quarta-feira, novembro 16, 2005

A nossa vida não pode continuar assim

Os sinais acumulam-se há muito; lá como cá.

Os bairros onde os pais só voltam para dormir, onde durante o dia só ficam os velhos, os desempregados, os jovens depois da escola, os jovens que já nem vão à escola. Os locais onde se cresce longe dos pais, entre crianças e adolescentes da mesma idade, que se confrontam com a sua diferença de cada vez que saem do bairro, e que ali se remetem, em aprendizagens de rua, de espertezas e sobrevivência, cujos valores são os do grupo, do pequeno grupo que aprendeu por si. Nestes bairros, como nos outros, há reprodução social.

Como aqui transcrevi, outro dia, a propósito do filme Crash:

«Movendo-nos à velocidade da vida, estamos prestes a colidir uns com os outros.»

Há que impor outra velocidade à vida.
Há que saber como, antes que seja tarde.

segunda-feira, novembro 14, 2005

De regresso a casa

Évora, Catedral, Novembro 2005, © António Baeta Oliveira
Mais fotos de Évora

De Évora, trago-vos esta foto: são as torres da Sé Catedral, pintadas da cor do Sol ao entardecer.
Trar-vos-ia a satisfação que senti ao voltar aqui a passear, lentamente, fazendo registos para memória futura, se tal fosse possível transportar. Dir-vos-ia do prazer do regresso ao contacto com o frio, que se fez sentir nas noites eborenses, se o pudesse descrever. Contar-vos-ia, não fora a discrição que se deve às relações de amizade pessoais, como é bom estar com velhos amigos e familiares, partilhando lembranças e fruindo do calor da amizade.
Do que não vos trouxe, não vos disse ou não vos contei, todos nós sabemos bem, felizmente, com o devido ajuste à nossa natureza e ao nosso percurso pessoal.

Testemunharei, tão só, que um dia quero voltar.

quarta-feira, novembro 09, 2005

Ausente por alguns dias

© António Baeta Oliveira

Vou estar ausente, por estas bandas, revendo colegas e amigos de há muitos anos.
Até breve!

segunda-feira, novembro 07, 2005

Sacode as nuvens...

A 6 de Novembro de 1919 nasceu Sophia.
Não tive oportunidade de aqui deixar, ontem, a singela homenagem que tinha programado. Faço-o hoje.

  • Sacode as nuvens...

    Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
    Sacode as aves que te levam o olhar,
    Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

    Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
    Mesmo que os meus gestos te trespassem
    De solidão e tu caias em poeira,
    Mesmo que a minha voz queime o ar que tu respiras
    E os teus olhos nunca mais possam olhar.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Cem poemas de Sophia
Editorial Caminho, Lisboa 2004

quinta-feira, novembro 03, 2005

Um Conto (XVII)

  • O meu amigo Jojó

    O Jojó morava do outro lado da rua, numa casinha térrea de barras azuis na porta e nas janelas.
    Foi meu colega na pré-primária. Logo pela manhã descia um pouco a rua, colocava-se frente à minha porta e aguardava que eu descesse e o acompanhasse até à escola. Eu cumpria escrupulosamente essa rotina. Lembro-me de que uma vez tinha descido primeiro do que ele e fui esperá-lo. Ele não gostou que o tivesse feito. Chegou mesmo a dizer-me: - «Não é assim que se faz!».

    Seguíamos juntos. Raramente conversávamos. Ele nunca assumia a iniciativa e eu obtinha invariavelmente respostas assertivas, breves e secas. Mas sei que ele gostava de mim. Considerava-me o seu melhor amigo; o seu amigo de confiança. Eu também sentia muito carinho e respeito pelo Jojó.

    Na escola, refugiava-se a um canto e observava-nos, disfarçadamente, pois sabia que o seu olhar desencadeava respostas de alguma agressividade, com caretas, arremesso de objectos ou confrontação física.

    O Jojó era diferente dos outros.

    Como e quando teria ele descoberto essa diferença? Que conjecturas retirava das atitudes dos colegas?

    Na escola primária a situação agravou-se, nomeadamente perante os colegas mais velhos, a quem eu próprio não me atrevia a opor-me ou a chamar a atenção. Também passou a ficar na escola, por um tempo suplementar, e perdeu a minha companhia no regresso a casa.
    Quando passei ao liceu, ele ainda se mantinha na outra escola. Mais tarde, na adolescência, quando se aproximava de mim, o que só acontecia se eu estivesse sozinho, passou a perguntar-me o nome desta ou daqueloutra das minhas colegas e um dia mostrou-me, às escondidas, uma carta que tinha escrito para a Margarida. Na longa folha de papel, de linhas azuis, além do nome dela - Margarida - tinha preenchido todo a carta com a mesma frase, sempre repetida - Eu gosto de ti.

    Com o passar dos anos e quando, de férias, regressava a casa, observava que o Jojó não era já o segregado ou o alvo da agressividade gratuita dos outros; antes lhes era absolutamente indiferente.

    Vi-o ontem, na Feira. Olhou-me quando o cumprimentei, mas nos seus olhos só vi ausência. À indiferença dos outros o Jojó foi ficando indiferente aos outros e nem já o calor da ira, da reacção à maldade, o habita. Ninguém sequer já proclama quando por ele passa: - «Olha o mongolóide!»
    Até me apeteceu dizê-lo, de raiva, a ver se reagia, se reactivava de dentro daquele invólucro, pelo menos um resto do Jojó que eu conheci.

    Não o fiz. Sei, cá no fundo, que nessa indiferença viverá o resto dos seus dias.


quarta-feira, novembro 02, 2005

عيد الفطر - 'idu al-Fitr

© (não identificado)

Terminou o Ramadão (رمضان).
Os muçulmanos comemoram amanhã uma das suas maiores festividades, o 'Aidu al-Fitr (عيد الفطر), no 1º dia do mês de Xaual (شوال).
Agradecem as bençãos que lhes foram concedidas durante o Ramadão.

A todos os meus amigos muçulmanos, os meus votos de um feliz dia.

Nota:
Amanhã, no Local & Blogal, é dia de conto.

terça-feira, novembro 01, 2005

O Terramoto de Lisboa

Passaram-se 250 anos.
Gravuras e textos sobre o Terramoto de 1755 ocuparam e continuarão a ocupar por mais alguns dias os orgãos de comunicação do nosso país. Aqui nos blogs irá ocorrer situação semelhante. Há importantes lançamentos de livros sobre o tema, tanto em Lisboa como no Algarve, com abordagens científicas e literárias de elevado interesse.
A minha cidade, Silves, foi das mais afectadas e diz-se que teriam ficado de pé "umas 20 casas".

Mais do que os factos relacionados com a sismologia e a destruição, gostaria de chamar a vossa atenção para a repercussão internacional que o Terramoto suscitou e que se relaciona com o Iluminismo, essa corrente de pensamento, de ordem científica e filosófica, de carácter racional, representada em Portugal pelos chamados estrangeirados e, particularmente, pela figura mais eminente da época, o Marquês de Pombal.
As explicações racionais do fenómeno colidiram fortemente com a mentalidade religiosa da época.
Voltaire escreveu um poema sobre o Terramoto, questionando-se sobre a Providência divina, assunto que voltou a abordar num dos seus mais famosos romances, Candide. Deixo um link para o Poema sobre o desastre de Lisboa (em francês), agora traduzido por Vasco Graça Moura e incluído na publicação a apresentar na capital, por esta ocasião, pela editora Alêtheia.
Permitam-me que vos deixe ainda o link de um ficheiro do Word, com uma tese, assinada por Robert K. Reeves e apresentada no Dickinson College - The Lisbon Earthquake of 1755 (em inglês) - sobre o confronto entre a Igreja e o Iluminismo, com várias imagens sobre a cidade de Lisboa, ao tempo, de onde retirei a ilustração que encabeça este post.