sexta-feira, março 17, 2006

O Massacre de Lisboa

© Hebrew Union College
© Hebrew Union College, cedido por Nuno Guerreiro, de Rua da Judiaria


A 19 de Abril, passarão 500 anos (1506-2006) sobre a data em que Lisboa viveu um terrível e bárbaro acontecimento, que se prolongou por mais dois dias, e onde foram queimadas vivas milhares de pessoas (homens, mulheres e crianças), lançadas à fogueira por uma multidão em fúria. Fúria alimentada pelo preconceito, pela ignorância, pela intolerância religiosa, instigada por oportunismos políticos, religiosos e económicos que culminaram na expulsão dos judeus e mouros e, mais tarde, na Inquisição.

Relembro as visões terríveis de gente a arder, os gritos de dor, o choro dos familiares e dos amigos, a náusea do cheiro a carne queimada durante dias, o andar fugido, por telhados, por lugares remotos, como o herói da narrativa de O Último Cabalista de Lisboa, um romance histórico, de Richard Zimler, americano residente em Portugal, e cuja leitura aconselho vivamente, pois trata este massacre, certamente com base na descrição histórica do Guarda-Mor da Torre do Tombo, o grande humanista português Damião de Goes.

É importante reflectir sobre a xenofobia e o racismo, sobre os medos que se geram por tudo o que sai da norma, sobre todo aquele que é diferente do vizinho, do amigo, e a quem olhamos de soslaio, prontos a acusar de todos os males que sobre ele projectamos.
As causas que geram estes fenómenos estão aí, prontas a incendiar-se quando as condições o propiciarem e elas alimentam-se da ignorância. Não se pode gostar do que se não conhece. É importante conhecer para ultrapassar a barreira da língua, a barreira do costume ou do trajar, a barreira da crença, a barreira da cor da pele, a barreira do sexo ou da opção sexual, a barreira d...
É imprescindível conhecer para integrar.

Aconselho a leitura do post de Nuno Guerreiro, no seu blog - Rua da Judiaria (clique no sublinhado), que me lembrou esta data que não pode passar em branco.

9 comentários:

hfm disse...

Oportuno, como sempre, António. Obrigada pela lembrança.

António Baeta disse...

Helena
O mérito da oportunidade devo-o ao Nuno Guerreiro.
A ti devo esta atenção com que me desvaneço.
Um abraço amigo.

fernanda s.m. disse...

«... esta data que não pode passar em branco.»

Nem se deve deixar passar... A intolerância humana parece ser o verdadeiro pecado original ... mas não passa com o(s) baptismo(s) ! É pena; nem se cura com os exemplos da história !

António Baeta disse...

Todos temos as nossa intolerâncias, mas por vezes chamamos-lhes rigor, hábito, tradição, valor, ...

Isto não é fácil, Fernanda.
Um abraço.

fernanda s.m. disse...

Não é, não: é complexo como o próprio ser humano.
Um abraço.

≈♥ Nadir ♥≈ disse...

Vim ler-te
Bjx e boa semana

Marco disse...

Creio que é em 19 de Abril...

António Baeta disse...

Tens razaão, Marco. Vou emendar.
Obrigado.

Arrebenta disse...

A Paixão de Israel


Como Cidadão do Mundo, e, particularmente, como exilado interno lusitano, venho, através deste texto, associar este blogue a um dos momentos mais negros da nossa História Nacional.

Como está largamente documentado na Rua da Judiaria, celebram-se, no dia 19 de Abril, os 500 anos do infame massacre perpetrado pelos nossos antepassados sobre os antepassados dos nossos concidadãos de credo judaico. Um pouco por todo o lado se pede que nos associemos, e nesse dia acendamos, no Rossio, uma vela evocativa. Contudo, mais importante do que essa vela, convém que saibamos reacender a vela de uma memória interior.

Não me vou ater aqui a pormenores históricos, estão devida, e lapidarmente, descritos na Rua da Judiaria: em 1506, terão, por alto, sido chacinados e queimados vivos cerca de 4 000 dos nossos compatriotas, mais do que compatriotas, vizinhos de Lisboa, tão-só por uma diferença de credo, algumas referências de texto, e diferentes denominações daquele deus único dos 3 Monoteísmos.

Quando me falam de Judeus, de Cristãos e de Muçulmanos, imediatamente me acorre à ideia o Califado de Córdoba, onde, nos tempos intermédios da Reconquista, essas três religiões se uniram, para dar lugar a uma das mais espantosas florações culturais da Península, onde os pensares eram comuns, as sinagogas moçárabes, os príncipes cristãos versados nas línguas mouras, o filosofar árabe assimilado por todas as teologias, e as Igrejas de Cristo um lugar de cultos partilhados. Tudo o resto foi, depois, uma mera sombra cultural.

Portugal, país ingrato, mostrou-se sempre exímio em mutilar as suas melhores cabeças: num tempo de acolhimento, começou por juntar os restos dos perseguidos Templários com o ancestral Saber Judeu. Daí terá resultado a nossa única epopeia, a dos Descobrimentos, até que príncipes mal aconselhados, ao sabor das conveniências, resolveram substituir a Convivência pela Intolerância, obrigando ao exílio, à mentira da pele de uma religião forçada (o que é um cristão-novo, senão mais uma alma humilhada?...), e, por fim, a essa indesculpável hecatombe, iniciada em 19 de Abril de 1506.

Toda a nossa épica sucumbe nessa forçada Segunda Diáspora, onde as melhores mentes judaicas acabaram por levar o seu saber para as terras da tolerante Holanda, tornando-a na nova potência, que rapidamente substituiu o soçobrado Império Português.

Faz parte da cruz judaica a régua de dois saberes: 1) a de que mais tarde, ou mais cedo, ele será perseguido; 2) a de que, posto que essa perseguição inexoravelmente virá, lhe convém estar, ao máximo, preparado para ela. Isto gerou Judeus ricos, e Judeus sábios, e à volta disto, semeou-se sempre uma infindável história de mal disfarçadas invejas.

Quando ligo a televisão, tudo o que sinto de repulsa pelo presente xadrez de ódios do Próximo e do Médio Oriente consegue estender-se até esse dia de há 500 anos atrás. Dir-se-á que estão distantes, e que são povos que nos são quase alheios; todavia para quem invoca, repetidamente, o lema do país dos brandos costumes, relembro que esses bárbaros de há meio milénio atrás, também foram nossos antepassados, ou, por palavras outras, para que conste, que todos nós, Portugueses de hoje, deles descendemos, e descendemos em linha directa de culpa.