segunda-feira, março 06, 2006

Silêncios do som da chuva

© António Baeta Oliveira

  • O silêncio que sai do som da chuva espalha-se, num crescendo de monotonia cinzenta, pela rua estreita que fito. Estou dormindo desperto, de pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo. Procuro em mim que sensações são as que tenho perante este cair esfiado de água sombriamente luminosa que [se] destaca das fachadas sujas e, ainda mais, das janelas abertas. E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou. (...)

Bernardo Soares
Fernando Pessoa
Livro do Desassossego
Assírio & Alvim, Lisboa 2005

12 comentários:

manuel castelo ramos disse...

Como (me) senti assim, também, neste fim-de-semana chuvoso! Embora feliz..., quanto pode ser o que é "sombriamente luminoso".

hfm disse...

Um llivro que folheio frequentemente.

António Baeta disse...

Manuel
Escolhi o texto precisamente pela sintonia com o meu estado de espírito; afinal também o teu, que descreves bem quando dizes «Embora feliz..., quanto pode ser o que é "sombriamente luminoso"».

António Baeta disse...

Obrigado pela partilha, Helena. Também o folheio amiúde, por isso deparei com este silêncio do som chuva em sintonia com o meu. O plural do meu título pretende reflectir a singularidade da interpretação e do sentir de cada leitor.

≈♥ Nadir ♥≈ disse...

Lindo :)
Bjx e boa semana

António Baeta disse...

É, não é, Nadir!

RS disse...

Há dias assim...
Eu que o diga, sombriamente.

Um abraço,
RS

António Baeta disse...

Ora quem, para se sintonizar com as sombras!?

Anónimo disse...

Uma das virtudes da arte literária, neste caso, é trazer do fundo do artista o pasto de que nos alimentamos à superfície. Bem haja, António, pelo trazer de hoje.
Cumprimentos atrasados.francisco ricardo

António Baeta disse...

Francisco

Não entendo porque são atrasados os cumprimentos, mas creia, sinceramente, que é sempre com muito gosto que o recebo nesta minha casa.
Um abraço.

Fatma disse...

É engraçado como em certos momentos tropeçamos em palavras que se transformam em espelhos onde nos vemos melhor. Foi o que me aconteceu agora. Obrigado António amigo. Saudades e muito afecto.

António Baeta disse...

É verdade, fatma, as palavras contêm cargas emocionais que reconhecemos em situações da nossa vida.
Falas em saudades. Conhecemo-nos, porventura, ou é o afecto a falar?