quarta-feira, julho 06, 2005

Um bater de pálpebras como asas

  • Viagem

    Há olhos que só olham o sonho; e, quando
    o sonho se dissipa, ficam cegos.

    Há pontes por onde não se passa, no inverno,
    embora ninguém as guarde: pontes
    sem arcos, abstractas como um arco-íris
    e frias como a chuva da madrugada.

    Um campo de erva que amadurece;
    o feitiço fútil dos faróis quando a manhã
    limpa as últimas névoas;
    um bater de pálpebras como asas:

    imagens que lembro

    e me restituem os olhos
    com que avisto a entrada da cidade.

    Nuno Júdice
    Poesia Reunida (1967-2000)
    Um canto na espessura do tempo (1992)
    Publicações Dom Quixote, Lisboa 2000


1 comentário:

concha disse...

Tão bom ler Júdice.Sempre tão bom. Mesmo quando os olhos estão cegos.