quinta-feira, fevereiro 12, 2004

500 anos de Foral Manuelino

Espero que na sexta-feira passada (6 de Fevereiro) não tenha sido dado o mote das comemorações dos 500 anos da Carta de Foral de D. Manuel a Silves.
Recebi com entusiasmo a notícia do empenhamento da autarquia em comemorar este acontecimento, símbolo do reconhecimento do direito à cidadania, renovado por D. Manuel, depois do anterior foral de D. Afonso III. Terei sido até dos primeiros a manifestar publicamente a adesão a tal comemoração, ao inserir no Guia da Cidade de Silves uma miniatura da Carta de Foral e legenda alusiva.
Aprestei-me a comparecer à cerimónia de abertura das comemorações, como aliás é meu procedimento em relação à grande maioria dos eventos culturais que têm lugar em Silves.
Quinhentos anos depois do reconhecimento real da cidadania dos residentes sou confrontado com coisas que me desgostaram:

  • Uma Comissão de Honra na qual, salvo a Sra. Presidente da Câmara (que nela não deveria figurar, porque organizadora), não consta nenhum outro natural ou residente desta cidade. Quinhentos anos depois do reconhecimento da capacidade do exercício do poder local dos residentes de Silves por D. Manuel, esta atitude de distanciamento face à capacidade de outras personalidades locais em assumir um lugar em tal comissão.

  • Um grupo de música de câmara lançando a sua música para o ar, no meio de uma algazarra de pessoas que se encontravam, trocavam cumprimentos e partilhavam conversas; mero objecto decorativo, pois não lhe foram proporcionadas condições para uma audição que respeitasse o seu esforço, o seu trabalho e a sua função.


  • Um aglomerado inusitado de pessoas, o que deveria ser motivo de regozijo, mas que suscita estranheza relativamente a outros acontecimentos culturais anteriores, que não costumam concitar tanta gente. Foi, seguramente, uma aposta da organização, ao convidar um palestrante espectacular, uma figura da televisão, paradigma cultural do nosso tempo. Já previra que tal viesse a acontecer.


  • Um atraso de mais de uma hora devido ao arrastar da jantarada do poder, bem revelador de uma falta de respeito significativa pelos cidadãos.


Depois disto, não fiquei para a palestra. Também já previra como iria ser.

Soube depois, pelo Diário de Notícias, que se falou de mouras encantadas (também poderiam ser príncipes, reis, heróis ou outras fantasias "históricas", tão ao gosto do público, como se costuma dizer); descreveram-se barcos de alto calado exportando minério proveniente do Alentejo, ao tempo dos romanos, nesta inverosimilhança da travessia da serra algarvia, com a cidade de Myrtilis (Mértola) e o Guadiana bem mais perto; falar da Silves romana como uma grande cidade, quando praticamente não há testemunhos arqueológicos de importância no perímetro do que é hoje a nossa urbe; referir os figos como último recurso para a satisfação da sede, durante o cerco da cidade pelos cristãos do Norte, ao tempo da conquista de D. Sancho I; sugerir a descoberta dos alicerces do Palácio das Varandas, quando os arqueólogos que aí trabalharam se limitam a designá-lo como Palácio Almoada; aconselhar que Silves se assuma como grande centro de arte islâmica (que arte islâmica?), como forma de promoção turística...
O repórter do DN deve ter ouvido mal e ouvido pouco :-), pois nem sequer menciona o período manuelino e a própria Carta de Foral.
Já agora, apetece perguntar onde pára a Carta de Foral e se há intenção de a expor durante este tempo de comemorações. Ou será que é preciso rodeá-la de fantasias e mostrá-la na televisão para que passe a ter valor (ou passe a ser das coisas que o público gosta)?

P.S. Como o artigo a que me refiro, publicado no Diário de Notícias, em breve deixará de estar online, proponho que os interessados possam aceder a este outro lugar.

3 comentários:

Armando Rego disse...

Parabéns por este Tema acerca do Foral, quanto ao sitio onde ele pára, há algum tempo estava no arquivo municipal, bem acondicionado numa caixa metálica.

Torquato da Luz disse...

Inteiramente de acordo com o que escreveste, meu caro António.
Mas a "cultura" PSD no poder é assim, que se há-de fazer?
Continua, por favor!
O abraço de sempre.

Luisa Anselmo disse...

Os fogos de artíficio? A sua qualidade depende da fábrica donde provêem. Eu não fui, mas ouvi(ou vi) pela rádio algo do discurso do Sr. Ministro da Cultura e gostei muito do silêncio, do engasgo, quando ele mencionava os povos fenicios, romanos e calou, parou, esperou-se e de impulso saiu: ... e os mouros. Comovem estes esforços!
Lá li o artigo no DN. Preferia não ter lido.
Aquela de Silves ser importante pelos minerais que chegavam e partiam pelo rio e mais tatatá- tatati, é impulgante! Só penso que Silves merece mais respeito.
Coitado do historiador teve pouca sorte com as fontes em que se abasteceu, ou leu-as à pressa, ou teve medo do contraterrorismo e abafou.
Beijinho de agradecimento