sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Um poeta do amor e da tolerância

Faz muito tempo que aqui não depositava um poema dos tempos do Al-Ândalus, dessa civilização que hoje é difícil reconhecer nas turbas exaltadas e violentas instigadas pelo islamismo (não confundir o islamismo, movimento político-religioso integralista, com o Islão).
Sobre este assunto é sempre importante reafirmar a existência de muitos homens e mulheres, muçulmanos, que se não revêem naquela ideologia e que, no meio das ondas da intolerância, continuam a resistir, com perigo das suas próprias vidas.

De Ibn 'Arabi (sécs. XII-XIII), natural de Múrcia, místico, filósofo, poeta, sábio:


  • Meu coração tornou-se capaz
    de assumir qualquer forma;
    ele é um pasto para gazelas e um convento para monges cristãos,
    um templo para ídolos e a Caaba dos peregrinos,
    as tábuas da Torah e o livro do Corão.
    Eu sigo a religião do Amor:
    qualquer que seja o caminho que o Amor toma,
    esta é a minha religião e a minha fé.

22 comentários:

manuel castelo ramos disse...

Andaste, andaste, e conseguiste repescar o poema de Ibn Arabi que Espinoza, quiçá, também leu.

António Baeta disse...

Não foi necessário tanto esforço assim porque o conhecia bem. Acontece que já depois de o ter publicado fui descobrir que já o tinha feito antes, em Julho de 2004.
Um abraço.

APOBO disse...

Caríssimo António
Faz agora uma ano precisamente que escrevi um texto para uma exposição da Sofia (Beça) e que terminava precisamente com este magnífico poema. Refira-se, por curiosidade, que a exposição (de cerâmica) se realizou em Córdova na Posada del Potro, bem próximo da mesquita. Encontro agora novamente este poema, numa altura em que cada vez faz mais sentido, precisamente no seu "blogue"... Coincidências!... (ou talvez não).
Abraço
Manuel da Cerveira Pinto

António Baeta disse...

Cerveira Pinto

Conheço este poema desde 1989, quando da representação de um teatro de rua sobre a figura de Ibn Qasi, personagem que me coube representar.
Maria Luísa Anselmo, que dramatizou e encenou a peça, colocou o poema na boca de uma escrava, que o recitou a pedido de Ibn Qasi, na noite em que seu pai falecera.
Ibn Qasi foi também um místico, sufi, dirigente espiritual dos famosos muridin, cujo ribat, na Arrifana, junto a Aljezur, está a ser alvo de uma intervenção arqueológica.
Ibn 'Arabi terá mesmo comentado a mais conhecida obra filosófica de Ibn Qasi, O Descalçar das Sandálias.
Quanto às coincidências, não tenho dúvidas; elas são feitas de percursos comuns.
Um abraço.
António Baeta

RS disse...

Por estes lados, a árvore nunca tapará a floresta. E ainda bem.
E em resposta ao poema:
Wa-aleikum-as-salam.

António Baeta disse...

Obrigado, meu atento e atencioso amigo.

Um abraço.

hfm disse...

E eu lerei, relerei e nunca me cansarei.

António Baeta disse...

;)

≈♥ Nadir ♥≈ disse...

lindo :)
Bjx e bom fim de semana

António Baeta disse...

:-)

APOBO disse...

Caro António
Obrigado pelas suas palavras. De facto também o sufismo parece fazer mais sentido a cada dia que passa. Tomei a liberdade de transcrever o poema para o nosso "Boassas" (com a devida menção e agradecimento, claro). Também acrescentei o "Local & Blogal" à nossa lista de páginas e blogues aconselhados, à semelhança do que havíamos já feito no "Desenvolvimento Ecologicamente Sustentado".
Obrigado e até breve (ou como diria o nosso amigo Rui Semblano, al Salam Halik)...
Manuel da Cerveira Pinto

António Baeta disse...

Quem agradece sou eu, Manuel.

Marco disse...

A primeira vez que ouvi estas palavras foi num documentário espanhol, exibido pela RTP há 20 anos. Acho que ainda tenho algumas cassetes VHS com alguns episódios.

Estas palavras mostram que a essência do Islão não é a violência.

Imagino que se a maioria dos dirigentes muçulmanos usassem palavras destas, a fama do Islão no Ocidente seria igual à do Budismo.

António Baeta disse...

Quando a religião se confunde com o Estado as coisas são mais complicadas, Marco.

Laurindinha disse...

Fabuloso!

António Baeta disse...

É um prazer vê-la por estas bandas, Laurindinha. Assim comprovo que é uma mulher que lê.
:-)

APOBO disse...

Laurindinha...
A tão apregoada "liberdade de expressão" dos países ditos livres e desenvolvidos, faz com que poetas como Ibn Arabí, al-Mu'tamid, Ibn Hammar e muitos outros não sejam sequer mencionados nas nossas escolas, quanto mais estudados. Ainda há pouco, na faculdade, numa turma de cerca de 20 alunos nenhum havia nunca ouvido falar no al-Ândalus. Porque será?...

Laurindinha disse...

Caro António,

Há muito para ler além de blogs... Também muito utilitário apenas... Mas não deixo de vir espreitar todas as entradas do Local & Blogal, mesmo não comentando. Gosto dos contos!

Laurindinha disse...

Apobo,

É uma pena, de facto. Falta alguém que substitua José Hermano Saraiva na divulgação da nossa História... Que me lembre, no Abrigo de Pastora já houve duas entradas sobre Alhambra.

António Baeta disse...

Será sempre um prazer vê-la por aqui. Fico satisfeito, também, por saber que gosta dos meus contos.

APOBO disse...

Cara Laurindinha
De facto é mesmo necessário alguém que substitua o Hermano Saraiva. Até porque a História de Portugal está assente sobre muitos mitos e omissões, nos quais este autor muitas vezes incorre. Quantas pessoas sabem que o próprio rei D. Afonso Henriques tinha um filho de uma muçulmana, chamado Martim Chichorro? Que as suas tropas eram em grande parte constituídas por soldados muçulmanos? Que inversamente as hostes do célebre hájibe Almançor eram maioritáriamente mercenários cristãos? Que a época áurea do al-Ândalus foi o único momento na história da Península Ibérica em que esta foi o "centro" da Europa, em todas as áreas, até hoje...
Porque continuam por traduzir as obras dos historiadores árabes da época que se amontoam na Torre do Tombo?...
Muito há ainda a dizer (e descobrir) sobre tudo isto.
Abraço
Manuel da Cerveira Pinto

Klatuu o embuçado disse...

Nunca será demais recordá-lo!
Bem como a Al Mu'tamid...