quarta-feira, outubro 14, 2009

O sofá do poder



Casa destruída, na Travessa da Cató, em Silves
Dada a proximidade ao acto eleitoral pode parecer que se trata de uma alegoria ao poder autárquico, mas a cidade (e o concelho) não estão assim com uma aparência tão ruinosa.

Mau grado as ruas do centro histórico ou a velha ponte medieval, abandonadas pelo POLIS, houve inaugurações com ministros e até com o Presidente da República.

Mau grado a ausência de perspectivas quanto à forma e processo de cativar o interesse empresarial para uma cidade sem indústria e de comércio moribundo, desestruturada economicamente, é o funcionalismo público que garante os poucos empregos e a autarquia o maior empregador da cidade e do concelho.

Mau grado a existência de equipamentos que mal funcionam ou estão mesmo fechados, como o antigo Matadouro e o Teatro Mascarenhas Gregório, e que mesmo a funcionar não supririam as carências de um centro de exposições e de um auditório, ou de um cinema, fechado há anos e anos, posso esforçar-me por compreender que a ausência de acções que visem ultrapassar esses estrangulamentos se deva a alguma desconfiança nas iniciativas da sociedade civil ou então ao manifesto alheamento pelas questões da cultura, já que é bem fraca a participação dos cidadãos nas acções culturais que a autarquia por vezes promove, desabituados de uma criteriosa e regular programação. Excepção seja feita à Biblioteca Municipal, com gestão e orçamento autónomos, numa actividade louvável dirigida a diversos públicos e faixas etárias e com actividades diversificadas.

Mau grado um associativismo em morte acelerada e a ausência de massa crítica culturalmente activa, a autarquia sabe substituir-se, de vez em quando, com festas, concertos, desfiles, competições desportivas, feiras e demais actividades, chegando mesmo, de 4 em 4 anos, a suscitar o interesse cívico da população pelo acto eleitoral, com cerca de 60% de participação.

E se o sofá, na foto, pretendesse representar a cadeira do poder, notem bem como tal não seria possível. Está cheio de pó. E ninguém duvida que há quem se sente nessa cadeira com frequência e há longo tempo.

3 comentários:

ailéh disse...

É por causa desta e de outras "análises" que gosto de ti...Toma lé um abraço

Fatma disse...

É uma coincidência mas, no dia das eleições, em Lagos, num dos "novos" parques para promoção dos desportos mais ou menos radicais e de lazer para jovens, crianças e outrem, encontrava-se, em cima de uma das rampas, um sofá abandonado...

Marco disse...

Um comentário lúcido que retrata da melhor forma a nossa realidade. Obrigado António.

Um abraço