quarta-feira, junho 16, 2010

Lembrando David Mourão-Ferreira


Passa hoje mais um ano sobre a data da morte do poeta que tão bem cantou o amor e o erotismo.

  • Soneto do Cativo

    Se é sem dúvida Amor esta explosão
    de tantas sensações contraditórias;
    a sórdida mistura das memórias,
    tão longe da verdade e da invenção;

    o espelho deformante; a profusão
    de frases insensatas, incensórias;
    a cúmplice partilha nas histórias
    do que os outros dirão ou não dirão;

    se é sem dúvida Amor a cobardia
    de buscar nos lençóis a mais sombria
    razão de encantamento e de desprezo;

    não há dúvida, Amor, que te não fujo
    e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
    tenho vivido eternamente preso!

David Mourão-Ferreira
(Os Quatro Campos do Tempo, 1958)
Poemas Portugueses - Antologia de Poesia Portuguesa do Sec. XIII ao Séc. XXI
Porto Editora, 2009

3 comentários:

hfm disse...

Sempre em cima do acontecimento! Assim te deixo também dele um dos sonetos que na minha adolescência me fez progredir na poesia.

Ternura

Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

INFINITO PESSOAL OU A ARTE DE AMAR, GUIMARÃES EDITORES,, LISBOA, 2ª EDIÇÃO, P. 25

António Baeta disse...

Conheço-o tão bem!
Obrigado, Helena.

António Baeta disse...

Olha. Tenho-o publicado aqui, na lista ao fundo da página, sob o título "Dez anos depois".