sábado, setembro 14, 2013

A História de Silves em Medalhas - João de Deus


 
 
 
História de Silves - 10
João de Deus

Poeta lírico, nasceu em São Bartolomeu de Messines, em 1830.
O seu primeiro livro de poesias, "Flores do Campo", foi editado em 1868. Um ano depois era eleito deputado por Silves. A sua Cartilha Maternal, de 1876, foi declarada Método Nacional de Leitura em 1888. Teófilo Braga reuniu as suas poesias em "Campo de Flores" (1893).
Foi objeto de expressiva homenagem nacional em 1895. No ano seguinte falecia em Lisboa e foi sepultado no Mosteiro dos Jerónimos.
 
 
 

quinta-feira, setembro 12, 2013

Alcantarilha - memórias de infância (IV)





As minhas memórias mais remotas são as da casa onde morávamos e onde nasceram os meus dois irmãos mais novos: o Zé e o Fernando. É a casa de paredes brancas, sobre a esquerda, com uma porta e duas janelas simétricas - a estação local dos Correios, que a minha mãe chefiava.
 
A porta servia o correio propriamente dito e a minha casa, no interior. Para sair para a rua teria que passar junto ao balcão e se quisesse sair sem autorização teria que ser discreto e sorrateiro.
 
Felizmente havia um quintal, bem amplo, com um poço que a minha mãe temia, por nossa segurança, apesar de ter uma cobertura, e uma zona cercada a muro onde meu pai cultivava quase tudo o que era necessário em casa, das couves às batatas, das cenouras às alfaces...
 
Havia também um jardim, encostado ao muro, onde havia flores, muitas flores. Lembro os amores perfeitos, em quantidade tal que dava para encher por completo o andor do Senhor dos Passos.
 
Uma outra zona era reservada aos coelhos e galinhas.
 
O poço e uma outra área tipo logradouro sem ocupação específica, ficavam precisamente nas traseiras dessa casa amarela com uma porta e duas janelas.

Essa porta não sei se está ou não classificada, mas deveria estar; trata-se de uma cantaria manuelina (séc. XVI).
 
A porta intermédia entre o correio e essa casa era a barbearia do António da Horta, que aos sábados à noite ficava aberta até desoras, pois vinham os homens cortar o cabelo e aparar a barba, porque no dia seguinte era domingo e dia de vestir o melhor fatinho para sair a passear ou ir à missa.
 
Mas o quintal tinha uma outra porta para a rua de trás. Essa porta velhinha da foto abaixo.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


E essa porta dava para esta rua - a Rua da Audiência.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

E aí, além da garagem onde o meu pai guardava um velho Ford, de Matrícula AC, salvo erro AC-77-70, bem velhinho mesmo para a época, do tipo daqueles automóveis dos filmes do Al Capone, com os "gangsters" no pequeno poial de acesso ao interior, armados até aos dentes e a disparar freneticamente para todo o lado. Lembram? Pois ainda viajámos nele até à terra do meu pai, lá para os lados do baixo Tâmega, bem perto do local onde desagua no grande rio Douro, o do Vinho do Porto.
 
E ainda existe essa garagem.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

E também existe, já com um ar desabitado, a casa onde morava uma senhora que um dia teve a má ideia de sugerir ao meu Zé que compusesse melhor a blusinha, que tanto trabalho deveria ter dado à mãe para a lavar e passar e ferro.
 
Pois essa senhora, de cada vez que assomasse à janela teria que ouvir o meu Zé, 3 anos mais novo do que eu, dizer com aquela vozinha de moço a arremedar - "Puxa a blusinha, puxa!" - até à exaustão.
 
Um dia,  a queixa da senhora foi cair aos ouvidos do meu pai!!!
(Eu agora estou a rir e o meu irmão quando for ler isto também rirá, mas na ocasião não se riu, não).
 
 
 
Espraiei-me nestas memórias, que terei de continuar em próximo episódio, pois este já vai um pouco longo.
 
Até breve!
 

(Tem continuação)


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                Alcantarilha - memórias de infância (II)
 
                Alcantarilha - memórias de infância (III)
 
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, setembro 09, 2013

Alcantarilha - memórias de infância (III)





Nos anos 50 do século passado, que venho a recordar nesta memória de afetos, a vida social tinha lugares marcadamente diferenciados para cada camada socioeconómica: uns frequentavam determinados lugares que outros evitavam por motivações de ordem social. No entanto, havia um lugar de partilha comum - a Sociedade Recreativa Alcantarilhense (na foto, casa vermelho escuro à esquerda).
 
Os bailes: os de Carnaval, o da Pinha, creio que  por ocasião da Páscoa, ou o 31 de Janeiro, da revolta republicana do Porto, eram os grandes momentos societários comuns, se não mencionarmos as festas religiosas ou o cinema no armazém do Zé de Almeida, na rua do Moinho de Vento.
 
Ao final do dia o ponto de encontro das classes menos abastadas era na taberna/mercearia do Constantino da Sofia.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Recordo bem a cisterna, logo à entrada sobre o lado esquerdo, e particularmente os pirolitos que aí refrescavam durante o tempo quente.
 
O pirolito era a designação atribuída a uma bebida doce, gaseificada, que era fechada por um berlinde de vidro, sob pressão, e  de saída condicionada por uma anilha de borracha. Para abrir o pirolito era costume usar-se o carrinho de um torçal de linha, ao qual se desbastava uma das extremidades. Com ele se pressionava o berlinde, abrindo o acesso ao saboroso e fresco conteúdo.
 
Isto narrado do meu ponto de vista.
 
Do ponto de vista dos adultos, a cisterna também refrescava o vinho das garrafas que, ao copo, era servido ao balcão.
 
Do balcão também nos aproximávamos para comprar rebuçados que continham cromos. Lembro particularmente os dos jogadores de futebol e os de uma outra coleção com os reis e rainhas de Portugal, de que tenho uma história com o meu irmão Zé, que espero ter oportunidade de vir a contar (não agora para não me dispersar).
 
Deste lugar frente ao Constantino recordo também ter avistado um fenómeno meteorológico pouco comum em regiões tão a sul, como o Algarve ou mesmo Portugal. Lembro-me do meu pai me ter pegado ao colo e indicar-me no céu o que designou por aurora boreal. Reconheço vagamente ter avistado cores, mas não entendi o porquê de tanto entusiasmo.
 
Pelos meus 10 anos, a 2 de Fevereiro de 1954, também assisti a outro fenómeno meteorológico pouco comum, desta vez muito emocionado - uma queda de neve em Alcantarilha, que atingiu uma altura bem significativa.
 


 

 

 

 

 

 


Outro lugar de encontro ocorria neste edifício, na porta lá mais ao fundo, que dava entrada para a loja do Sr. Sequeira, o responsável local pelo Registo Civil.
 
Ao balcão juntavam-se as pessoas mais abastadas ou de mais elevado nível de instrução, como os médicos, havia dois em Alcantarilha, proprietários rurais, professores... e, creio eu, pois era bem miúdo para entender  e eram tempos conturbados politicamente, falar-se-ia de política ou das novidades dos jornais e da rádio.
 
Eu também não perdia, às 7 da tarde de cada sábado, com o ouvido encostado ao rádio do Sr. Sequeira, os contos de, se bem me lembro, Álvaro Benamor.
 
 
Esta porta e estes degraus eram o lugar da mesma tertúlia política, à noite, quando vinha o tempo mais quente.
 
Aí o auditório era maior, pois vinham de férias muitos dos proprietários absentistas que viviam fora de Alcantarilha, mas procuravam aqui a proximidade do mar, em Armação de Pera.

Recordo nesta tertúlia o Sr. Ramalho, o do Palacete, que, contrariando as tendências mais situacionistas, prometia ao meu irmão Zé umas calças vermelhas se ele proclamasse bem alto um "Viva a República!".
 
 

(Tem continuação)


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                Alcantarilha - Memórias de infância (II)
 
 
 
 
 
 
 
 

sábado, setembro 07, 2013

A História de Silves em Medalhas - Igreja de Nossa Senhora dos Mártires



 
 
 
História de Silves - 9
Igreja de Nª Sª dos Mártires

Foi, segundo a tradição, mandada construir por D. Sancho I, quando da Conquista de Silves, para santificar o chão que sepultou os cristãos caídos naquela empresa. Contudo, tanto a sua arquitetura, de estilo manuelino, como recentes escavações arqueológicas ali realizadas, demonstram tratar-se de templo edificado nos inícios do séc. XVI e remodelado em 1779. Oferece capela-mor com abóbada nervurada, sóbrio arco triunfal, e guarda três lápides tumulares, assim como retábulo de talha dourada, do século XVI. Um dos fechos da abóbada exibe o camaroeiro, emblema da Rainha D. Leonor, a quem pertencia, por vontade de D. João II, a cidade de Silves. É, desde 1961, Imóvel de Interesse Público.
 
 
 

quinta-feira, setembro 05, 2013

Alcantarilha - memórias de infância (II)





Esta silhueta de Alcantarilha, muito marcada pela Igreja e pelas Casas Vermelhas, pouco mudou desde a minha infância.

Pelo que conheço das edificações, este núcleo central de Alcantarilha, com a Igreja (séc. XVI) e os edifícios envolventes, deve ter -se organizado entre os sécs. XVIII/XIX, por via da acumulação de rendimento rural e na sequência de restauros e novas construções após o terramoto de 1755. 

São várias as casas de significativo porte e volumetria associadas a famílias como Nunes, Peres, Mendonça... (com acentuada pendor de origem espanhola) e mesmo de famílias nobres, como os Ramalho, baronato local, título de atribuição muito comum na sequência das confrontações entre liberais e conservadores, a que há que adicionar alguns morgadios. 















Nos anos 50, já as antes nomeadas como Casas Vermelhas nem sequer eram habitadas e algumas outras já também não eram ocupadas pelos proprietários, como é o caso, na fotografia de cima, à esquerda, com o edifício rosa, que servia de Escola Primária, ou esta imediatamente acima,  à direita, de amarelo, que era habitada por um dos médicos locais, mais precisamente o Dr. Antunes.

Em cima e ao centro é como que o prolongamento da foto que inclui a antiga Escola Primária, com os edifícios da família Oliva, em primeiro plano, a que se segue o palacete dos Ramalho, ao tempo ainda habitados pelos proprietários.

Esta situação revela já alguma perda de poder financeiro, passado o tempo do forte desenvolvimento do comércio de frutos secos, como a amêndoa, o figo e  a alfarroba, mas muito em particular o figo, por ocasião da II Guerra Mundial e venda aos aliados de rações para alimentação em combate, de que restam ainda armazéns e fumeiros, nomeadamente o do Sr. Parreira.











A entrada para o armazém e fumeiro




 








A porta acima, avistada noutra perspetiva



Diz-se que, de manhã, bem de manhãzinha, os figos sabem melhor, colhidos diretamente das árvores.

Só me recordo de tal quando me foi permitido ir, com o meu amigo Zezinho (da Beatriz Moira), passar uma noite à propriedade dele, dormindo ao relento, na eira, para acordar ainda antes do nascer do sol e ir armar aos pássaros.
 
Nunca esquecerei o prazer de sair da vigilância dos pais, na primeira noite fora, com o céu estrelado, como nunca antes vira, a servir de teto, e o quebrar do jejum com um figo, doce como o mel e fresco como a água da cantarinha de barro.

Esse prazer ficou-me na memória; dos pássaros mal me lembro.


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segunda-feira, setembro 02, 2013

Alcantarilha - memórias de infância







Vou abrir uma janela de saudade sobre o local onde fiz os primeiros amigos.

 
Sabeis de que falo.
 
Daqueles que ficam amigos para sempre, e com quem nos entendemos como se o tempo não tivesse passado sobre nós.




Encontrei o Toninho Patrício há uns dias atrás. Disse que me acompanha no Facebook e lastimou que as minha fotos fossem só de Silves, cidade. (Alcantarilha é freguesia do concelho de Silves).

               - Nem uma foto de Alcantarilha, pá!

Se eu fechasse agora os olhos e viajasse até à minha infância, nos anos 50 do século passado, depararia com a 'nha rua numa tarde de outono, com o sol a declinar.














 
A minha Alcantarilha é outonal e tem a luz de fim do dia, ao toque das Trindades, a hora de regressar a casa sob pena de algum castigo. E a Igreja fica ali, bem perto, dominante, e o Zezinho Sacristão não falha na sua pontualidade, como aprendeu desde miúdo com o Padre Montes, severo, como o guardo na memória.

Há uns meses atrás faleceu o Torquato da Luz, o primeiro dos mais chegados a partir, e foi ocasião para trocarmos alguns emails e nos encontrarmos em hora triste. Lá abracei o Zezinho (da Beatriz Moira) e o Manuel Jacinto. Recordei rostos antigos e amigos; trocámos cumprimentos e olhares. Não era dia para conversa, mas dia para rememorar, cá para dentro.
 
 
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sábado, agosto 31, 2013

A História de Silves em Medalhas - Cruz de Portugal


 
 
 
História de Silves - 8
Cruz de Portugal

Durante os finais do séc. XV e na primeira metade do séc. XVI, realizaram-se em Silves significativas campanhas de obras na Sé e edificaram-se as Igrejas da Misericórdia e de Nossa Senhora dos Mártires.
A Cruz de Portugal, é um importante cruzeiro, daquele período, esculpida em calcário branco e de estilo manuelino. Mostra, numa das faces, Cristo crucificado, e na outra, Cristo descido da cruz, nos braços da Virgem. A sua localização, à saída de Silves, indicava o caminho que, do então Reino do Algarve, seguia para Portugal. É Monumento Nacional desde 1910.