segunda-feira, junho 01, 2009

O Arraial Ferreira Neto, em Tavira


Este fim-de-semana aderi, uma vez mais, às propostas de passeio da Câmara Municipal de Tavira sob o título genérico de Patrimónios do Mar.
Visitámos o Arraial Ferreira Neto.

Fotografia aérea com origem em skyscrapercity, assinada por Prof Godin

Trata-se de uma construção urbana, uma autêntica aldeia, com dois largos e cinco ruas, classificada como Imóvel de Interesse Público desde 2002, e onde, segundo a nota histórico-artística do IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico), "... habitariam confortavelmente 400 a 500 pessoas, pois oferecia as comodidades e higiene com as instalações adequadas ao exercício da actividade industrial, assim como o conforto necessário ao descanso dos pescadores e das suas famílias. ...".

O Arraial, como se pode entender pela fotografia acima, separava a zona industrial da zona habitacional e foi construído, em 1946, segundo projecto do Eng. Sena Lino, em pleno Estado Novo, propositadamente para servir de apoio às actividades ligadas à pesca do atum.

Fotografia do autor do blog sobre fotografia existente no museu do Arraial

A edificação, último vestígio desta actividade, que perdeu viabilidade económica a partir da década de sessenta do século passado, é um testemunho de elevada importância histórica e... ( de novo citando a nota do IPPAR) "...um exemplo típico dos racionalistas conceitos formais da época, com o seu aprumo volumétrico e a sua métrica "moderna", o uso de "materiais portugueses" (pedra bujardada, telha de canudo, ladrilhos de barro, painéis de azulejo e portas de madeira pintada com aldraba ou postigo de reixa), e as técnicas mais actuais da altura - fundações directas em alvenaria ordinária, escadas em betão, paredes de tijolo cheio rebocado e estruturas da cobertura em asnas de madeira. (...)".

Chegou o momento de vos contar que a zona habitacional, uma autêntica aldeia com... (citando a mesma nota do IPPAR) "edifício escolar, balneário, forno, capela, posto médico, sanitários públicos e clube, além de uma rede completa de esgotos e cinco cisternas com a capacidade de 150.000 litros de água cada uma. (...)" se mantém preservada como nestas fotos:


                       
A escola                                                 a capela


   
A casa do administrador       uma rua da aldeia       a casa do operário


Esta preservação é exemplar pela forma como, respeitando a estrutura dos edifícios da aldeia dos pescadores de atum, o arraial sobreviveu graças a uma nova actividade económica.

Hoje, o Arraial Ferreira Neto...


...é parte integrante do Hotel Vila Galé Albacora.

 


 


 


 


Nota:
As fotos sem indicação de autoria foram batidas pelo autor do blog durante a visita.

4 comentários:

Luz disse...

A Pesca do Atum nas Armações de Tavira

Com vista a preservar a memória de uma actividade que foi fundamental no Algarve do século XX e homenagear o “pessoal que trabalhou nas quatro armações de Tavira”, Fausto Costa escreveu «A Pesca do Atum nas Armações da Costa Algarvia». Este trabalho aborda a vida e costumes dos pescadores da pesca do atum, nomeadamente nas armações de Tavira (Abóbora, Barril, Livramento e Medo das Cascas), assim como de um enquadramento histórico desde a antiguidade até ao fim das armações, nos anos sessenta do século XX. O estudo, em que o principal sujeito é o atum, foi motivado, segundo o autor, por “sentir profundamente o desaparecimento destas artes” e como salienta, no final, para “melhor lembrar aquela vida no arraial, a alegria dos copejos, a algazarra da distribuição do peixe, enfim o pulsar da armação”. A obra está dividida em três partes. Na primeira, que caracteriza o atum, tratam-se as várias espécies, aspectos da vida dos atuns (características biológicas, influência do meio ambiente e as movimentações migratórias) e o papel do atum no regime alimentar. Uma segunda parte do livro contém notas históricas, desde a antiguidade até ao colapso das armações, onde se expõem várias interrogações sobre as principais causas do seu desaparecimento. Depois desta fase preliminar, a parte final do livro é dedicada às “Armações da Costa de Tavira” e nela se aborda, em diferentes capítulos, o arraial (vida local, companha, preparação da armação e matrícula), a armação (a deita e a estrutura), a actividade piscatória (em terra e no mar), a pesca (as movimentações do atum e o copejo), a leva e os trabalhos finais.
Num misto de História e Estudo Antropológico, este trabalho inclui descrições técnicas, que ajudam a compreender a complexidade da pesca do atum e a dureza da vida dos pescadores.
Com o auxílio de esquemas, figuras e fotografias (infelizmente algumas não são da melhor qualidade, como o autor reconhece e lamenta na sua nota prévia), são apresentadas as estruturas das armações. Mostram-se exemplos da organização do pessoal, os diversos tipos de embarcações (rebocador, barcas, calões, lanchas, canoas, botes), posicionamento dos barcos e materiais utilizados (ferros, cabos, redes).
Justificando o antigo interesse dos povos pelos atuns, para capa do livro foi escolhida uma foto de um pormenor de mosaicos das ruínas de Milreu onde se podem ver peixes com semelhanças com atuns.
Num total de 191 páginas editadas pela «Editorial Bizâncio» e com apoio da Secretaria de Estado das Pescas, Governo Civil de Faro, Câmara Municipal de Tavira, Comissão de Coordenação da Região do Algarve e Clube Náutico de Tavira, esta obra serve de grande recordação para os tavirenses.

Texto publicado em Janeiro de 2004, no jornal «Algarve Informação».

António Baeta disse...

Luz
Agradeço a informação que juntou, de valor inestimável para quem procure entender como viviam os que nos antecederam, neste lugar que agora é nosso.

Luz disse...

António Baeta
Junto a informação dum sítio na internet, onde coloquei umas imagens da pesca do atum (http://pescas.busythumbs.com), são resultado de uma recolha de fotos antigas de Tavira efectuada por um amigo... um ABRAÇO!

Marco disse...

O Arraial Ferreira Neto é sem dúvida um complexo muito interessante e que felizmente o grupo hoteleiro que o detém soube preservar e torná-lo num atractivo pólo cultural. Felizmente ainda existem alguns grupos que sabem aliar a cultura ao interesse financeiro.