quinta-feira, janeiro 08, 2004

O Teatro Mascarenhas Gregório

© António Guerreiro
© António Guerreiro - Teatro Mascarenhas Gregório (Silves), em restauro.

Sempre me encantou este velho teatro. E encanta-me ainda este "esqueleto" tão equilibrado, tão harmonioso.
Já não sou do tempo das grandes estreias, nem das grandes companhias, como contava a minha mãe. Mesmo na minha infância já só se assistia às récitas dos "meninos do colégio" ou dos grupos amadores locais. Depois veio o tempo do cinema, dos filmes das campanhas do Estado Novo pela alfabetização e a interdição da sala para espectáculos. Apesar desta interdição foi, durante décadas, a sede da Sociedade Filarmónica Silvense, com os seus bailes, os seus concertos e, de novo, as récitas e as peças de teatro dos grupos amadores locais (com todo o respeito que me merecem).
Apesar desta descrição tristonha e de sabor provinciano, recordo um grande espectáculo de canto e teatro, com texto de Bertolt Brecht e música de Kurt Weill, integrado numa edição da "Festa da Paz e da Cultura" e uma fabulosa noite com Paredes e Vitorino de Almeida.
Degradou-se pela idade e pelo uso até à sua quase completa degenerescência.
Está agora em restauro, sob a responsabilidade do arquitecto Castanheira, também um homem do palco e com um invejável currículo de restauros em velhos teatros, nomeadamente em Espanha.
E depois?
Que estruturas técnicas e humanas existem para edificar um projecto criterioso para aquele edifício? Que meios financeiros?
É que, sem a criação dessas estruturas técnicas, humanas, financeiras, com um plano de base que vise a formação de públicos diversificados, teremos um edifício fechado na maior parte do tempo, com um programa sujeito à oferta ocasional, ou, no pior mas mais credível dos cenários, ao serviço do gosto bacoco e novo-rico dos musicais e revistas na moda ou das propostas alarves dos programas de recreação à maneira da SIC ou da TVI, tão ao gosto do "povo", como se diz, que tem costas suficientemente largas para ter que aguentar com o que lhe querem oferecer.
Não estou a defender o meu gosto, que provavelmente só mereceria também o interesse de muito poucos, mas a chamar a atenção para a necessidade da criação de uma estrutura profissional, que garanta que os dinheiros públicos sirvam a promoção da cultura e nos torne cidadãos mais capazes.

P.S. Este "recado", se bem que contextualizado localmente, serve para muitas outras situações semelhantes pelo nosso país fora e para outras construções que por aí se fazem, sem projecto que as sirva, muitas vezes só porque há dinheiro "de fora" para investir. (Veja-se a construção do Estádio do Algarve e outras que tais).

1 comentário:

Carlos Rocha disse...

Estou contigo.
Tu bem sabes o quanto é dificil fazer passar a mensagem.É dificil mas não é impossivel, exitem casos mesmo ao abrir da nossa porta onde a mensagem já é outra, é por ai que devemos caminhar de porta em porta de mente em mente e talvez um dia seremos muitos a pensar o mesmo, que a cultura merece estruturas profissionais que garanta que os dinheiros públicos sirvam a promoção da Cultura e não de outras coisas.
De porta em porta andarei, como o tenho feito, acompanhado de outros amigos que de porta em porta andam.
Bem hajas por tocar na ferida.