quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Romance Popular

Alcáçova de Silves, Fevereiro 2006, © António Baeta Oliveira
  • A Moira Encantada1 2

    Meia noite além resôa
    Cêrca das ribas del mar,
    Meia noite já é dada
    E o povo ainda a folgar.
    Em meio de tal folguedo
    Todos quedam sem fallar,
    Olhos voltam ao castello
    Para ver, para avistar
    A linda moira encantada,
    Que era triste a suspirar.

    - Quem se atreve, ái quem se atreve
    Ir ao castello e trepar
    Para vencer lo encanto
    Que tanto sabe encantar?
    - Ninguem ha que a tal se atreva,
    Não ha que em moiras fiar;
    Quem lá fôsse a taes deshoras
    Para só desencantar,
    Grande risco assim corrêra
    De não mais de lá voltar.

    - Ái que linda formusura,
    Quem a podéra salvar!
    O alvor dos seus vestidos
    Tem mais brilho que o luar!
    Dôces, tão dôces suspiros
    Onde ouvil-os suspirar?

    Assim um bom cavalleiro
    Só se estava a delatar,
    Em amor lhe ardia o peito,
    Em desejos seu olhar.
    Tres horas eram passadas
    Neste continuo anciar.
    Cavalleiro de armas brancas
    Nunca soube arreceiar:
    Invoca a linda moirinha,
    Mas não ouve o seu fallar.
    Nada importa a D. Ramiro
    Mais que a moira conquistar;
    Vai subir por muro acima,
    Sente os pés a resvalar!
    Ái, que era passada a hora
    De a poder desencantar!

    Já lá vinha a estrella d'alva
    Com seus brilhos a raiar;
    No mais alto do castello
    Já mal se via alvejar
    A fina branca roupagem
    da linda filha de Agar.
    Ao romper do claro dia,
    Para bem mais se pasmar.
    Sobre o castello uma nuvem
    Era apenas a pairar.
    Jurava o povo, jurava,
    E teimava en affirmar,
    Que dentro daquella nuvem
    Vira a donzellinha entrar.
    Dom Ramiro d'enraivado
    De não poder-lhe chegar,
    Dalli parte, e contra os moiros
    Grande briga vái armar.
    Por fim ganha um bom castello,
    Mas... sem moira para amar.


1Versão de Estácio da Veiga
2Foi mantida a ortografia original

Algarve todo o mar
Colectânea
Publicações Dom Quixote, Lisboa 2005

P.S.
A propósito desta paixão de D. Ramiro por uma donzela árabe, remeto-vos para um post que aqui publiquei, em Junho de 2004, sobre o poema Dona Branca, de Almeida Garrett, onde Aben-Afan, o último rei mouro de Silves, se apaixona por D. Beatriz, filha de D. Afonso III. Basta clicar aqui.
Nesse local foi efectuado um link, que já não funciona, e que remetia para o poema do nosso grande romântico. Os que queiram ter acesso ao poema completo, em versão .pdf podem usar este link actualizado..

10 comentários:

RS disse...

E assim se foram queimando as pontes... Uma bela história e uma metáfora ainda actual. Infelizmente...

António Baeta disse...

Diga-se, em abono da verdade, que também os mouros se envolveram com as cristãs, assim conta Garrett em Dona Branca, história-poema dos amores de Almançor por D. Beatriz, filha de Afonso III.
As pontes ligam duas margens que os homens, de cá e de lá, foram queimando, infelizmente...
Um abraço, Rui.

António Baeta disse...

Estava a pensar em Almançor quando escrevi, certamente, pois recordava uma peça de teatro em que Almançor se prende de amores por uma cristã. Acontece que Almançor significa O Vitorioso e tal epíteto pode ser conferido a qualquer um que obtenha uma vitória.
Bem. O mouro de Dona Branca é Aben-Afan, último rei mouro de Silves.

hfm disse...

Como me encantei.

António Baeta disse...

É uma delícia de simplicidade popular, não é Helena!?

Laurindinha disse...

Quantas moiras encantadas não haverá ainda, não em nuvens, mas em chadors.

António Baeta disse...

O chador é coisa iraniana e aqui por Silves as mouras são mesmo mouras, isto é, demasiado morenas. Mas que as há encantadas, isso há. O brilho dos seus olhos lança um tal encantamento que não permite aos homens ver a sua face; por isso dispensam o lenço.
E lêem.

≈♥ Nadir ♥≈ disse...

Lindo :)
Bjx

musalia disse...

'romance' popular...muito encanto nessa moura. quando miúda visitava o castelo de Silves e ía espreitar ao poço tentando ouvir os lamentos da moura encantada .)
eu, Moriana, personagem de um 'romance' de tradição oral...

António Baeta disse...

Obrigado, Nadir.

Musália, a moura do conto não tem nome, portanto não é Moriana. Nem Moriana me parece que seja nome de origem árabe, tanto quanto sei. Sabes algo sobre isso?

A tradição oral sobre a moura do castelo de Silves, na versão que chegou até mim, também não refere o poço, mas antes a cisterna, como local da sua "morada". Mas, como sabes, quem conta um conto acrescenta-lhe ...
Um abraço.