terça-feira, setembro 20, 2005

A abstenção é o descrédito na mudança

O que escrevo por aqui tem a ver com as minhas preocupações pessoais, nas quais incluo a minha relação com a cidade, os cidadãos e a cidadania.
Se, porventura, ultimamente me venho referindo com maior frequência à actuação da Câmara Municipal de Silves, particularmente à da sua presidente, a quem, em última análise, cabem as responsabilidades, tal se deve a uma maior profusão de manifestações públicas e declarações, em crescendo certamente até ao acto eleitoral.
É assim natural que eu tenha um maior número de assuntos locais sobre que me pronunciar, evitando as diatribes do diz-que-disse, contribuindo com a minha opinião crítica, contrapondo sugestões e actuando com isenção e independência em relação ao jogo partidário.

Acontece que o acto eleitoral traz consigo outras vozes, que muito raramente se fazem ouvir, e que se me dirigem, dizendo contar connosco, com as pessoas, com mais ou menos energia renovável ou tradicional.
Acho que a oposição também tem contas a prestar, embora não pareça. É que muitos de nós, muitas vezes a maioria de todos nós, acabamos por votar na oposição.

O que me pergunto é o que farão de futuro os que não vierem a alcançar o poder e cuja atitude, nessa circunstância, poderia ser um dos motivos que me conduziriam ao voto.
Não estou interessado em quem detém o poder - «o poder sempre corrompe» - mas antes em quem o fiscaliza, em quem se lhe opõe, contrapondo uma outra forma de encarar as soluções políticas, que não as partidárias ou de mera gestão da coisa pública.
Se as actuações das autarquias se limitassem a decisões sobre o que é "melhor para o concelho", como se cada um não tivesse um entendimento próprio do que é ou não o "melhor para o concelho", não precisaríamos de eleições. Bastar-nos-ia um bom gestor, escolhido em concurso público.

O que espero, então, dos que vierem a ficar na oposição, é poder contar com eles nos actos de fiscalização e na disponibilização regular dessa informação:

  • da parte dos vereadores, sobre a forma como votaram e por que o fizeram dessa maneira, em cada uma das decisões da câmara municipal, exigindo, não só, que se tornem públicas as actas, mas que o seu teor consiga chegar ao conhecimento do mais comum dos cidadãos, envolvendo-nos na compreensão das decisões políticas, fazendo viver a cidadania;
  • da parte dos representantes na Assembleia, que se não limitem a disputas partidárias, quando não pessoais, em mimetismos da actuação parlamentar, que afastam os cidadãos pelo desinteresse; quanto às actas e sua divulgação, exigir que não se fique pelo mero cumprimento da lei, mas que elas sejam um contributo à discussão pública, à participação democrática dos cidadãos; eventualmente um tema de debate nas assembleias de freguesia.

Sonhos meus, dirão.
É porque existe o sonho que eu acho que votamos, tentando mudar, talvez mais a maneira como os partidos procedem, inovando, do que propriamente a cor no poder.
Quando deixarmos de crer na mudança, para que servirá o voto?

4 comentários:

João Scottex disse...

Mais uma vez, e mesmo correndo o risco de me tornar repetitivo e pouco original, tenho que te informar que estou completamente de acordo contigo, e é pena que os políticos não conheçam a expressão "bom-senso", pois o teu editorial é isso mesmo, uma lição de clarividência e bom-senso, conjugação quase proibida à nossa classe política, o que nos deixa a todos muito tristes...
Abraço.

hfm disse...

Só que tb já começo a pensar para que serve o voto se "eles" nunca mudam mal chegam ao poder?

Gasel disse...

Bem dito! :)

Zé do Alicate disse...

Entretanto vai dar de beber à burra...