, 2006, © António Baeta Oliveira Silves em Abril, 2006, © António Baeta Oliveira Silves em Abril, 2006, © António Baeta Oliveira

Faço votos para que o "aroma" a que se refere o post anterior não prejudique a fruição de tão aprazíveis lugares.
Lembro-me de que o ano passado, por esta altura, me lamentava por não possuir tecnologia que me permitisse reter, para o divulgar, o cheiro das flores, nomeadamente o da flor das laranjeiras, que por esta época empresta à minha terra um particular enlevo. Sabem que me arrependi de o ter feito? Nessa mesma noite, uma vaga que não se vê, não se tacteia, não se ouve, só se sente no olfacto, como uma praga, invadiu a zona da beira rio e espalhou-se lentamente pela cidade, invadindo as casas e os lugares de Silves.
É urgente afastá-la de vez. Denunciá-la em voz alta.

Se aqui voltardes, na minha ausência, convido-vos a visitar os meus arquivos de Maio de 2005 ou até os de Maio de 2004. Percorram-nos, lentamente, do fundo para cima, para respeitar a ordem cronológica. E deixem-me sinais. Talvez vos possa ler num dos cybercafés das cidades por onde andarei.
Até breve!

25 de Abril
Passados trinta e dois anos sobre o 25 de Abril, é em sintonia com o sentir do meu amigo e poeta Torquato da Luz que eu sinto o meu País. (é só clicar)

quinta-feira, abril 20, 2006

O Ambiente, em Silves

A Câmara Municipal de Silves está a promover um concurso de fotografia temática, que dividiu em quatro etapas, cada uma com o seu tema, e que se prolongará até ao próximo mês de Junho.
Na 1ª etapa, dedicada ao Ambiente, muni-me do meu equipamento fotográfico e parti em busca do ambiente que se vive no concelho. Nem todas as fotografias que bati foram pensadas para efeitos de concurso, como a que se segue.
Silves Poente, Abril 2006, © António Baeta Oliveira
É porque é agradável avistar assim, ao longe, a cidade, junto a este curso de água, no momento da fotografia alimentado pela enchente da maré, mas que na vazante irá desaguar no rio a poucos metros deste local.
Para aqui chegar, tive que percorrer um caminho que se destaca da EN 124, junto ao Falacho, núcleo habitacional cuja população sofre, há longo tempo, pelo menos há mais de 17 anos, quase que ininterruptamente, de uma degradação acentuada do nível da sua qualidade de vida, dificilmente equiparado a qualquer outro local do concelho de Silves. Ali se ergue uma estação de tratamento de esgotos que nunca, ou quase nunca, funcionou devidamente, apesar de diversas intervenções técnicas. A situação tornou-se tão vulgar que a população, diminuta, parece já ter-se habituado, depois de tanto protesto, com promessas de solução que nunca foram satisfeitas, até à elaboração de volumosos dossiers, dirigidos às mais diversas entidades, na grande maioria dos casos sem sequer merecer uma simples confirmação da recepção.
Brada aos céus!
O cheiro que emana da estação de tratamento é de tal ordem que um amigo que me acompanhava foi acometido de náuseas, ao ponto de quase vomitar se não se tivesse afastado.
Este cheiro atinge a cidade, em horas de maré-cheia, conduzido pelo rio e invadindo-a através das sarjetas, tornando-se particularmente nauseabundo quando, no Verão, o calor aperta.
Em Portimão, um teatro de revista, pelo Carnaval, intitulava-se, a propósito, «Pfuu, dieb! Cagarem-se?» ou algo semelhante. Nessa cidade não sei que desculpa fornece o senhor presidente da Câmara, mas aqui, em Silves, já tenho lido em jornais, a senhora presidente da Câmara desculpar-se com a fábrica da laranja, que sempre gera empregos na cidade.
Temos mesmo muito brandos costumes. Nem partidos, nem iniciativa privada, nem fiscalização oficial, talvez alguns protestos desgarrados, algumas mãos segurando o nariz em hora de maior pressão e pouco mais.
Pois o tal curso de água, bucólico, gracioso, correndo devagar para o rio, na vazante, tem esta história fotográfica sequencial.

© António Baeta Oliveira

Chega límpido, transparente, até junto à saída de um cano, com um caudal assustador, que provém da estação de tratamento, e então, repleto de espuma, água suja, poluída e poluente, a cheirar terrivelmente mal, corre até atingir o rio, para Silves ou para Portimão, conforme a maré, a que se vão juntando os detritos das suiniculturas e tudo o mais que por aí existir.
A agressão a que está sujeita a população do Falacho, porque é de pessoas que se trata, deita por terra qualquer outra iniciativa ambiental que, eventualmente, pudesse merecer algum elogio.
Até quando!?

P.S.
Também ontem, um outro blog de Silves, o Saco dos Desabafos, se referia a questões ambientais, se bem que sobre matéria mais sólida; o lixo urbano nos contentores, a deitar fora, aguardando a melhor hora para ser avaliado - a passagem da procissão da Páscoa.

terça-feira, abril 18, 2006

De novo, sobre o Massacre de Lisboa


© Hebrew Union College, cedido por Nuno Guerreiro, de Rua da Judiaria
  • A 19 de Abril, passarão 500 anos (1506-2006) sobre a data em que Lisboa viveu um terrível e bárbaro acontecimento, que se prolongou por mais dois dias, e onde foram queimadas vivas milhares de pessoas (homens, mulheres e crianças), lançadas à fogueira por uma multidão em fúria. Fúria alimentada pelo preconceito, pela ignorância, pela intolerância religiosa, instigada por oportunismos políticos, religiosos e económicos que culminaram na expulsão dos judeus e mouros e, mais tarde, na Inquisição.

Assim escrevia eu, em 17 de Março de 2006, a propósito do Massacre de Lisboa.
É hora de voltar a lembrar e chamar a atenção para o apelo de Nuno Guerreiro, em Rua da Judiaria, e para os textos que vem publicando: de Salomão Ibn Verger, Garcia de Resende, Samuel Usque, Damião de Góis, Alexandre Herculano e Camilo Castelo Branco.
O anti-semitismo, ainda hoje, em pleno século XXI, suscita ódios e incompreensões, como os que recaíram sobre Nuno Guerreiro na sequência deste seu apelo. É importante lembrar e debater estas situações, pois estes ódios e incompreensões são normalmente gerados pelo preconceito e pela ignorância, muitas vezes no seio de populações que nunca conheceram ou tiveram contacto com qualquer judeu.