segunda-feira, março 19, 2012

Um poema a cada segunda-feira (LXX)



O Público divulgou, há alguns anos, uma série de antologias de poesia que encomendara a certas personalidades da vida portuguesa não diretamente relacionadas com a literatura.

É desse manancial que esta rubrica se irá sustentar por algum tempo, confinando-se as minhas escolhas às opções dessa personalidades e a poetas que viveram, ou ainda vivem, sob o bafo civilizacional do séc. XXI.

A primeira vaga proveio da safra de Mário Soares, a que se seguiram Miguel Veiga e Diogo Freitas do Amaral.
Prossigo, agora com Urbano Tavares Rodrigues.


  • NONA CARTA PARA UM DEUS AUSENTE

da terra vou sabendo o nome inteiro
dos ritos que antecedem a colheita.
podar os ventos, recolher as chuvas,
armazenar as maduras cerejas do granizo.
com as névoas recubro a mancha verde
das oliveiras do pátio.
os tordos retornaram.
catam o vento,
talvez do seu exílio falem,
pelo alfabeto dos longes se relêem.
entre o desejo e a sombra se confundem.
lavrador de silêncios
o coração hesita.
outra colheita o demanda;
pega a terra, nela lança
a úbere semente de mais naves.
pacientemente, sei, esperará que o tempo recolha em seu celeiro
o fruto mais maduro que lhe couber.

do trigo lembro o verde, o ouro depois.
a emoção compondo o linho sobre a mesa.
solidários, os gestos se repartem.
à cabeceira, tu.
ao centro o pão mais alvo, o vinho.
há palavras que sobre as coisas pairam,
as possuem.
o grande coração da casa aí flui.
Como omitir seus signos?

chove ainda, sei que os deuses
virão pelo crepúsculo retomar
as cordas de suas brancas liras d'água alada.
pelo pinhal caminham;
ouve como o vento calou os seus murmúrios.
atendo a seus segredos,
em seus vasos lunares procuro ainda
o grão de areia que diga dos teus passos.
enternecidamente o tomo.
sobre a palma avalio o seu peso,
pergunto que caminhos
apontam as luzes.
tão frágil a distância entre o que ouso
e a clareira de névoa do que sinto!
diz-me tão-só se com os deuses vens;
se a lira que aqui ouço é a resposta
que o coração, atento,
me requer.

precisava uma palavra que contasse
a estranha solidez da esperança.
ou um sentido apenas,
preservado em seu temor mais fundo,
em seu calado embuste.
não tenho, ao corpo cabe sempre
um elo mais que a ilusão prolonga.
por quem vem vou sabendo doutras naves
que ao pensamento aportam
e a territórios mais virgens se abalançam.
contar-te-ei, depois, se tempo houver,
em que floresta ou rio se acendem já
as fogueiras mais rubras das palavras.
preencho a solidão de tua adaga.
mais fundo sempre, o coração o pede.
a cicatriz se fende, o golpe busca.
se ouvires por ti gritar, sou eu que chamo,
diz aos deuses que morro ou que renasço.



Hugo Santos
Os poemas da minha vida
Urbano Tavares Rodrigues
Público, Lisboa 2005

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2 comentários:

esconderijo disse...

Hoje, dia Mundial da Poesia, devíamos ter direito a um poema extra, não? É só uma sugestão de uma leitora atenta e seguidora (ainda que silenciosa)! :)

Beijinhos,

ARML

António Baeta disse...

A poesia é de todos os dias. :)