quinta-feira, março 30, 2006

Um Conto (XXI)

  • Afinal, somos mesmo todos iguais.

    Sacho encontrava-se cercado por um grupo que o ameaçava.
    Um deles apontava Sacho e dizia:
              - «Ele assaltou o homem com uma pistola e fugiu com a carteira, o relógio e o telemóvel.»
              - «Tem a certeza de que foi este homem o assaltante?», perguntei em voz alta.
              - «A certeza não tenho. Eles são todos iguais.», retorquiu, com o esgar de um sorriso trocista.
    Sacho aproveitou a hesitação e a quebra de atenção que inadvertidamente provoquei e escapuliu-se.
    O grupo dividiu-se numa perseguição pouco voluntariosa.
    Perguntei a um que se me adiantou e que aparentava maior decisão, maior raiva:
              - «Então, os outros? Desistiram?»
    Abrandou o andamento, colocou-se a meu lado e informou:
              - «Ele deve ter-se refugiado no bairro dos búlgaros. Os outros têm medo de lá entrar.»
    Parou. Eu continuei, devagar. Ao fundo da rua olhei para trás. Não avistei ninguém.
    Já sozinho, entrei no bairro. As ruas pouco iluminadas e desertas. Avancei, lentamente; as mãos no ar. Na mão esquerda, bem alto, um jornal. Subitamente o cerco. À minha volta, surgindo de várias direcções, um grupo numeroso, de ar resoluto e confiante, avançava para mim.
              - «Paz! Jornalista!», exclamava eu, repetidamente, simulando bater à máquina e indicando o jornal; mostrando a minha câmara fotográfica.
    Senti que se acalmavam. Por detrás do grupo, à minha frente, vi Sacho, que se aproximava.
    O meu olhar e os meus gestos, os meus monossílabos e frases entrecortadas dirigiam-se agora para ele.

    Consegui marcar uma entrevista para as cinco da tarde do dia seguinte ou julgava ter conseguido fazê-lo.

    No dia seguinte, um pouco antes das cinco, com um amigo que tinha estudado em Sófia e falava búlgaro com facilidade, dirigi-me ao bairro.
    Ali estava Sacho. Com ele, estavam três outros; seus amigos, certamente.
              - «Sacho.», disse ele, apontando para si próprio.
              - «Francisco.», disse eu, imitando o seu gesto.
    Descreveu-me então um país em colapso, sem recursos, sem trabalho. A fome, a miséria, a degradação continuada do seu modo de vida. A necessidade de emigrar, para garantir a sua subsistência e a da família.
    As dificuldades em chegar aqui, o que conseguiu a troco de todas as suas economias, o desconhecimento completo da língua, a procura de trabalho, as dificuldades da legalização, a necessidade de se manter no bairro, junto com os outros, a quem devia os favores dos primeiros dias - a cama, a comida, a partilha das dificuldades, a troca das experiências, a amizade - para se sentir protegido, para se não confundir com um animal acossado, para preservar um pouco da dignidade humana que ainda lhe restava.

    Uma história cujos contornos lembravam o Portugal dos anos 60, as passagens a salto, os bidonville.

    Sim. Fora ele quem assaltara o outro homem, mas não tinha arma nenhuma.
              - «Foi o desespero. Como continuar a alimentar-me, a dormir, a sobreviver, sem um tostão, sem a hipótese de um emprego, por mais modesto e miserável que fosse? Nunca imaginei que um dia fosse capaz de assaltar e roubar.»
    Sacho abraçava um dos seus amigos.
              - «E tu, já assaltaste alguém?», perguntei ao amigo que Sacho abraçava.
              - «Rezo, para que o desespero nunca me faça chegar a tal ponto. Mas eu ainda tenho o meu irmão, que me ajuda. O Sacho nada tem, tão pouco o dinheiro para a posse da arma que inventaram para ele.»

    Até aqui, este texto fora escrito pelo Francisco, que na margem do papel tinha deixado esta nota:
              (Creio que o acto de luta pela sobrevivência é despoletado face a um perigo eminente ou continuado, pelo instinto de defesa do indivíduo ou pelo mito cultural, particularmente em questões de defesa da tribo ou do território.)

    Voltámos ao bairro dos búlgaros, com alguns alimentos e roupa. No regresso a casa, à saída do bairro, um homem esfaqueou o Francisco, enquanto exclamava:
              - «Morre, búlgaro de merda! Julgam que vêm para cá roubar-nos o trabalho?! Isto aqui é Portugal, não é a Bulgária!»
    Eu escapei-me.
    Fugi, tal como Sacho roubara ou o homem esfaqueara; para sobreviver.

    Afinal, somos mesmo todos iguais.


13 comentários:

RS disse...

O teu conto fez-me lembrar o Canadá e a situação dos nossos emigrantes. Há dias, em conversa com o Cerveira, disse ele: "Agora, os que têm protestado em Portugal contra os imigrantes devem estar satisfeitos. O Canadá faz exactamente o que eles têm reclamado."

É certo que o expediente do "refugiado" foi um erro, mas a moral da história, como no teu conto, é que somos cada vez mais humanos. Mais iguais a nós mesmos e de acordo com a nossa natureza.
Dias tristes, estes...

Um abraço,
RS

Idanhense disse...

Que história tão triste, tão real e tão actual.

António Baeta disse...

Rui e Idanhense, obrigado pelo feedback.
Idanhense, queria tratar-te pelo nome, que não me ocorre, fui ao teu blog e não consegui aceder. Algo se passa.
Um abraço.

Joaquim Baptista disse...

Apaguei o meu Blog Idanhense, devido a algumas pressões, mas já tenho outro de caracter mais geral (por enquanto) www.pimpinelaescarlate.blogspot.com, onde o Amigo já foi algumas vezes. O meu nome é Joaquim Baptista.
Muito grato pela preocupação. Um Abraço

hfm disse...

Dolorosamente real e muito bem escrito.

António Baeta disse...

Joaquim
Que pena ter apagado o blog, que tanto defendeu essa Egitânea, dos falsos mitos de que a fazem rodear.
Pimpinela Escarlate, uma personagem dos meus contos de capa e espada. Conheço, sim, mas não imaginava quem fosse o seu autor.
Um abraço.

António Baeta disse...

Helena

Sempre o teu comentário amigo. Obrigado!

Laurindinha disse...

Gostei muito! Penso que a realidade será ainda pior, com menos solidariedade e que, apesar de tudo, os imigrantes evitam recorrer ao roubo porque este os torna mais expostos à polícia.

Clitie disse...

António já te podes inscrevre no 3º Encontro de Blogs no Algarve, para dia 8 de Abril.

Bjks e Bom Domingo.

António Baeta disse...

Lauridinha

Um abraço reconhecido, pela visita e pelo comentário.

António Baeta disse...

Clitie

Tenho compromissos para esse dia; não será fácil comparecer.

Veremos.

JC disse...

Gostei muito do teu conto. Ele trata de uma realidade desprezada pelos nossos "media".
30 anos depois do fim da guerra colonial, o racismo continua bem vivo em Portugal, se bem que por vezes algo disfarçado.
É pois importante falar destes temas (também o fiz recentemente no meu blog).
Um abraço.

António Baeta disse...

Obrigado pelo comentário, João.
Um abraço.