quinta-feira, outubro 24, 2013

Memórias do blogue (VII)




Passaram 10 anos, em Agosto, sobre um grande incêndio florestal que devastou a Serra de Silves.

Nesse mesmo ano de 2003, em Setembro, voltei à serra.

Esta fotografia e este texto datam desse tempo e dizem da desolação que senti nesse meu passeio.

Serra de Silves, SET2003, © António Baeta Oliveira


São caminhos que conduzem a nenhures; mesmo a esperança parece não viver mais nos olhos dos mais velhos.

Os mais novos, esses, há muito que se renderam à cidade.

Que a política de reflorestação não se fique por uma política de subsídios. A calamidade já havia começado antes do fogo.



segunda-feira, outubro 21, 2013

Património silvense (VIII)



As Casas Grandes




As "Casas Grandes", é como se identifica localmente este palácio, situado na margem direita do rio Arade, em posição frontal à Ponte Medieval.

De estilo neo-clássico, fachada de composição em simetria, a iniciativa da sua construção deve-se a Gregório Nunes Duarte Machado, capitão-mor de Silves, que prestou relevantes serviços na luta contra a primeira invasão napoleónica, ao tempo de Junot, sob o comando do nosso aliado britânico, o General Beresford.




Sobre a grande janela, que se situa sobre a porta principal, a data de 1811 e o brasão dos Machado Guerreiro.




Atualmente desabitado no 1º andar, é também conhecido como o palácio do Dr. Cardoso, último residente, conhecido advogado, com escritório no salão a que pertence a grande janela central, falecido durante o terceiro quartel do século XX.



sábado, outubro 19, 2013

N' A tertúlia mais PEQUENA do mundo



Na passada quinta-feira, à noite, numa tertúlia que decorreu no Quiosque Al-Mu'tamid, sob a iniciativa da Biblioteca Municipal de Silves, tive a oportunidade de dar voz a este meu poema, já aqui antes publicado neste blogue, em 10 de Outubro de 2007.



Algar Seco, Carvoeiro, Outubro 2007, © António Baeta Oliveira
Foto de minha autoria, batida no Algar Seco, em Carvoeiro.

  • Dissimulação

    Os que parecem pescar, debruçados
    nestas falésias sobre o mar, dissimulam
    o apelo irresistível do

    s i l ê n c i o

    e a vertigem dos grandes

    e s p a ç o s

    na busca da parcela, que lhes cabe,
    do todo do

    i n f i n i t o.

António Baeta Oliveira


quinta-feira, outubro 17, 2013

Sombras





















A sombra desta chaminé nem sempre ocorre a esta hora e neste lugar, nesta parede.

É uma sombra projetada pelo sol, que na sua inconstância regular está sempre a fazê-la mudar de posição e de parede.

A porta ao lado também é uma sombra; uma sombra do seu passado. 

Dali não se desloca. 

Mas se a mudarmos ou alterarmos, deixará de existir como tal.

As sombras são assim. Não resistem às mudanças.

Nós também temos que mudar, sob pena de nos tornarmos sombras de nós mesmos.



segunda-feira, outubro 14, 2013

Silves, ao tempo da civilização do al-Ândalus (VIII)




Painel com a introdução da "Evocação de Silves", de Al-Mu'tamid, à entrada da porta do meu pátio.


O último episódio deixou-nos com Abu Bakr Ibn 'Ammar a entrar em Silves  "com pompa verdadeiramente real".

Deve ter sido no momento em que Ibn 'Ammar se deslocou a Sevilha, junto do rei Al-Mu'tamid, para tomar posse do seu cargo como governador do Gharb, em Silves, que o rei o terá feito portador de um poema, em que recorda os tempos em que aqui viveu, e que passo a transcrever.


EVOCAÇÃO DE SILVES


               saúda por mim, Abu Bakr,
               os queridos lugares de Silves
               e diz-me se deles a saudade
               é tão grande quanto a minha.

               saúda o Palácio dos Balcões,
               da parte de quem nunca o esqueceu,
               morada de leões e de gazelas
               salas e sombras onde eu
               doce refúgio encontrava
               entre ancas opulentas
               e tão estreitas cinturas.

               moças níveas e morenas
               atravessavam-me a alma
               como brancas espadas
               como lanças escuras.

               ai quantas noites fiquei,
               lá no remanso do rio,
               preso nos jogos do amor
               com a da pulseira curva,
               igual aos meandros da água,
               enquanto o tempo passava...

               ela me servia de vinho:
               o vinho do seu olhar,
               às vezes o do seu copo,
               e outras vezes o da boca.

               tangia-me o alaúde
               e eis que eu estremecia
               como se estivesse ouvindo
               tendões de colos cortados.

               mas se retirava as vestes
               grácil detalhe mostrando,
               era ramo de salgueiro
               que me abria o seu botão
               para ostentar a flor.

Al-Mu'tamid
in "O meu coração é árabe"
Adalberto Alves
Assírio & Alvim



____________________



Garcia DominguesHistória Luso-Árabe, edição do Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves, 2010
António Borges CoelhoPortugal na Espanha Árabe, vol. 2 - Editorial Caminho
Adalberto Alves, O meu Coração é Árabe, Assírio & Alvim

____________________




Se estiver interessado na leitura dos episódios anteriores, siga os links abaixo:



Silves, ao tempo da civilização do al-Ândalus (I)

Silves, ao tempo da civilização do al-Ândalus (II)

Silves, ao tempo da civilização do al-Ândalus (III)

Silves, ao tempo da civilização do al-Ândalus (IV)

Silves, ao tempo da civilização do al-Ândalus (V)

Silves, ao tempo da civilização do al-Ândalus (VI)

Silves, ao tempo da civilização do al-Ândalus (VII)





quinta-feira, outubro 10, 2013

Gosto de ti.






               Gosto de te ver assim à luz ténue do fim de tarde, quando esse raio de sol te ilumina e  em ti se definem a luz, a penumbra e a sombra.
 
               Gosto de olhar as tuas pedras e perceber que as há das mais antigas às mais modernas.
 
               Gosto de saber que aí estás há séculos e que já por ti passaram as gentes mais remotas e mais estranhas.
 
               Gosto de pensar que serias capaz de recordar os que por aqui passam frequentemente e que depois se vão sem mais voltar.
 
               Gosto da forma como resistes ao tempo, apesar das alterações para te adaptar às circunstâncias
 
               Gosto de por aqui passar desde o primeiro dia em que o fiz, ao colo da minha mãe, a caminho da Sé, para me batizar.
 
               Gosto de recordar o tempo em que passava por ti todos os dias a caminho do Colégio do Padre Oliveira e ao domingo para ir à missa.
 
               Gosto de passear para cima, para baixo e subir ou descer, saindo ou entrando pela direita ou pela esquerda.
 
               Gosto de esclarecer que a tua arquitetura se deve aos alarifes almoadas, esses mesmos que construíram a Giralda de Sevilha e a Cotubia de Marraquexe.
 
               Gosto de caminhar por dentro de ti com o meu Doggy.
 
               Gosto de ti.
              
 
 
 
 
 

segunda-feira, outubro 07, 2013

Património silvense (VII)




Antiga sede do Sindicato de Classe dos Corticeiros.


Este edifício, situado no início da Rua da Sé, ao desembocar da Porta da Almedina, foi construído de raiz com a finalidade de servir de sede ao Sindicato de Classe dos Corticeiros, de influência anarco-sindicalista.
 
A sua construção fez-se a expensas do próprio sindicato, o que ilustra bem do poder da classe dos corticeiros no contexto dessa época industrial.
 
Cumpriu a sua missão até 1933, ano em que o governo de Salazar dissolveu todos os sindicatos de classe e criou os sindicatos nacionais.
 
Além da atividade sindical, os seus dirigentes dedicavam extrema atenção a atividades de instrução, recreio e cultura, com classes para aprendizagem da leitura e da escrita, música e teatro. Possuía uma biblioteca.
 
Foi depois prédio de habitação e, atualmente, património municipal, alberga vários serviços camarários.
 
 Hoje só os mais velhos se recordam desse tempo.
 
Que esta referência possa, de alguma forma, manter a sua memória por algum tempo mais.

_________________________
 

Edições anteriores:

Património silvense (I)  - Claustro interior nos Paços do Concelho

Património silvense (II) - Igreja da Misericórdia

Património silvense (III) - Arte Nova em Silves

Património silvense (IV) - O Palácio Grade

Património silvense (V) - Cruz de Portugal

Património silvense (VI) - Sé Catedral de Silves