quinta-feira, novembro 21, 2013

Memórias do blogue (VIII)





A aldeia abandonada do Talurdo


A aldeia abandonada do Talurdo, em 1994


Há na serra uma aldeia abandonada que, em Janeiro de 1994, visitei com uma turma da minha escola - O Talurdo.

Por essa ocasião publiquei algumas impressões que a visita me suscitou. São uma parte delas as que vos trago hoje nesta visitação às memórias do meu blogue.


  • (...)
    A primeira grande impressão é a do peso do silêncio, a impedir o pronunciar de uma palavra, a abafar na garganta o grito que nos apetece fazer sair, como forma de quebrar a estranha sensação de mistério que nos invade face aos testemunhos, estranhamente vivos, da presença humana. São as casas vazias onde se adivinha a mãe na cozinha a tratar do jantar, o pai no estábulo de volta dos animais que regressaram à aldeia, ao pôr-do-sol, recebidos pela gritaria alegre da criançada, a avó que à porta chama, ao longe, o neto retardatário, que ali ficou, junto à mina de água fresca ou na margem do ribeiro, absorto no saltitar da água - é que o cair da tarde cava uma tristeza cá dentro, no peito dum homenzinho que anseia tornar-se um homem!
    Não há ninguém.
    Quem teria construído e vivido nestas casas? Como e de que viviam as pessoas que nos esforçamos por imaginar a lavrar aqueles campos, a deslocar as dornas e pipas que ali estão, nos armazéns, a apanhar a lenha que aquecia aqueles fornos de pão, a pôr a albarda abandonada sobre o burrico que os levaria, serra acima, até à povoação mais próxima, para comprar o tecido para o vestido da mais nova, uns sapatos para o Zé, que já estão gastos, um arroz, que sempre batata e couve também cansa, e levar a farinha que o moleiro trabalhou e o medronho que o pai garante como o mais macio que alguma vez aquele alambique tenha produzido.
    (...)


3 comentários:

ohleoc aileh disse...

Foi com Imenso saudosismo que li este teu post. O meu projecto final de curso, tinha como base a recuperação da aldeia do talurdo para um projecto de Turismo Ambiental e rural. Obrigada António por esta tua escrita.

António Baeta disse...

Fico contente por teres gostado e manifestado essa tua apreciação.

António Baeta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.