quarta-feira, setembro 28, 2005

Na linha dupla das estações

Nuno Júdice regressa ao Local & Blogal como já sucedeu várias vezes (visite a compilação ao fundo da página), quase sempre quando aquilo que dele leio condiz com o que me alegra e me rejubila, ou com o que me atormenta, me inquieta e me incomoda, enfim, com o meu "estado de alma", seja lá isso o que for.

  • Poema

    Escrevo na linha dupla das estações:
    o outono, o inverno; e ainda
    a primavera, ou o verão - quando
    o azul cai, ao fim da tarde,
    ou não chega a nascer
    das grandes névoas matinais.

    Sei que, no fundo do poema,
    um sentimento se arrasta;
    e coincide com o tempo
    que o inspirou, com esse lodo
    de emoções que se juntou
    na alma, submergindo na sua
    monotonia o impulso divino.

    Não perco tempo a ver
    as árvores, os arbustos que se
    enchem de flor com o primeiro
    sol, ou as pedras molhadas como
    dorsos de antigos animais. Volto
    para mim próprio como quem
    regressa de viagem; e não
    estava à minha espera,

    intruso, visita
    indesejável na minha vida.

Nuno Júdice
Meditação sobre Ruínas (1994)
Poesia Reunida (1967-2000)
Publicações Dom Quixote, Lisboa 2000

5 comentários:

Luís N disse...

Tive a oportunidade de o ouvir ler alguns dos seus poemas à pouco tempo, perto de Albufeira, num desigando encontro de poetas. Não estiveste lá. pois não?

um abraço

luis n

António Baeta disse...

Ler um poeta já me consome tanto; ouvir vários seria demasiada confusão para a minha cabeça.
Nesta questão aprecio coisas mais tranquilas e menos chiques. Pelo que senti no tom da tua pergunta, também preferes maior "tranquilidade", não é!? :-)

hfm disse...

Belo encontro hoje, aqui, com Nuno Júdice. Fizeste-me lembrar que o devo reler. Um abraço

musalia disse...

gosto muito da poesia de ´Nuno Júdice, os poemas são muito belos.

beijo.

HFR disse...

E o Nuno Júdice lá ganhou mais um prémio: o Fernando Namora. Abraço do Helder.