quarta-feira, agosto 17, 2005

A Feira Medieval passou por aqui

Têm-me perguntado, com certa frequência, o que achei da Feira, como quem procura uma nota dissonante, uma apontamento polémico, algo que fuja ao tom generalizado e acrítico da apreciação comum. O que tenho a dizer já o disse o ano passado. Faça o favor de ler clicando aqui (no sublinhado).

Reafirmo que me diverti, que gostei, que me agradou, que foi bom, mas... que nada se alterou de fundamental. De Feira Quinhentista passou a Feira Medieval. Saíram os Camões, os Cabrais e os Gamas, os muçulmanos foram colocados fora da Medina, os judeus é como se não existissem, apesar de parte da Feira ter lugar na antiga judiaria.

A programação está demasiado dependente da empresa contratada para a animação geral, particularmente vocacionada para a Idade Média, simbolicamente estereotipada nos modelos do cinema americano. A culpa não é dessa empresa, certamente. A Câmara poderia contratar, eventualmente com a mesma empresa, um modelo diferente, que distinguisse o que se passa em Silves do que se passa em todas as outras povoações com castelo pelo país fora, numa moda que algum dia começará a enfastiar.
Entretanto a Feira cresce, crescerá ainda bastante mais e vamos ficar deslumbrados com o seu "sucesso", sem querer olhar para os perigos da massificação e inevitável desgaste da sua imagem.

Definam-se estratégia e objectivos. Talvez se conclua pela necessidade do reforço da nossa identidade, pela aposta em episódios que recriem a história local, sem complexos em relação ao seu período mais brilhante e que mais carácter confere à cidade; o da presença islâmica. Talvez se questione esta teimosia em investir na época alta, trazendo mais gente, que pouco ou nada contribui para a economia local numa época em que a oferta hoteleira (incluo obviamente os restaurantes) está esgotada na sua capacidade. Talvez se descubra que há novas tendências de procura turística que contrariam a massificação, como se revelava outro dia no Seminário sobre Turismo e Desenvolvimento, que decorreu em Silves, por iniciativa da autarquia.

Afirmava um dos conferencistas desse Seminário, referindo-se ao turismo de massas em centros históricos:

«Quando o turismo destruir a identidade da cidade, ele deixa de existir.»


P.S.
João Cardoso, Director da companhia de teatro que garantiu a animação da Feira Medieval de Silves, Viv'Arte, comentou o meu post acima. Convido-vos a ler esse comentário, seguido do meu próprio, clicando aqui.

17 comentários:

João Scottex disse...

Concordo plenamente! O turismo não pode ser atraído a uma localidade, apenas por manobras de markting, distorcendo a história, na procura do lucro fácil. Mas, acho que é preferível fazer uma coisa errada, do que não fazer nada. Até porque com opiniões como a tua é que podemos crescer.
E, sim. As actividades festivas no Algarve, já são em demasia (e copiadas de concelho para concelho), o Algarve precisa de promoçãp no resto do ano.
Um gr abraço.

Marco disse...

Parabéns pelo excelente comentário António! Como no ano passado não me agradou muito precisamente pelo facto de ser em tudo igual às manifestações de Castro Marim, Óbidos, entre muitas outras, este ano não fui à feira medieval e fui para as belas praias da Costa Vicentina :) . Cruzando a informação da sua opinião com a impressão que fiquei no ano passado a feira pecou, uma vez mais, pelo facto de não se diferenciar da demais existentes pelo país fora, caíndo no mesmo erro do ano passado! É pena assim como as pequenas anacronias sempre existentes neste tipo de eventos. Com estes pequenos reparos não quero afirmar que a iniciativa não deve ser repetida, mas acho que alguns aspectos têm que ser repensados para que este evento se possa diferenciar dos outros feitos por todo o Portugal!

hfm disse...

"Definam-se estratégia e objectivos. "
Desculpa, António, esqueceste como é o país em que vives? O mais que posso é juntar-me a ti e lutar por esses moinhos de vento.

Ludovicus Rex disse...

Como Visitante gostei, apesar do desfazamento do enquadramento histórico.
A outros problemas sou alheio.

António Baeta disse...

Gosto que me comentem. Aprecio mesmo que o façam. Convém esclarecer, no entanto, que relativamente a este ano não me refiro a "distorção da história" ou "desfasamento do enquadramento histórico", conforme parece deduzir-se de alguns comentários. A minha crítica é dirigida à falta de identidade histórica, àquilo que poderá distinguir esta Feira de todas as outras.
Quanto a gostar, também eu gostei e muito, por isso tenho medo de que se estrague.

andré disse...

Na mouche!!!
De que vale falarem de excelência, qualidade, eventos únicos no mundo, se a prática é uma forma (mal) disfarçada de turismo de massas?

al-Farrob disse...

Não fui! Poderia dizer que não fui porque tive outras coisas que fazer, seria meia verdade, porque se não estivesse a cair em moda as feiras medievais em série, teria com certeza feito um esforço.
Como não fui não tenho melhor opinião, mas não me surpreendem as opiniões já manifestadas, quer no post, quer em alguns comentários.

João Cardoso disse...

Sejam-me permitidas algumas pequenas correcções a aditamentos à sua apreciação, com a qual de resto estou genericamente de acordo.
A “empresa” contratatada pela C. M. Silves não é uma empresa: é uma Companhia de Teatro, parte do Laboratório de Expressão Dramática de Oliveira do Bairro, associação sem fins lucrativos e com estatuto de utilidade pública. Não é bem a mesma coisa: a nossa lógica não é a do lucro pelo lucro, é a da cultura, sua produção e promoção.
Não estamos particularmente virados para a Idade Média, como pode ver na nossa página: http://www.teatro-vivarte.org. Muito simplesmente é a Idade média, “simbolicamente estereotipada nos modelos do cinema americano” o que os clientes, por regra autarcas, mais nos solicitam. E numa lógica de sobrevivência, mas com três licenciados em História tentando evitar o estereótipo, é esse o principal teatro de recriação histórica que representamos.
Já produzimos dois Mercados Mouros, em Óbidos e em Sintra, entendendo-os como as primeiras tentativas feitas em Portugal de recriar historicamente o nosso séc. XI. Introduzimos uma componente de Mouraria, em diversas feiras medievais. Com grandes dificuldades, é certo, dada a escassez de pesquisa sobre a época, a que acresce a dificuldade em encontrar recriadores históricos ligado à época: o fácil é encontrar comerciantes, que apenas pretendem vender os seus produtos, sem qualquer preocupação de um mínimo de rigor histórico.
Gostaríamos de criar uma Judiaria, o que nos parece fundamental quando trabalhamos em Belmonte e Trancoso, por exemplo. Mas não é fácil encontrar artesãos que a façam, e muito mais difícil nos é conhecer a cultura judaica medieval, em Portugal.
A nossa proposta em Silves sempre foi a de valorizar o seu passado histórico. Até por razões regionais: no Algarve, Castro Marim tem os seus Dias Medievais (e faz muito bem), Lagos o Festival dos Descobrimentos (período áureo da cidade), e Silves esperamos que venha a ter por referência à sua especificidade histórica.

Por coincidência estes três eventos têm uma afluência elevada. É também esse um dos nossos objectivos. Trabalhar para o maior número de pessoas. É um teatro de massas, com actuações com 6 mil espectadores, na rua, que também gostamos de fazer.

Evidentemente que sabemos dos riscos de um crescimento excessivo: a Viagem Medieval de S. M. da Feira é disso um sério aviso, que sempre fizemos aos autarcas e técnicos com quem trabalhamos.

Em Portugal existem meia-dúzia de colectividades que se dedicam à recriação histórica, sendo o nosso o único profissionalizado.
Não temos uma Federação Portuguesa de Festas da História nem uma Associação de Recriadores Históricos, como na maioria dos países europeus. Essas deveriam ser as entidades a regular e aconselhar os autarcas portugueses. Semeiam-se feiras medievais onde deveriam ser do séc. XVII ou XIX, as datas não são coordenadas, levando a sobreposições que a todos prejudicam, não se tem a noção que uma recriação histórica não é exactamente uma feira de artesanato ou um qualquer outro evento, falta formação específica aos técnicos das autarquias, etc.
Essa falta não nos compete a nós suprir, embora nos esforcemos há vários anos para que se resolva, estando em curso diversas iniciativas que para criar tanto a federação como a associação referidas.

João Cardoso
Produtor da Companhia de Teatro Vivarte

António Baeta disse...

João Cardoso
Apercebeu-se, certamente, que o meu texto não é uma crítica à companhia que dirige e isso é manifestamente expresso, mesmo aqui, num meu comentário a outros comentários. A designação de empresa, sinceramente, não possuía nenhuma conotação malévola. A sua resposta repôs qualquer omissão da minha parte.
Sensibilizou-me a sua frontalidade e reconheço as suas dificuldades.
Saiba a autarquia, de futuro, propor um modelo mais condizente com a nossa identidade histórica e adequá-lo a uma época com menos impacto sobre o património, agora que se aproxima o final das obras na alcáçova. Saiba a autarquia desistir desta ideia da conquista da cidade (e do castelo como já me constou) e ajudar a entender a necessidade do encontro de culturas e não do seu confronto.
Fico agradecido pelo seu comentário.
Os meus cumprimentos.

Torquato da Luz disse...

Meu caro Toy:
Há duas semanas que não temos contos. Também entraram de férias? Um abraço e bom fim-de-semana!

António Baeta disse...

Torquato

Os contos não entraram de férias, mas sim a sua publicação. Acabei de escrever um com sabor a fim de Verão.
Publicá-lo-ei terminado Agosto.

Um abraço.

Anónimo disse...

Naturalmente aprecio a prosa e de certo geito a conversa tematica sobre o assunto em termos de gente bem comportada. Permitam-me concordar com alguém que falou de evento de massa com tendência especulativa. Falou-se em eventos similares... pergunto eu : alguém pensou nos residentes deste labirinto ? Somos pura e simplesmente assimilados como décor? Algém já ouviu falar em poluição sonora? Até a bicharada da zona andou desorientada de tal modo que uma vizinha ainda procura o seu gato amarelo ...
Não interessa a quantidade de ruas nem de barracas, nem o mais espalhafatoso possivel, nem mais dias nestas condições. Convém previligiar uma atmosfera mais recreativa, mais absorvedora de realidades estudadas da época, de modo contrário corre-se o risco da tão global vulgaridade.
Resta-nos acreditar que a experiência e a genuina vontade de fazer o melhor seja apanágio dos que lideram a organização deste evento.

Remexido disse...

..será que não se enquadra muito melhor uma exploração do período islâmico do que do período medieval da cidade!? Vejam o exemplo de Mértola que até já aparece no mapa. Só um conselho..

Anónimo disse...

Opiniões muito válidas!Todas. mas sinceramente quando vejo pessoas a criticarem algo, dizendo que nem estiveram presentes parece-me algo descabido.. a opinião de um residente tambem me deixou algo incomodado e mesmo espantado. que culpa tem a organização do desaparecimento de um gato? tenham paciência... quando não se passa nada é porque a cidade está parada, quando se passa alguma coisa é porque incomoda?!!!! decidam-se meus senhores... quanto ao turismo de massas até concordo, agora convenhamos que uma feira medieval que dura 4 dias não se enquandra propriamente nessa definição.. também achei curiosa a comparação entre Castro Marim e Silves. é certo que as recreações são semelhantes, mas com as devidas diferenças... em Silves notou-se a preocupação de que as pessoas não fossem meros espectadores, mas que fossem parte integrante da recriação (com falhas certamente. Castro marim é um negócio, silves ainda não.. e falo porque estive nas duas!
Continuem a emitir a opinião porque é importante, agora por favor não falem apenas por falar. ajudem a divulgar o nome da nossa terra, ajudem a melhorar o que de bom se faz...

Ines disse...

Nada me espanta que as opiniões sobre a feira medieval de Silves sejam as que foram aqui expressas! Quando o objectivo é obter lucro e popularidade a qualquer preço, sem dar a devida atenção ao rigor histórico, é o que acontece.
Se realmente o lucro não é o objectivo, a Vivarte poderia sempre recusar-se a pactuar com este tipo de eventos.
Quem conhece bem a Vivarte sabe que a designação de "associação sem fins lucrativos" é um mero disfarce para fugir aos impostos!
Saibam, meus senhores, que esta associação "sem fins lucrativos" tem pelo menos um professor destacado, pago pelo erário público (todos nós!), Há vários anos, para andar a passear pelo país.
Veja-se também o património que tem sido adquirido pela referida associação nos últimos anos!
Já agora... porque será que esta associação não permite que sejam expressas opiniões no seu blog? De que têm eles medo?
Deve ser da verdade, concerteza!

Ines disse...

Já agora, a quem interessar, deixo o site de outra associação que faz recriação histórica no nosso país.
Estes, mais fieis ao rigor histórico, e mais abertos a criticas e opiniões... penso eu!
www.ocsp.pt

Viva_a_História disse...

Cara Inês, não poderia estar mais de acordo contigo.