quarta-feira, agosto 10, 2005

Somos o que comemos

Sou o que como.
Sou o que vejo, oiço, cheiro, saboreio, sinto.
Sou o que leio, penso, discuto, elaboro.
Sou, no dizer de Ortega y Gasset, «eu e a minha circunstância».

Poderemos ser senhores das nossas preferências e decisões?

Quando comemos no restaurante que a publicidade, a proximidade, ou outra motivação qualquer nos levou a preferir, apresentam-nos, para que se escolha, a ementa que eles sugerem. Mesmo em casa, quem cozinha está balizado pelas ofertas do mercado e pelos hábitos forjados na infância, adaptados ao longo da vida.
Quanto aos sentidos, nada há de mais enganador. As informações sensoriais são tratadas no cérebro, que actua como um filtro cultural que se refina no convívio social, nas leituras, no cinema, na televisão, nas rádios, nos jornais, através de outras e variadíssimas formas de expressão, ao sabor das circunstâncias e dos condicionamentos.

Ora!

Quando assistimos a intervenções do capital financeiro comprando, abrindo e fechando jornais e estações de televisão, rádios e editoras, agindo em quase exclusiva conformidade com os interesses publicitários e a satisfação do lucro, moldando os gostos e as opiniões de enormes massas de gente em busca de uma identidade que se dilui e perde nas grandes urbes do anonimato.
Quando sabemos dos lobbies que pressionam instâncias governamentais, infiltrando-se nos aparelhos partidários, fazendo cair ministros, favorecendo investimentos do seu interesse, governando na sombra, apoiando ou retirando apoio aos partidos conforme os interesses financeiros da ocasião.

Quando nos deparamos com tudo isto, apesar dos filtros culturais, e nos vamos apercebendo, ao longo dos anos, que a um dado governo sucederá outro, que governará da mesma maneira apesar de se afirmar diferente, porque quem de facto manda não são eles nem essa classe média que dizem decidir o sentido do voto.
Quando ainda nos parece ser possível o livre arbítrio e o uso da nossa capacidade de decidir, mas sabemos bem lá no fundo que nada de fundamental se irá alterar a partir das nossas decisões e intervenções, não nos apetece perguntar se não seremos mesmo, como no conto abaixo, personagens de banda desenhada?

P.S.
1. Apesar da democracia nos ir permitindo saber notícias como a que se segue, que atingirá poucos e interessará ainda menos, permitam-me que a espalhe por mais gente: Destruição de vestígios romanos pode embargar campo de golfe.
2. Já deve ter dado para entender que o Verão gera algumas intermitências no funcionamento deste blog. Já pouco flui, nesta época, por este rio da blogosfera.

4 comentários:

Marco disse...

Caro António,

Só há pouco é que tomei conhecimento da destruição dos vestígios romanos da Vila Fria. Fiquei desolado! Como é possível fazer obras daquela envergadura sem consultar o IPPAR, para mais quando o arqueólogo do IPA já tinha feito referência junto do construtor e da autarquia da existência de vestígios naquela área.

Anónimo disse...

Saudações para o Local & Blogal! Muito boa a parte da poesia.

patrimonios.blog.com

Gasel disse...

Parabems pelo excelente blog :)

Santos Passos disse...

Talvez nos reste escolher o personagem que seremos. Eu, por exemplo, gostaria de ser o Miguelito, do Quino (Mafalda), ou o Linus, do Schultz (Charlie Brown).
Abração