quarta-feira, maio 28, 2008

Nas margens da poesia (III)

Hoje, da antologia da III Bienal de Silves, um poema a Silves:

  • as-Shilb

    Já te foi tão próxima essa morada de leões e de gazelas
    junto à gafaria, a solidão das fronteiras
    onde o sussurro do branco se corrói
    exercitando-se horto no coração transmudo
    das mulheres níveas e morenas.

    Hoje sabes que o mistério da luz açoita os olhos
    até que o canto de al-mutamid corra o interior das gusas
    que alimentam tendões de colos cortados
    batendo por dentro das bocas para ostentar a flor
    mas nada te preencherá a cegueira
    das fábulas na margem do arade
    a taifa rebelde rasgando a intimidade dos deuses
    pela insídia da cor da terra e dos espaços ermos.

    Frutificarás então artéria sísmica
    do amarelo envelhecido e que alumbra ancestral
    em opulência de imprevisíveis astros
    que irradiam um cheiro a tâmaras nocturnas
    sob a sede guardada em casulos abertos nos lábios do sal
    um espaço errático igual aos meandros da água
    o sulco da pedra como um covil
    em que o poeta acúleo tangia cordas de alaúde.

    Quem guardará na cozedura sublime dos fornos
    a cintilação das pequenas ruas na perfuração das muralhas
    que se tornam uma mantilha de ouro sob os céus?

João Rasteiro
Nas margens da poesia
Câmara Municipal de Silves, 2008

5 comentários:

hfm disse...

1 abraco de Strasburgo.

António Baeta disse...

Outro, de Silves. :)

ailéh disse...

ETA é pra mim ? :-))

António Baeta disse...

Referes-te à pergunta final do poema?
Tens que perguntar ao autor, o João, que é Rasteiro. :))

João Rasteiro disse...

Sim...é pra ela.
Um abraço,
joão rasteiro