segunda-feira, setembro 05, 2005

Ainda a inauguração do Teatro Mascarenhas Gregório

Confirmou-se o teor do título do meu post anterior:

Equipamento público em inauguração privada

Entrada livre foi uma mentira.
Teatro Mascarenhas Gregório, Setembro 2005, © António Baeta Oliveira
Nesta sala os convidados, com convites verificados pela segurança da Fábrica do Inglês, sem contar com os que sempre se "safam" nestas situações. Teatro Mascarenhas Gregório, Setembro 2005, © António Baeta Oliveira

Em espaço contíguo, ao ar livre, o público anónimo, que acorreu na esperança de um lugar, assistindo, em projecção vídeo, ao que se passava na sala.

Eu não estive presente. Estas fotografias foram tiradas na tarde do mesmo dia. Quem lá esteve confirmou-me a descrição que aqui fiz do tipo de público que lá estaria e da escassa presença de silvenses.
É claro que nem todos podem caber na sala; isso acontece e espero que venha a acontecer muitas outras vezes, em sessões esgotadas, com muita afluência de público. Mas aí, apesar de alguns convites, que também sempre existirão, haverá bilhetes - públicos. E quando a sessão estiver esgotada, paciência, como em todos os espectáculos.
Poderei ter a oportunidade de assistir a uma segunda sessão, de ver através da televisão, mas não posso dizer que nesse dia estive no estádio, mesmo que à sua porta, no concerto, mesmo que ouvisse o som no exterior do recinto, na inauguração do teatro, mesmo que tivesse entrado para ir à casa de banho e espreitado por alguma porta entreaberta.

P.S.
Mais um exemplar testemunho das decisões da Sra. Presidente, reveladoras da forma como entende o que é estar ao serviço da comunidade. Leia em Saco dos Desabafos.
Da mesma maneira actuou com o CELAS (Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves) em circunstâncias que aqui relatei em Há polémica a propósito do ... Dizia eu então, descrevendo a atitude da Sra. Presidente: «... é proceder como o senhorio que aluga ao inquilino uma determinada moradia e pretende gerir o que se passa no seio da família que para lá vai habitar.»

sábado, setembro 03, 2005

Equipamento público em inauguração privada

Dia da Inauguração, após restauro, do Teatro Mascarenhas Gregório, em Silves, © António Baeta Oliveira

A Câmara Municipal de Silves vai inaugurar, após restauro, o velho Teatro Mascarenhas Gregório, mas vai fazê-lo numa cerimónia privada, já que só há lugares para convidados; por sinal com a exigência cerimoniosa de black tie, conforme me foi revelado.
"Gente fina é outra coisa!"

Quem opta decide, apesar das circunstâncias, de acordo com as suas ideias e a forma como entende o mundo. Daí que as decisões sejam reveladoras de quem opta.

Cada um convida quem quer e não tem que se justificar perante alheios, mas a sua decisão não deixa de ser reveladora.
Já uma câmara municipal não se pode alhear dos seus munícipes, e as suas decisões não deixam de ser reveladoras de uma maneira de ser e estar, sujeitas ao parecer e julgamento dos cidadãos. Uma democracia vive do julgamento dos cidadãos, mas não sobrevive sem a sua participação activa.

O Teatro Mascarenhas Gregório foi durante meio século, aproximadamente, sede da Sociedade Filarmónica Silvense. Ali, por via da música, do teatro, de outras actividades que solicitam a participação colectiva, a expressão artística e cultural, passaram muitas gerações dedicadas e altruístas. Será que entre os convidados, e por esta específica razão, estarão algumas dessas pessoas, particularmente os seus dirigentes e figuras mais representativas, já que a todos seria impossível convidar para uma só sessão inaugural e eventualmente muitos seriam esquecidos?
Aos que mais interessa a actividade cultural são os seus agentes, os que usam parte do seu tempo na realização de actividades e se congregam em associações e colectividades afins. Será que entre os convidados, e por esta razão específica, estarão algumas dessas pessoas, particularmente os seus dirigentes e figuras mais representativas?
Houve até em tempos uma Comissão visando a restauração deste velho teatro e que encaminhou muitas das iniciativas que conduziram à definição e aquisição do edifício como de interesse municipal, o planeamento de projectos apresentados em várias instâncias europeias e a definição de intenções do restauro que hoje se inaugura. Será que entre os convidados, e por esta razão específica, estarão algumas dessas pessoas, particularmente os seus dirigentes e figuras mais representativas?
Duvido de que estes fossem os critérios utilizado pela Sra. Presidente, responsável, em última análise, pelas decisões da autarquia. Melhor. Tenho a certeza de que esse não foi o critério, pois conheço-o através de outras decisões desta câmara municipal, sempre reveladoras da sua maneira de pensar e da forma como interpreta o mundo.

Quem serão então os convidados? Haverá quem não saiba?
Claro que serão a classe política regional e local, eventualmente um ou outro ex-ministro ou secretário de estado, com predominância para os correligionários políticos laranja, alguma oposição para não parecer mal, certas associações e instituições, empresários e amigos próximos da Sra. Presidente.
Poucas pessoas de Silves, para além das que integram a comitiva que descrevi.

«Isto é só p'ra nós!», quero dizer, é só para eles.

E tudo isto para fechar o teatro no dia seguinte, pois as obras terão que continuar.

Fico por aqui, embora tenha mais algumas coisas para dizer a este propósito, mas a escrita já vai longa.

P.S.
Já me constou que se publicitou na televisão que a entrada é livre.
Se tal for verdade é porque o assunto foi repensado à última hora.
Contactei por telefone um responsável pelo departamento cultural, perguntando como deveria proceder para adquirir um bilhete e fui informado de que a inauguração era exclusiva para convidados. Se não fora convidado não poderia assistir à inauguração.
Tal responsável ainda não me informou em contrário.
Contudo, privada ou pública, o fundamental da minha posição sobre o assunto não sofre alteração, pois a análise recai sobre o critério de escolha dos convidados.

quinta-feira, setembro 01, 2005

Recuar no tempo

Feira Nova, Marco de Canaveses, Verão de 2005, © António Baeta Oliveira

À escassa distância de alguns passos afasto-me da "feirinha" local, animada ao som do mais recente cantor de charme, que vende milhares de CDs junto da comunidade-portuguesa-espalhada-pelo-mundo, e mergulho no silêncio da aldeia, rodeado de espigueiros e velhas construções em pedra, sem que tenha chegado a entender se recuei no tempo ou se simplesmente se verificou um desajuste tecnológico.

Regresso de um fim-de-semana prolongado por terras de entre Douro e Tâmega, num retemperar de forças, como vos contei o ano passado aqui, (à distância de um clique) ou aqui , (ao fundo dessa página), em posts de 1, 2 e 3 de Setembro do ano passado.

sexta-feira, agosto 26, 2005

Um Conto (XII) - 2ª parte

(Continuação do post anterior)
  • Quem não lê, é como quem não vê

    (...) Também já lhe acontecera ver o botão referente à sua senha tapado com um papel. Apresentou a sua queixa a uma senhora de bata branca que lhe retorquiu:
    - «Não vê esse painel grande aí em cima dos guichets a dizer quais as especialidades que foram transferidas para o Novo Edifício!?»
    O Novo Edifício, que o informaram ser em frente das Urgências, e as Urgências, que o informaram ser em frente do Novo Edifício, fora uma situação nova e mais confusa, a exigir uma total exploração de novos procedimentos.
    - «As pessoas não são fáceis!», exclamava o Carlos de si para si.
    Punha-se a estudar os rostos e os olhares. Algumas, de boa feição e aparentemente disponíveis, nem sempre reagiam com disponibilidade; revelavam-se antipáticas e respondiam grosseiramente. Outras, de má catadura, com ar apressado, por vezes mostravam-se disponíveis e eram até capazes de alguma ternura e respeito pela sua idade e condição.

    Nesse dia, quando Carlos conversava com o médico, disse-lhe que não mais viria à consulta.
    - «O Sr. Doutor passa-me estes comprimidos muito caros e diz-me sempre que está tudo bem. A minha reforma mal chega para comer. Sabe quanto me custa vir aqui?»
    Quando Carlos inquiriu o médico sobre o custo da sua viagem, estava a referir-se ao dinheiro. Nunca lhe revelaria a sua odisseia até chegar ali, que ainda incluía o regresso a casa, com todas as vicissitudes.
    - «Quem não lê, é como quem não vê. Tem que aprender tudo de cor, como os cegos!», comentava para si.

    Ainda andara na escola e aprendera números e letras, mas ano após ano, a trabalhar, de manhã à noite, sem fazer uso dessas "coisas", como ele diria, acabou por esquecer.

    - «Bem falta me têm feito, depois desta maldita doença que um dia me há-de matar!»


quinta-feira, agosto 25, 2005

Um Conto (XII) - 1ª parte


(A 2ª nota é uma montagem fictícia)

  • Quem não lê, é como quem não vê

    Carlos, que vivia só, depois da morte da sua mulher, há algum tempo, fora acometido por uma doença crónica. Regularmente, de seis em seis meses, deslocava-se ao Hospital Central da sua região, a cerca de 80 km, para observação médica.
    Cedo, pela manhã, evocava o procedimento adequado e marcava no telefone o número da praça de táxis da cidade mais próxima, a 12 km da sua aldeia. Em cerca de meia hora estava a comprar o bilhete de comboio.
    A viagem, depois, era bem mais demorada. Finalmente na estação de destino, conseguia com facilidade o táxi que o conduziria ao hospital.

    Nem sempre assim acontecia.
    Já lhe sucedera haver um vizinho que ia à capital nesse dia e o deixara directamente à porta do hospital. Outras vezes apanhara boleia até à cidade e daí um autocarro até à estação, mas ultimamente não havia esse autocarro de ligação e então ia a pé, uns 2 km, se tivesse tempo, ou de táxi, se o tempo escasseasse.
    Na capital receava sempre não apanhar um táxi. Sucedera-lhe uma vez e não foi fácil chegar ao hospital, numa cidade grande, que desconhecia, e sem indicações que pudesse utilizar. Chegara tarde à consulta e teve que cumprir de novo, uma semana depois, esta peregrinação que lhe coubera em sorte.

    Já no hospital, dirigiu-se directamente ao edifício das Consultas Externas e retirou a senha com o seu número de espera, depois de ter pressionado o botão referente à sua especialidade, de entre vários outros, para outras tantas especialidades.
    Agora, toda a sua atenção se concentrava nos vários quadros com algarismos, tentando descobrir o momento em que um dos quadros revelasse algarismos iguais aos que a sua senha ostentava.

    Já lhe sucedera apresentar a sua senha com algarismos iguais ao do quadro e ouvir dizer, do outro lado do balcão:
    - «A sua senha não é desta especialidade. Aguarde por esse número dois guichets à sua esquerda.» (...)

    (Continua amanhã)



terça-feira, agosto 23, 2005

Um poema e a promessa de um conto

Uma açoreana passou por aqui outro dia, na rota de Vitorino Nemésio, e estranhou a ausência de Antero na minha "colecção de poetas". É Antero que vos trago hoje e a promessa de mais um dos meus contos na próxima sexta-feira. Acontece que, mais longo do que o habitual, dividi o conto em duas partes; a primeira parte será aqui publicada na quinta-feira.

  • Tormento do Ideal

    Conheci a Beleza que não morre
    E fiquei triste. Como quem da serra
    Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
    E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,

    Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre;
    Assim eu vi o mundo e o que ele encerra
    Perder a cor, bem como a nuvem que erra
    Ao pôr do sol e sobre o mar discorre.

    Pedindo à forma, em vão, a ideia pura,
    Tropeço, em sombras, na matéria dura,
    E encontro a imperfeição de quanto existe.

    Recebi o baptismo dos poetas,
    E, assentado entre as formas incompletas,
    Para sempre fiquei pálido e triste.

Antero de Quental
Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa
Eugénio de Andrade
Campo das Letras, Porto, 2001

P.S.
Hoje, 24, exultei de alegria com a notícia da reabertura, após completo restauro, do Teatro Mascarenhas Gregório. Podeis aceder à notícia em www.silves.web.pt, um site sobre Silves que mantenho há mais de oito anos, e cuja divulgação agradeço.
Entretanto, com esta notícia, ganhou extrema actualidade um post que aqui deixei em (clique no sublinhado) 8 de Janeiro de 2004.

segunda-feira, agosto 22, 2005

Em nome da paz e de um certo deus


© Muhammed Muheisen/AP/Público


Entre as imagens de confronto e desespero dos colonos, esta outra de pai e filho, palestinianos, que alegremente se banham nas águas deste mar de Gaza, que crêem pertencer-lhes.

São estes mitos velhos em luta pela sobrevivência, num confronto político-religioso de que se não vê o fim; em nome da paz e de um certo deus.


www.coexistence.art.museum