sexta-feira, agosto 05, 2005

Um Conto (XI)

  • Alienação

    O constrangimento era absolutamente insuportável.

    Não era senhor das suas próprias ideias. Nem a mais vulgar das decisões lhe era permitida. Até o simples acto de se deslocar era cometido de momento a momento. O guarda-roupa, dos sapatos ao casaco ou blusão, nem sequer lhe era proposto escolher. Roupa interior, nem vê-la. Podia frequentar um café ou um bar, ir ao cinema, ao ginásio, ao teatro, à ópera, a um concerto. Vibrar no futebol, numa corrida de cavalos, num combate de boxe. Confrontar-se com o perigo de um tiroteio de rua, do assalto a um banco. Passear pelo jardim ou exercitar-se na alameda. Visitar um museu ou uma galeria de arte. Trabalhar. Viajar. Nunca lhe competiria a menor das decisões.
    Até o falar! Ainda por cima com palavras que não eram as suas.
    Falava por balões.

    Não tinha como desistir. Não havia como deixar de ser personagem de banda desenhada.


P.S.
A 6 de Agosto, para não esquecer

HIROSHIMA

6 comentários:

hfm disse...

Tb tu não tens como desistir... entre outras coisas ficas obrigado a escrever contos para nosso prazer!

Darlan M Cunha disse...

Caro António,

vem mesmo a calhar ver alguém que valoriza a própria região - no seu caso Silves.
Tomei a liberdade de postar no meu blog PALIAVANA a imagem intitulada Hiroshima.

http://paliavana. blogspot.com

Um abraço.

al-Farrob disse...

Ora convido o meu amigo, não apenas virtual :) , de há muitos anos, a visitar aí as minhas fotografias. Um abraço

Santos Passos disse...

Que belo achado, teu conto.
Abração.

Carox disse...

Também eu me senti assim, "sem a menor das decisões".
Este, já saiu, venha o proximo.

Adriano Costa disse...

Excelente, amigo.
Absolutamente fantástico!