segunda-feira, fevereiro 16, 2004

Evolução civilizacional

No último post, a propósito de Ibn Badrun e da circunstância de em Silves ter estudado filologia e outros estudos literários, há 800 anos atrás, coisa que agora não poderia fazer, um dos amigos que os blogs me fizeram conhecer, de Um pouco mais de Sul, num comentário irónico, dizia que isso se tratava de "evolução civilizacional".

Como nos entendemos, JCB!

Acabara eu de ler Uma deusa na bruma, de João Aguiar, Edições ASA, romance histórico cuja acção decorre em terras de Entre-Douro-e-Minho, em meados do séc. II a.C.. Venho comentando com outros amigos, estes agora "ao vivo e a cores", a forma como fiquei impressionado ao sentir-me tão próximo dos primitivos homens da Idade do Ferro na sua relação com a vida: os laços familiares, a educação, a amizade dos pais, dos amigos, a adolescência, o amor, o trabalho, as responsabilidades do dia-a-dia, a solidariedade. Senti-os bem próximo do que ainda somos hoje e foi fácil mergulhar na ambiência da minha cidade, recuando 800 anos. Também me perguntei se, entre os que me lêem, alguém sentiria algo mais do que a simples referência ao tempo, porque só eu sabia da energia contida por detrás de uma frase tão comum. Seria possível detectá-la sem acesso à expressão de um pequeno brilho no olhar, à denúncia de um ligeiro rito, incontido, num canto da boca?

Vou fugir um pouco a esta sequência de ideias, mas não resisto a contar-vos o episódio de uma conversa havida entre o "herói" deste romance e um homem que voltara à terra depois de anos de escravatura entre os romanos: não suportava aquela crueldade e a forma como subjugavam povos para suprir as necessidades da sua civilização, mas referia-se a uma lei escrita, como um contrato social, e falava sobretudo da escrita, ela própria, que lhe abrira os olhos à fantasia, permitindo-lhe entender mais profundamente a realidade, e pela qual roubou o seu amo antes de fugir - trouxe consigo a "Odisseia".
Imaginam a perversão destas ideias na mente deste "herói", ainda muito jovem!?

Regressando agora ao parágrafo interrompido. É curioso como apesar deste avanço tecnológico e dos progressos que facultam o seu acesso a cada vez maior número de pessoas, nós continuemos sempre os mesmos, impulsionados pelas coisas mais simples, quando não pelas mais mesquinhas.
É inquietante verificar que este acesso ao conhecimento e à fruição do bem-estar, que antigamente se apoiava no que chamamos escravatura, hoje se apoie no que chamamos terceiro mundo.

1 comentário:

Luisa Anselmo disse...

Visão fulgurante/do cume/de qualquer montanha:/no vale/ao redor da fogueira/em crescente manha/da feiticeira/a dança enebriante/que mantem a maldição/ de que gemem os lúcidos/e se derreiam/os outros/cada vez mais/cegos e ébrios/pelas cinzas das noites/magicamente/parecendo-lhes/do fogo/as chamas redentoras.
Saudo-te, amigo!