Por coisa de tão pouca monta renunciar-se, assim?!
Vi-o, sentado num dos bancos da álea da avenida sobre o rio.
Observei-o, absorto no airoso e conjugado voo de um bando de gaivotas, nas repentinas inflexões de rumo dos cardumes das jovens tainhas, no divertido e dinâmico deslizar dos patos em fila indiana, no súbito e inesperado esvoaçar de uma garça, no fluxo regular da maré, na enchente, arrastando consigo uma qualquer embalagem vazia.
Passei por ele, cumprimentando-o, sem resposta. Voltei a passar, vagaroso, obstruindo-lhe a paisagem. Olhou-me, mas no espelho do seu olhar só avistei a sua ausência.
Disse-me o Diogo que há mais de três semanas que a vida daquele homem tem esta aparência vegetativa: comer, dormir e ficar-se, desta maneira. Disse-me também que há pouco mais de um mês este mesmo homem lhe confidenciara a sua profunda desilusão com a situação que se vive no país e no mundo e lhe afirmara não confiar mais na humanidade.
O Diogo não entendia:
- «Por coisa de tão pouca monta renunciar-se, assim?!»
quinta-feira, janeiro 12, 2006
Um Conto (XX)
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4 comentários:
Parece que estamos sintonizados, amigo Baeta.
;)
passei para deixar um beijo
Dois pólos que nunca se atrairão e que, como sempre, retrataste tão bem. Gosto da fluidez da tua construção.
Ontem também passei por ele, olhei-o e também só avistei a sua ausência. Infelizmente, não é só ele com este olhar de não estar cá, de desilusão,...
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