sábado, setembro 03, 2005

Equipamento público em inauguração privada

Dia da Inauguração, após restauro, do Teatro Mascarenhas Gregório, em Silves, © António Baeta Oliveira

A Câmara Municipal de Silves vai inaugurar, após restauro, o velho Teatro Mascarenhas Gregório, mas vai fazê-lo numa cerimónia privada, já que só há lugares para convidados; por sinal com a exigência cerimoniosa de black tie, conforme me foi revelado.
"Gente fina é outra coisa!"

Quem opta decide, apesar das circunstâncias, de acordo com as suas ideias e a forma como entende o mundo. Daí que as decisões sejam reveladoras de quem opta.

Cada um convida quem quer e não tem que se justificar perante alheios, mas a sua decisão não deixa de ser reveladora.
Já uma câmara municipal não se pode alhear dos seus munícipes, e as suas decisões não deixam de ser reveladoras de uma maneira de ser e estar, sujeitas ao parecer e julgamento dos cidadãos. Uma democracia vive do julgamento dos cidadãos, mas não sobrevive sem a sua participação activa.

O Teatro Mascarenhas Gregório foi durante meio século, aproximadamente, sede da Sociedade Filarmónica Silvense. Ali, por via da música, do teatro, de outras actividades que solicitam a participação colectiva, a expressão artística e cultural, passaram muitas gerações dedicadas e altruístas. Será que entre os convidados, e por esta específica razão, estarão algumas dessas pessoas, particularmente os seus dirigentes e figuras mais representativas, já que a todos seria impossível convidar para uma só sessão inaugural e eventualmente muitos seriam esquecidos?
Aos que mais interessa a actividade cultural são os seus agentes, os que usam parte do seu tempo na realização de actividades e se congregam em associações e colectividades afins. Será que entre os convidados, e por esta razão específica, estarão algumas dessas pessoas, particularmente os seus dirigentes e figuras mais representativas?
Houve até em tempos uma Comissão visando a restauração deste velho teatro e que encaminhou muitas das iniciativas que conduziram à definição e aquisição do edifício como de interesse municipal, o planeamento de projectos apresentados em várias instâncias europeias e a definição de intenções do restauro que hoje se inaugura. Será que entre os convidados, e por esta razão específica, estarão algumas dessas pessoas, particularmente os seus dirigentes e figuras mais representativas?
Duvido de que estes fossem os critérios utilizado pela Sra. Presidente, responsável, em última análise, pelas decisões da autarquia. Melhor. Tenho a certeza de que esse não foi o critério, pois conheço-o através de outras decisões desta câmara municipal, sempre reveladoras da sua maneira de pensar e da forma como interpreta o mundo.

Quem serão então os convidados? Haverá quem não saiba?
Claro que serão a classe política regional e local, eventualmente um ou outro ex-ministro ou secretário de estado, com predominância para os correligionários políticos laranja, alguma oposição para não parecer mal, certas associações e instituições, empresários e amigos próximos da Sra. Presidente.
Poucas pessoas de Silves, para além das que integram a comitiva que descrevi.

«Isto é só p'ra nós!», quero dizer, é só para eles.

E tudo isto para fechar o teatro no dia seguinte, pois as obras terão que continuar.

Fico por aqui, embora tenha mais algumas coisas para dizer a este propósito, mas a escrita já vai longa.

P.S.
Já me constou que se publicitou na televisão que a entrada é livre.
Se tal for verdade é porque o assunto foi repensado à última hora.
Contactei por telefone um responsável pelo departamento cultural, perguntando como deveria proceder para adquirir um bilhete e fui informado de que a inauguração era exclusiva para convidados. Se não fora convidado não poderia assistir à inauguração.
Tal responsável ainda não me informou em contrário.
Contudo, privada ou pública, o fundamental da minha posição sobre o assunto não sofre alteração, pois a análise recai sobre o critério de escolha dos convidados.

6 comentários:

JC disse...

É a cultura para as elites, que muito apreciam as suas festinhas privadas, cheias de figuras do Jet set e em ambiente cuidadosamente seleccionado.
O povo esse, fica do lado de fora, atrás das grades e contenta-se em ver á distância os Castelo Brancos e afins, por entre os flashes das televisões.
É o Portugal que temos e que nos envergonha!

António Baeta disse...

Eu não me estou a referir a esses elites de fantasia, João. Estou a referir-me ao poder e seus mandatários.

Anónimo disse...

E não foi sempre assim?
Que diferença há desde quinhentos anos antes???...


www.folhadalte.com

Der@ disse...

O "apagamento" de comentário anterior ocorreu por lapso.
Dizia eu que, aquando da inauguração do Teatro Municipal de Faro o dislate foi semelhante. Escrevi sobre isso na altura: http://repletopt.blogspot.com/2005/07/3-um-teatro-e-alguma-cultura.html.

Margarida Ramos disse...

Eu fui convidada! A partir de hoje, pertenço à elite da Sr.ª Presidente.
Mas, por mil e uma razões que acho injustas e que não vão de encontro com os meus princípios, optei por oferecer o meu convite a uma pessoa que para mim é muito importante e porque tem contribuído grandemente para a cultura desta nossa cidade. Gostava de ter uma “varinha de condão” para poder multiplicar o convite! Pois podem estar certos que os entregaria ás pessoas certas, só que o discurso de campanha política da Sr.ª Presidente teria de ser alterado, e isso, ela não sabe ou não quer fazer!
Um abraço para todos aqueles que desejavam estar presentes numa inauguração inacabada.

manuel castelo ramos disse...

Eu fui o feliz contemplado com o convite referido no comentário anterior. E dele tirei farto proveito, acreditem! Vi, fotografei, falei e...pasmei.Esta não era a inauguração que o Teatro Mascarenhas Gregório merecia.É tanto o que indignou que ainda estou em "digestão", e os remeto - sem liçença do blogger-mor - para o meu Saco dos Desabafos, onde farei a este respeito um post, digestão seja feita. http://www.sacodosdesabafos.blogspot.com/