quinta-feira, setembro 05, 2013

Alcantarilha - memórias de infância (II)





Esta silhueta de Alcantarilha, muito marcada pela Igreja e pelas Casas Vermelhas, pouco mudou desde a minha infância.

Pelo que conheço das edificações, este núcleo central de Alcantarilha, com a Igreja (séc. XVI) e os edifícios envolventes, deve ter -se organizado entre os sécs. XVIII/XIX, por via da acumulação de rendimento rural e na sequência de restauros e novas construções após o terramoto de 1755. 

São várias as casas de significativo porte e volumetria associadas a famílias como Nunes, Peres, Mendonça... (com acentuada pendor de origem espanhola) e mesmo de famílias nobres, como os Ramalho, baronato local, título de atribuição muito comum na sequência das confrontações entre liberais e conservadores, a que há que adicionar alguns morgadios. 















Nos anos 50, já as antes nomeadas como Casas Vermelhas nem sequer eram habitadas e algumas outras já também não eram ocupadas pelos proprietários, como é o caso, na fotografia de cima, à esquerda, com o edifício rosa, que servia de Escola Primária, ou esta imediatamente acima,  à direita, de amarelo, que era habitada por um dos médicos locais, mais precisamente o Dr. Antunes.

Em cima e ao centro é como que o prolongamento da foto que inclui a antiga Escola Primária, com os edifícios da família Oliva, em primeiro plano, a que se segue o palacete dos Ramalho, ao tempo ainda habitados pelos proprietários.

Esta situação revela já alguma perda de poder financeiro, passado o tempo do forte desenvolvimento do comércio de frutos secos, como a amêndoa, o figo e  a alfarroba, mas muito em particular o figo, por ocasião da II Guerra Mundial e venda aos aliados de rações para alimentação em combate, de que restam ainda armazéns e fumeiros, nomeadamente o do Sr. Parreira.











A entrada para o armazém e fumeiro




 








A porta acima, avistada noutra perspetiva



Diz-se que, de manhã, bem de manhãzinha, os figos sabem melhor, colhidos diretamente das árvores.

Só me recordo de tal quando me foi permitido ir, com o meu amigo Zezinho (da Beatriz Moira), passar uma noite à propriedade dele, dormindo ao relento, na eira, para acordar ainda antes do nascer do sol e ir armar aos pássaros.
 
Nunca esquecerei o prazer de sair da vigilância dos pais, na primeira noite fora, com o céu estrelado, como nunca antes vira, a servir de teto, e o quebrar do jejum com um figo, doce como o mel e fresco como a água da cantarinha de barro.

Esse prazer ficou-me na memória; dos pássaros mal me lembro.


(Tem continuação)

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NOTA: Se ao passardes com o rato sobre as fotos aparecer uma "mãozinha", podeis clicar com o botão esquerdo e a foto aparecerá ampliada.
Com um clique na cruz, no canto superior direito, estareis de regresso a esta página.


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3 comentários:

souheasttop disse...

O Ano passado quando ai estive em Agosto levei comigo minha Filha Mary(Ja Nascida ca na Australia), e o meu Genro Justin (Americano do Colorado)actualmente a viverem em Nova York.
Uma coisa que o Justin me dizia quando a noite passavamos pelas ruas de alcantarilha e de Silves, era o seguinte " aquem pertencem estas Casas com aspect Senhorial?
e eu respondia a antigos notaveis de ca, e ele me dezia como e que algo tao Belo esta neste ponto de Ruina.....
Eu nao sabia explicar, uma das que mais o impressionou foi o Palacete dos viscondes de Lagoa em Silves, (Antiga Casa da D.Aurora Grade)

António Baeta disse...

Os notáveis deixaram de existir e os proprietários desses prédios, se bem que, no geral, ainda sejam pessoas abastadas, já não têm um estilo de vida que lhes permita manter um edifício desse tipo.
Imagina só o limpar do pó. :)
Em muitos casos já não se sabe bem que são os herdeiros, tal é o emaranhado das heranças.
Mas estes edifícios são património e deveria projetar-se, a médio/longo prazo, um fundo de manutenção, já que se desperdiça tanto dinheiro em coisas de bem menos valor e interesse, e responsabilizar os proprietários que não fazem regular manutenção, sob pena de perder o direito de propriedade, por abandono ou ruína.
Penso eu, mas cada cabeça, sua sentença. :)

souheasttop disse...

Ou como ca na Australia acontece dava-se ao Propiatrio um tempo para os recuperar , esse prazo passado o Predio espropiado e transformado em Pertenca do Estado
restaurado e transformado em edificio para uso Comunal.
E uma Pena e eu costume muito tentar explicar ao genro que e Americano esse desleixo, estou-me a lembrar agora do Palacete dos Viscondes de Lagoa em Silves (Casa da D.Aurora Grade) o meu Genro nao lhe podia caber na cabeca um edificio como aquele a cair aos bocados.