segunda-feira, agosto 23, 2004

A Feira Quinhentista

Feira Quinhentista, Silves, Agosto 2004, © António Baeta Oliveira

Diverti-me passeando pelas ruas pejadas de gente que também se divertia, observando e negociando junto das tendas dos cambistas (onde se trocava euros por xilbs, a moeda de conta para a ocasião), dos oleiros, dos padeiros, dos latoeiros, dos "ourives", dos correeiros, dos taberneiros, ou se aglomerava para assistir à passagem de um cortejo, à representação de um auto, à actuação de um grupo de músicos ou de bailarinos, a torneios de espada, e se curvava à passagem de grupos de nobres ou se desviava dos mendigos e das arruaças populares.
Gostei do incentivo da organização ao propor que trocássemos as nossas roupagens habituais do dia-a-dia pelas fantasias de um Camões, de um Gama ou de um Cabral, de um fidalgo, de um bispo ou de um monge, ou de uma simples figura popular. Agradou-me ver o centro histórico animado como nunca antes e confirmar a sua quase natural adaptação a eventos de recriação histórica. Foi bom, também, ver a forma como a população aderiu ao evento e muitos se me dirigiram revelando um certo orgulho por manifestações desta natureza na sua cidade, afirmando a sua concordância e o seu entusiasmo, recordando outro evento desta natureza, há quinze anos atrás, quando do teatro e desfile de rua que evocava a figura do silvense Ibn Qasi.

Mas...
            apesar do respeito pelos profissionais que aqui estiveram e que se limitaram a desempenhar, bem, o que lhes foi solicitado ou exigido, não concordo que se atropele a História e se coloque árabes ou judeus em período manuelino (daqui expulsos por fundamentalismo religioso, a encobrir a cobiça da sua fazenda e seus haveres), para além de outras incongruências de menor relevância. Não me satisfaço ao ver que o que poderia ser uma verdadeira reconstituição, recriando figuras e factos de uma história tão rica como a de Silves (que a maioria da população desconhece, pois não integra os saberes do currículo escolar), se fique pelo mero divertimento e onde, retirando o enquadramento, tudo se assemelha ao que se pode assistir na cidade da Feira ou em Almeida ou Óbidos, em Castro Marim ou Cacela-a-Velha. Não aceito que estas iniciativas se não integrem num plano de desenvolvimento turístico da cidade, afirmando-se pelo rigor e pela diferença, contribuindo para a sua economia e seu desenvolvimento, mas antes nivelando-se pela mediocridade de um cartaz turístico de ocasião, deixado sem critério, nem planeamento, disperso sobre os balcões dos hotéis e restaurantes. Não me conformo com esta concepção de turismo, que se não baseia em estudos de mercado, que não é alvo de trabalhos e projectos, de planeamento, e que os próprios comerciantes locais não valorizam, pois sabem que nada de especial lhes trará mais uma dúzia de cervejas ou refrigerantes, uns quantos postais ilustrados, uns sapatos que se romperam ou umas calças, uma saia ou uma blusa que se sujaram na ocasião da visita, por turistas que, à noite, regressarão aos seus hotéis ou apartamentos, longe desta cidade, pois aqui não há outra oferta.

Que venham mais recriações históricas! Que se planeie uma indústria turística de cariz histórico e ambiental! Que se valorize o que de melhor Silves tem para dar!

Esta minha crítica não é a da má língua, nem motivada por quaisquer ditames de ordem pessoal ou partidária, mas tão só o meu modesto contributo para uma reflexão que é urgente que se faça.


6 comentários:

lmv disse...

Tenho muita pena de não ter conseguido comparecer na Feira Medieval. Mas concordo com tudo o que o Baeta diz no seu artigo, nomeadamente com a valorização turistica deficiente que temos em Silves e no sub-valorização que lhe damos.

Carlos Rocha disse...

Ora aqui está no comentário do lmv, o grande equívoco deste evento. A Feira não retratava a época Medieval, mas a Quinhentista. De facto o evento que se tentou recriar em Silves nos dias 14 e 15 de Agosto, está integrado nas Comemorações dos Quinhentos anos da entrega do Foral Manuelino a Silves datado de 1504.

Luisa Anselmo disse...

Olá!
De inteiro com a tua lúcida opinião!
Vivemos entre os "Dioses y diables mediáticos" de Ramón Reig , periodista e prof. universitário espanhol. Eles tudo vão
invadindo e decidindo

Vitah disse...

Bem vindo !!! Ainda não tive tempo para ver e ler os posts de das férias, mas prometo cá voltar...Fiquei chocada com aqueles fabulosos pilaretes na rua das farmácias....Fazem mesmo conjunto com os edificios antigos...e os semáforos da praça??? Fantástico !!!!

António Baeta disse...

Um beijinho, vizinha Vitah! Gosto de te ver por aqui.

Maria Lourenço disse...

Foi uma rica festa, não digo o contrário... mas havia dispersão de olhares. Gostaria de ter visto um Roteiro/Guião explicitando a natureza de certas representações.
Depois, pareceu-me, que o povo não terá entendido o que se procurou comemorar.Aprenda-se corrigindo os erros