quinta-feira, agosto 24, 2006

Homenagem em atraso


  Alexandre O'Neill


Vinte anos passaram sobre o dia 21 de Agosto de 1986, quando Alexandre O'Neill faleceu.
Era de nós, portugueses, que falava, mesmo quando falava de si.
A minha intenção é lembrá-lo, através de um extracto deste seu poema:

  • Um Adeus Português

    (...)

    Não podias ficar presa comigo
    à pequena dor que cada um de nós
    traz docemente pela mão
    a esta pequena dor à portuguesa
    tão mansa quase vegetal

    Não tu não mereces esta cidade não mereces
    esta roda de náusea em que giramos
    até à idiotia
    esta pequena morte
    e o seu minucioso e porco ritual
    esta nossa razão absurda de ser

    Não tu és da cidade aventureira
    da cidade onde o amor encontra as suas ruas
    e o cemitério ardente
    da sua morte
    tu és da cidade onde vives por um fio
    de puro acaso
    onde morres ou vives não de asfixia
    mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
    sem a moeda falsa do bem e do mal

    Nesta curva tão terna e lancinante
    que vai ser que já é o teu desaparecimento
    digo-te adeus
    e como um adolescente
    tropeço de ternura
    por ti.

Alexandre O'Neill
Quinze Poetas Portugueses do Século XX
Selecção e Prefácio de Gastão Cruz
Assírio & Alvim, 2004

8 comentários:

antimater disse...

Não faz mal.
Alexandre O'Neill pode ser comemorado em qualquer altura.
Um português de génio.

António Baeta disse...

Obrigado por ter comentado. Já fiz uma rápida visita ao seu blog. Voltarei.

hfm disse...

Sempre atento. Obrigada.

António Baeta disse...

Sempre atenta comigo.
Obrigado, Helena.

≈♥ Nadir ♥≈ disse...

Bela Homenagem
Para além de te ler, deixo votos de um bom domingo.
Bjx

António Baeta disse...

Obrigado, Nadir.
Um beijinho.

Der@ disse...

Por coincidência (ou não, vá lá saber-se, que a vida tem mistérios insondáveis) no passado dia 21 de Agosto viajei num avião com o nome deste grande poeta português. As probabilidades não são assim tão escassas para tornar o caso um deslumbramento, isto atendendo ao número de aviões da frota da TAP, mas foi sem dúvida uma maneira curiosa de relembrar o grande O'Neill justamente vinte anos depois deste nos ter deixado.

António Baeta disse...

Dario
A coincidência acresce com a baixa frequência com que, suponho, viajas na TAP, certamente.
Espero que não tenham escolhido o poeta pelo seu nome de aspecto internacional; ele, seguramente, teria ironizado a propósito.
Um abraço.
P.S. Para quando o novo encontro de blogs, que chegaste a sugerir?