segunda-feira, setembro 26, 2005

As laranjas, de Ibn Sara

Faz tempo que aqui não deixava um poema daqueles autores que habitaram este mesmo espaço geográfico, se bem que noutra época e civilização, e aqui escreveram sobre um imaginário que nos é comum e que o tempo e os homens ainda não conseguiram dirimir.
Ibn Sara, de Santarém, figura entre os meus poetas preferidos e aqui mais citados. (Veja a compilação ao fundo da página)
O poema que vou transcrever, e que me toca de perto porque o seu tema é o horizonte do meu dia-a-dia, já aqui foi referido, numa outra tradução, a que podeis aceder através de um link que figura neste post, de Maio de 2005.
Dedico-o à Manuela, de Dias com árvores.

  • As Laranjas

    laranjas são brasas vivas sobre ramos
    ou rostos espreitando entre colinas verdes?
    e a ramaria, folhas que baloiçam
    ou formas frágeis que me causam pena?

    vejo-te, laranjeira, com os teus frutos,
    lágrimas rubras dos tormentos do amor.
    são sólidos mas, se fundidos, vinho seriam
    moldados pelas mãos mágicas da natureza.
    são bolas de cornalina sobre ramos de topázio
    à espera do açoite da brisa.
    porque tais frutos beijamos,
    ou seu cheiro aspiramos,
    eis que às vezes nos parecem
    ou rostos de raparigas
    ou pomos feitos perfume.

Adalberto Alves
O meu coração é árabe
Assírio & Alvim, Lisboa 1999

Improvisation
Alla
Fondou de Béchar
al sur (1994)


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7 comentários:

João Scottex disse...

Laranjas?... Muito algarvio, o poema é belo, e tens razão há coisas belas em todos os tempos, particularmente quando havia mais tempo para observar.
Abraço.

eduardo disse...

... e ao escutar este som que aqui colocaste, parece até que as laranjas estão um pouco mais perto da nossa própria mão.
Apenas pela forma como me senti ao ouvir, deu-me a ideia de que o meu coração também pode ser árabe.
O que a gente descobre...

Os meus cumprimentos, António.

eduardo disse...

Re: (isto é cá com a gente, não liguem)

Não fiques! Sou um pouco árabe, muita maluco, mas falta-me um bocadinho assim, tás a ver?, para ser sucida.
Nas "minhas revoltas de escravos" ninguém morre. Gostava apenas que as coisas funcionassem melhor.

hfm disse...

"são bolas de cornalina sobre ramos de topázio
à espera do açoite da brisa."

tão simplesmente belo!

António Baeta disse...

Nem os árabes o são, meu caro. Nem os cristãos. Nem os judeus. Nem os ateus, nem nenhuma outra arrumação que se queira encontrar.Há por aí é fanáticos a mais.
Um abraço e alegria!

Anónimo disse...

É a primeira vez que me dedicam um poema, num blogue (ainda não consegui deixar de sorrir)e é também a primeira vez que comento ao som de música (e que me apetece verdadeiramente ouvir, de tal maneira acho que se coaduna com a beleza das imagens do poema)
Fiquei sem jeito, como diz o "povo"
Muito obrigada António por este momento especial.
Manuela

Torquato da Luz disse...

Parabéns pelo bom gosto do poema - e da música!